- O Algarve mais vazio dos últimos 30 anos - pela jornalista Joana Pereira Bastos "Crise. Nas praias, nos restaurantes e nos hotéis é visível o impacto das dificuldades económicas. Há muito menos turistas e o consumo está em queda Regatear preços tornou-se prática corrente na região Há algo que não bate certo na fotografia. O céu está limpo e o vento sopra devagar, só o estritamente necessário para aliviar na pele o calor intenso do sol. O mar calmo, quase sem ondulação, ajuda a compor o cenário de um dia perfeito de Verão no Algarve. Mas nas espreguiçadeiras não se vêem corpos bronzeados, nem há famílias a descansar à sombra dos toldos. Pouco passa das 17h e na quase sempre apinhada praia de Santa Eulália, perto de Albufeira, há espaço de sobra para estender toalhas. Estaremos enganados no calendário? Olhamos para um lado e para o outro e questionamos. “Que dia é hoje, mesmo?”. 15 de Julho. Habitualmente, por esta altura, já meio país rumou a Sul e está instalada a confusão na maior parte das praias algarvias. Agora, não é o caso. E o cenário repete-se um pouco por toda a região. “Estou no Algarve há 30 anos e não me lembro de um Verão assim tão mau”, resume Paulo China, sócio de Luís Figo no conhecido Bar Sete, em Vilamoura. Com vista de camarote para a Marina, bem de frente para os barcos mais luxuosos ali ancorados e rodeado de esplanadas, restaurantes, bares e geladarias, China considera-se “o melhor barómetro do Algarve”. Garante que sabe, como ninguém, tirar o pulso à região e decifrar, por mais imperceptíveis que sejam, mudanças no comportamento dos turistas. Por ser um dos empresários mais conhecidos da zona, é a ele que muitos costumam recorrer para saber onde podem alugar um barco de luxo, qual o melhor sítio para fazer jet sky ou como conseguir reserva nos restaurantes mais concorridos. Este ano, porém, o seu telemóvel anda anormalmente silencioso. “Está tudo aflito. A crise é geral”, garante. Atinge portugueses e estrangeiros, ricos e remediados. Por isso, os restaurantes baixaram os preços, os bares alargaram as happy hours e os hotéis multiplicaram promoções para atrair clientes. Mas todos se acanham na hora de gastar. “No ano passado, por esta altura, a avenida estava cheia de carros e as pessoas faziam fila à espera dos barcos. Agora é um deserto”, lamenta Pedro Salve-Rainha, 35 anos, pescador no Inverno e condutor dos aquatáxis que no Verão cruzam a Ria Formosa entre Santa Luzia e a praia da Terra Estreita, na ilha de Tavira. O preço da viagem até está 50 cêntimos mais barato do que em 2008, mas o movimento é tão pouco que um dos três barcos já nem sequer deixa o cais. Por isso, as palavras saem-lhe pesadas. “É o pior Verão de sempre”, diz. O discurso é o mesmo por todo o Algarve. Andamos 90 quilómetros e a Oeste nada de novo. Em Portimão, Paulo Santos, 50 anos, também nunca viu “desgraça maior”. Usa “o paleio todo” para tentar vender passeios de barco e visitas às grutas, mas já não consegue convencer os poucos turistas que por ali têm passado, junto à zona ribeirinha. “Uma viagem de mais de duas horas custa €15, mas as pessoas dizem que é muito e só querem descontos”, desabafa. Dos barcos aos hotéis, nas esplanadas ou nos bares, regatear preços tornou-se mesmo prática corrente no Algarve. Tony Pereira, sócio de cinco dos mais conhecidos bares e discotecas em Albufeira, não se lembra de nada semelhante. “Agora é só negociar, negociar, negociar. Andam sempre a pedir descontos no consumo obrigatório e mesmo os bons clientes estão a gastar 30% menos. A falta de poder de compra é abismal”, observa. Por isso, confessa ter agora conhecido, pela primeira vez em duas décadas, o amargo sabor do prejuízo. “O ambiente está estranho. Dantes andava tudo feliz, as pessoas sentiam-se bem-dispostas por estarem de férias. Pagavam rodadas a todos. Agora bebem uma imperial. Vêem o preço de tudo. Andam com ar preocupado”, observa Jon Schauder, director-geral do grupo Oceânico, proprietário de sete campos de golfe na região. Perante cenário tão negro, todos depositam as últimas esperanças no mês de Agosto, habitualmente o mais forte do turismo no Algarve. Mas não têm grande fé. Para todos os efeitos, este já é ‘o Verão do nosso descontentamento".- 255 mil passageiros a menos do que no ano passado. "O Aeroporto de Faro, a grande porta de entrada dos turistas estrangeiros, sobretudo ingleses, para o Algarve regista uma quebra de 10% em relação a 2008. Só em Junho chegaram menos 50 mil passageiros. “Anunciam-se muitas rotas, mas outra coisa é a sua concretização. Há muitos operadores a fazer cancelamentos”, lamenta Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve".
- 30 a a 40% é a diminuição registada no número de jogadores nos campos de golfe do Algarve. "E em alguns as quebras são ainda maiores, revela Jon Schauder, director-geral do grupo Oceânico, que gere sete campos de golfe na região, entre os quais cinco em Vilamoura. Ao contrário do resto do turismo, é na Primavera e no Outono que o golfe tem a sua época alta. Mas este ano foi para esquecer. “Em Maio batemos no fundo”, confessa. Em média, as receitas provenientes do golfe caíram 18% em todo o Algarve. Crise atrasa construção do primeiro 6 estrelas do país A inauguração do Palácio da Quinta, na Quinta do Lago, estava prevista para este ano, mas os promotores admitem que o “cenário económico” obrigou a adiar a abertura para 2011. No futuro empreendimento mais luxuoso de Portugal, uma suite deverá custar €500/noite. O mercado dirigido às classes mais altas ressente-se. A venda de casas na Quinta do Lago regista quebras de 15%".
- 20% é a quebra nas receitas da hotelaria relativamente a 2008. "A desvalorização da libra afastou do Algarve milhares de turistas britânicos, que até ao ano passado superavam os portugueses em número de dormidas. Para responder à falta de procura, os hotéis multiplicam promoções, mesmo em plena época alta. Ainda assim, abundam quartos vazios. Na zona de Faro e Olhão a taxa de ocupação dos hotéis no mês passado nem sequer chegou aos 50%. Vilamoura, Albufeira, Carvoeiro e Lagoa também estão entre as zonas mais afectadas".
- Barcos à venda na Marina de Vilamoura - "É um dos mais emblemáticos locais do Algarve, mas já não transmite o mesmo glamour. Dos mais luxuosos aos mais pequenos, são às dezenas os barcos à venda. “Os proprietários de classe média/média alta estão francamente em contenção devido à crise. Os barcos são bens acessórios e, por isso, os primeiros de que se vêem livres”, afirma a directora da Marina, Isolete Correia".
Sem comentários:
Enviar um comentário