quarta-feira, agosto 14, 2013

Opinião: colonialismo retrógrado no desporto

A questão dos transportes no desporto não pode continuar a ser a barafunda que tem sido nestes dois últimos anos, até porque se trata de um "dossier" demasiado sério para ser tratado com leviandade. Não sei o que é que foi negociado neste domínio, se é que alguma coisa foi negociada, depois da entrada da colonialista troika em Portugal. Não sei se os sopeiros da Alemanha e do capitalismo europeu mais asqueroso e especulativo fizeram exigências a Lisboa neste processo e se porventura alguma coisa tem sido mantida escondida da opinião pública.
A recente notícia, envolvendo desta feita a Federação Portuguesa (?) de Basquetebol - depois do mesmo ter acontecido com outras federações ditas nacionais - veio colocar em evidência a anormalidade de uma situação perfeitamente abjecta e que exige uma intervenção política concreta, de pressão, de denúncia, que não se pode ficar nem por simples protestos que nada resolvem, nem por denúncias na comunicação social que muito menos servem seja para o que for. Sabe-se que o Representante da República, como lhe competia, diga-se em abono da verdade, já terá solicitado a intervenção do governo de coligação de Lisboa, particularmente do ministro Marques Guedes que tem sido ao longo dos anos um interlocutor muito positivo da Madeira e que mantem com Guilherme Silva uma porta permanentemente aberta que a amizade entre ambos abriu e consolidou ao longo dos anos.
O problema é que o Representante da República, na minha opinião, devia alterar âmbito do seu pedido de intervenção do governo de coligação de Lisboa e em vez de se limitar a uma competição em concreto na modalidade de basquetebol, pugnar, através da Presidência da República, pela afirmação da necessidade de que esta questão do transporte das equipas desportivas insulares participantes em provas nacionais deva ser objecto de uma negociação séria, alargada e pragmática, abrangendo todas as modalidades, para que situações como estas não se repitam. E envolvendo, obviamente, também os Açores porque acabam por sofrer dos mesmos problemas que a Madeira, apesar de possuírem como alternativa a companhia aérea regional SATA, empresa pública regional, 100% propriedade do Governo Regional, mas que não acredito esteja disposto a ser uma espécie de "casa de caridade" do desporto regional açoriano, sem as adequadas compensações financeiras.
Sei que nas Canárias, este processo continua envolto em confusão e muita polémica, dado que Madrid introduziu cortes significativos no financiamento das deslocações à metrópole, pelo que os clubes tiveram que reduzir a dimensão das suas comitivas, o tempo de estadia em Espanha, sempre que tal for possível, e impor um rigoroso critério de participação de modalidades e de clubes em provas nacionais, o qual não se compadece com aquela teoria populista e demagógica que cabem todos nessas competições, desde que consigam resultados. Não cabem não. Estamos a falar, cá como em Canárias, de um novo ciclo desportivo, depois de um primeiro marcado pela aposta ma massificação da sua prática e na construção de infra-estruturas. O governo de Canárias também reduziu drasticamente os apoios financeiros para as deslocações inter-ilhas, pelo que várias provas regionais dos calendários oficiais foram postas em causa, alternando com ameaças e pressões de clubes, alguns deles chegaram mesmo a propor o seu próprio encerramento.
Repito, o processo continua aberto, a gerar discussão e polémica e embora tenham sido alcançados alguns avanços nos últimos dois meses, persiste a procura da solução adequada e que melhor sirva aquela região espanhola e a sua participação nas provas desportivas nacionais. Até porque o governo autónomo de Canárias, da responsabilidade de uma coligação entre o PSOE e os nacionalistas da Coligação Canárias – o PP ganhou as eleições regionais de 2012 mas foi relegado para a oposição devido ao acordo de coligação regional, o que também explica as grandes dificuldades negociais com Madrid… - está também a braços com uma dívida regional da ordem dos 5 a 7 mil milhões de euros e uma redução progressiva do financiamento do estado para as comunidades autónomas, pelo que as disponibilidades financeiras são reduzidas. Obviamente que no caso da Madeira, penso que haverá muita coisa a fazer, também da parte dos clubes, mas isso não pode ser feito com recurso a medidas avulsas, muito menos de carácter persecutório. E embora os clubes de futebol mais representativos, tenham também nos custos dos transportes o seu “calcanhar de Aquiles”, não podendo por isso ser postos à margem de uma solução global que venha a ser negociada com Lisboa e acordada, coloco-os de fora nesta minha apreciação, mais virada para as modalidades ditas amadoras e nos escalões de futebol mais inferiores.
Estamos perante uma atitude colonialista e anti europeia, na medida em que contraria o primado europeu da coesão territorial. Por isso, a persistir este acto de colonialismo retrógrado segregacionista, que em meu entender transcende muito para além disso, a Madeira deve passar imediatamente ao ataque em sua defesa e dos seus clubes e atletas. Como? Desde logo apresentando uma pormenorizada e bem fundamentada queixa à Comissão Europeia, denunciando esta atitude persecutória e anti-coesão nacional e europeia, pedindo a sua intervenção junto de Lisboa. Mas a RAM deve imediatamente dar conhecimento da sua iniciativa às demais regiões europeias devidamente reconhecidas como tal, particularmente as insulares, à própria UEFA e de todos os demais organismos europeus em cujas modalidades a Madeira tenha equipa envolvidas em competições nacionais e europeias.
A ideia seria a de denunciar esta situação escandalosa de discriminação anti-desportiva e anti-europeista, devendo constar dessa iniciativa de denúncia a completa inventariação dos atletas por modalidades, dos clubes em actividade, dos títulos nacionais conquistados, das presenças em provas europeias, dos custos dos transporte por cada deslocação e denúncia fundada de tratamentos diferenciados dados pelo governo de Lisboa às equipas nacionais do Continente, sempre que elas se deslocam à Madeira e aos Açores.

O ideal seria a negociação de um manifesto reivindicativo conjunto da Madeira, Açores e Canárias, porventura alargado à Córsega. Sicília, Sardenha e outras regiões europeias com presenças em competições desportivas nacionais e que, por estarem mais distantes, assumem custos que as penalizam e às suas instituições desportivas. Sem uma resposta adequada, envolvente, de denúncia firme, estaremos confrontados com decisões arbitrárias e as regiões, enquanto elos mais fracos, estarão sempre vulnerabilizadas, também a este nível, o das deslocações das suas equipas e dos seus atletas para provas nacionais.