segunda-feira, dezembro 06, 2010

Reportagem: "Os segredos dos líderes em Lisboa"

"Foi o acontecimento do ano, que colocou Portugal nas bocas do Mundo. Mas poucos sabem porque é que a chanceler Merkel recusou andar no carro fornecido pela organização, ou que razão levou Silvio Berlusconi a encomendar 30 toalhas para o seu quarto de hotel. O Correio da Manhã conta--lhe onde ficou o helicóptero de Obama (o ‘Marine One’), quais os sabonetes utilizados por Hillary Clinton, e que vinho beberam as mulheres dos chefes de Estado e de governo enquanto ouviam cantar Katia Guerreiro. Para o ajudar na cimeira, em especial no encontro paralelo Portugal/Estados Unidos, o primeiro-ministro, José Sócrates, requereu a presença de dois elementos da sua confiança, David Damião, que se encontra colocado na embaixada em Madrid, e Maria Rui, a trabalhar na embaixada em Bruxelas.
MERKEL E OS BMW
Todas as 60 delegações que vieram a Lisboa para a cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) exigiram carros blindados para transporte das suas comitivas. Para dar resposta a esta exigência, a organização pediu ajuda às várias marcas que trabalham com o Governo português. A marca alemã Audi foi a mais expedita na resposta e, quase imediatamente, disponibilizou 50 carros blindados modelo A8. Perante a escassez de viaturas para satisfazer todos os pedidos, a organização decidiu que só os chefes de Estado ou primeiros--ministros teriam direito a carro blindado. A comitiva alemã manteve a sua exigência: três carros completamente blindados. A resposta portuguesa foi que só podia ter uma viatura blindada: um Audi A8 para transporte da chanceler. Em função do impasse, os alemães fizeram jus à sua eficiência e mandaram vir, directamente da Alemanha, três BMW blindados. E foram estes os carros que transportaram a comitiva da senhora Merkel durante a sua estada em Lisboa.
A ESQUADRILHA DE OBAMA
A delegação americana foi a que movimentou mais meios logísticos. Ao todo, foram 17 aviões que aterraram em Portugal transportando carros, tecnologia, meios humanos e tudo o que é necessário para satisfazer as exigências do presidente, Barack Obama, e da secretária de Estado, Hillary Clinton. O famoso ‘Air Force One’ (que transporta o presidente) veio em duplicado. Dois Boeing 747 cuja única diferença é a matrícula. Hillary Clinton fez-se transportar num Boeing 757. Ao serviço dos americanos veio também um jacto executivo, um Gulfstream, e 13 C-17 que transportaram, entre outras coisas, os carros que transportaram toda a comitiva dos Estados Unidos. Aliás, os americanos foram a única comitiva que dispensou totalmente as viaturas postas à disposição por parte da organização. Foi também num C-17 Globemaster que veio o helicóptero presidencial, o ‘Marine One’ que ficou estacionado na Base Aérea de Sintra.
TRINTA TOALHAS PARA BERLUSCONI
O primeiro-ministro italiano chegou atrasado à cimeira. O Airbus A319 de Silvio Berlusconi aterrou em Lisboa às 15h45 do dia 19, mas não foi o último. O avião que trazia a representação do Montenegro só chegou 20 minutos depois. Instalado no último andar do Hotel Dom Pedro, Berlusconi pediu para seu uso pessoal 12 toalhas pequenas, 12 toalhas médias e seis toalhões. Exigiu cobertores de lã e recusou o edredão. Para comer, ‘Il Cavaliere’, como é conhecido o primeiro-ministro italiano, pediu um cesto de fruta fresca, um termo com água quente para fazer chá, mel e iogurte de baunilha. Manifestou logo preferência por carne e disse que peixe só dourada, robalo e lagostins no forno.
SEGURANÇA IMPEDE DIVULGAÇÃO DO GRUPO SANGUÍNEO
A segurança foi uma das questões mais importantes da cimeira. As forças policiais montaram um cordão de segurança em redor das instalações da Feira Internacional de Lisboa, e três hospitais estiveram sempre de prevenção. Todas as delegações informaram sobre doenças, alergias e grupo sanguíneo dos seus participantes. Todas, não. O primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, recusou divulgar o seu tipo de sangue. A embaixa-da justificou esta recusa com razões de segurança.
CANAVILHAS ABANDONA JANTAR DE FADOS
