segunda-feira, agosto 17, 2009

Blogues em campanha

Segundo Leonel Moura do Jornal de Negócios, "chama-se Web 2.0 à utilização da "velha" Internet como veículo de criação de redes de carácter social. O 2.0 não significa uma nova tecnologia, mas um novo uso. A designação refere explicitamente a criação de plataformas que têm como objectivo principal juntar pessoas ou servir de local de partilha de praticamente tudo: amores, fotografias, vídeos, textos, referências profissionais, ideias, pequenos negócios, leilões, etc… Num momento em que a Internet arriscava ser dominada pelos grandes negócios e servir exclusivamente de veículo comercial - ainda para mais numa lógica de imposição de mecanismos de censura a tudo o resto -, a força expressiva da liberdade voltou a revelar-se através do aparecimento de redes de sociabilidade e partilha. Mais uma vez se mostrando como, felizmente, é muito difícil controlar a Internet. Mas este movimento revela igualmente como o insistente discurso contra a Internet, tão comum em gente anti-moderna de direita e de esquerda, está totalmente errado. Dizia-se, aqui há uns anos, que a Internet iria criar zombies fechados em casa e que as relações sociais iriam desaparecer. Ora a realidade demonstra o oposto. A Internet tornou-se na grande praça, no jardim, no café, na tertúlia, aproximando pessoas e gerando redes de amizades e cooperação numa escala como nunca se viu antes na sociedade humana. (Ainda há dias jantei com um professor sul-coreano de passagem por Lisboa, interessado em robótica, que conheci na Internet. Levei-o a um restaurante alentejano.) Há também quem diga que é tudo virtual e no fundo ninguém realmente conhece ninguém. Só quem não frequenta a rede o pode afirmar. A convivência é efectiva. Raramente as redes sociais se ficam pela troca de informação virtual e, pelo contrário, servem para promover encontros, jantares, conferências, actividades, passeios, ou seja, aproximar de facto as pessoas. Naturalmente que neste contexto a política não podia ficar de fora. Apesar de se dizer muito mal dos políticos e da política, esta continua a ser uma área de intervenção cívica e cultural decisiva para definir a evolução das sociedades. As pessoas sabem-no e ao contrário do que por aí se diz, não vejo menor interesse dos jovens pela política, mas sim maior. A profusão de blogues empenhados em causas, tendências e apoios partidários é sinal disso. A política feita através da Internet tem uma lógica distinta dos velhos comícios, acções partidárias e colagens de cartazes. Entre tanta outra coisa, o controlo não é bem visto. O nível pode por vezes ser rasteiro, a profusão de posts pode gerar alguma confusão, mas nada é melhor do que a celebração da liberdade de expressão. E, claro, a qualidade também está muito presente. Há blogues para todos os gostos. Muito diversos nos conteúdos, na apresentação, na forma como se organizam. Há blogues de uma só pessoa, outros com dezenas de colaboradores regulares. A maioria tem uma incidência residual, frequentados por amigos e uns parcos curiosos. Mas outros há cuja influência não anda longe dos principais jornais e tornaram-se mesmo matéria de referência noticiosa constante. Os próprios jornais e televisão vão adoptando o modelo blogue. É neste ambiente geral que nesta campanha emergiram dois fenómenos: o Simplex que apoia o PS (no qual escrevo) e o Jamais de apoio ao PSD. Os nomes são muito bons e bastante apelativos: é simplex, é simples votar no PS; jamais, nunca votar em Sócrates. Definem também com rigor a postura de ambos os campos. O PS pela positiva; o PSD pela negativa. De qualquer modo a "guerra" entre o Simplex e o Jamais conseguiu ocupar a rede através de uma disseminação de comentários e referências por toda a parte. Em poucas semanas estes dois blogues tornaram-se num importante centro do campo de batalha eleitoral entre os dois principais partidos. E isso, para um e para outro é muito positivo. Ao conseguirem marginalizar as franjas - o PCP e o CDS não existem na Internet e o Bloco tem uma presença bastante conservadora e sobretudo muito controlada -, Simplex e Jamais afirmam o que realmente está em causa nas próximas eleições. Um governo PS ou um governo PSD. Tudo o resto são fantasias e perda de tempo".

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