A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, acompanhou as mulheres dos chefes de Estado e de governo num programa paralelo durante os dias da cimeira. No dia 19, o grupo de primeiras-damas visitou a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, o Museu do Design e da Moda, onde visitaram uma exposição do estilista José António Tenente. À noite, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, ofereceu um jantar nas instalações da autarquia. Cansada das actividades do dia, a ministra Gabriela Canavilhas recebeu as convidadas, conduziu-as às mesas, onde foi servido vinho branco do Alentejo, Pêra-Manca, e foi para casa. Coube à fadista Katia Guerreiro, ex--mandatária de Cavaco Silva, actuar após o jantar. A escolha da artista não foi difícil. O orçamento era curto e, segundo apurou o CM junto de fontes da organização, o ‘cachet’ da fadista não foi muito além dos cinco mil euros, bem abaixo do que cobrou a fadista Mariza para actuar na cimeira UE/África, que se realizou em Lisboa em Dezembro de 2007: 30 mil euros.
HILLARY USOU SABONETES DO PORTO
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, usou sabonetes fornecidos pela empresa Claus Porto, que detém a marca ACH Brito. Fundada em 1887 por dois alemães radicados em Portugal, Ferdinand Claus e Georges Schweder, a fábrica nacional de sabonetes e perfumes passou, em 1918, a ser gerida por Achilles de Brito, que lhe imprimiu um novo dinamismo. Os sabonetes ACH Brito são mundialmente conhecidos e já ganharam vários prémios internacionais. A empresa do Porto ofereceu 500 sabonetes para todas as senhoras que estiveram presentes na cimeira.
RALIS ALBERGA FROTA AUTOMÓVEL
Mais de 500 viaturas foram utilizadas no transporte de personalidades, comitivas e forças policiais. Só os americanos dispensaram qualquer tipo de viatura posta à disposição pela organização. Também o presidente russo, Dmitri Medvedev, fez questão de ser transportado no seu próprio automóvel, que foi trazido um dia antes para Lisboa num avião russo Ilyushin 96. O critério foi o de atribuir três carros e três carrinhas aos países da NATO, dois carros e duas carrinhas aos países não--NATO (só os russos queriam acreditar 30 viaturas) e um carro e uma carrinha a outras instituições. De modo a ter um parque que comportasse centenas de viaturas, a organização pediu a colaboração do Exército, em particular a disponibilização das instalações do Regimento de Transportes (RALIS), em Sacavém, em virtude da sua localização privilegiada junto ao Aeroporto da Portela. Foi daquelas instalações militares que saiu a maioria das delegações. Além das viaturas cedidas pela Audi e pela BMW, que disponibilizou mais 30 viaturas, todos os restantes carros foram contratados a empresas de rent-a-car. Perante a necessidade de as forças policiais terem meios de transporte, e em virtude de praticamente todas as viaturas da PSP estarem destacadas para a segurança da cimeira, a organização alugou 100 carros, que foram postos à disposição da Polícia de Segurança Pública.
PISTOLAS PARA SEGURANÇAS
A segurança pessoal dos vários governantes acreditou centenas de armas, em particular pistolas, que tiveram de ser declaradas e autorizadas a entrar pela direcção da PSP. Os quatro seguranças que acompanham a chanceler Merkel estavam armados, mas houve casos em que as autoridades policiais portuguesas recusaram a entrada de armamento, como aconteceu, por exemplo, com um pedido do Canadá.
HOTEÍS ESCOLHIDOS DE ACORDO COM A NACIONALIDADE
A maior parte das delegações fez questão de ficar em cadeias hoteleiras da sua nacionalidade. O ‘proteccionismo’ funcionou em matéria de alojamento. A delegação americana ocupou 379 quartos no Marriott, 60 no Corinthia, 75 no Sheraton e 60 no Tivoli Oriente. A França ficou com 62 quartos no Tiara, onde ficaram também os alemães (com uma reserva de 60 quartos). A chanceler Merkel optou por ficar no Ritz Four Seasons, no qual reservou 34 quartos. A Itália ocupou o Hotel Dom Pedro, tendo reservado 67 quartos.
COORDENAÇÃO DO 'SUPERPOLÍCIA' FOI VENCEDORA
Uma das coisas positivas da cimeira foi a coordenação das forças de segurança pelo gabinete do juiz conselheiro Mário Mendes. O Gabinete Coordenador da Segurança Interna, liderado por aquele magistrado e que integra representantes de todas as forças d segurança, teve um trabalho discreto e de bastidores que foi essencial para o sucesso da cimeira, como reconhecem várias fontes contactadas pelo CM. Por ali passaram todas as questões relacionadas com o contingente de elementos destacados, sempre em articulação com as direcções das polícias e, em particular, o director nacional da PSP e o comando geral da GNR. Mário Mendes, juiz conselheiro que já foi director-geral da Polícia Judiciária e responsável pelo Centro de Estudos Judiciários, é o primeiro responsável pela coordenação da segurança interna, com poderes reforçados e equiparados ao de um membro do Governo. A sua nomeação foi da responsabilidade do ministro Rui Pereira" (reportagem do Correio da Manhã, assinada pelo jornalista Miguel Alexandre Ganhão, com a devida vénia)

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