A UNESCO confirma que um tsunami com pelo menos um metro de altura vai atingir o Mediterrâneo nas próximas décadas. Portugal também está no mapa do risco e o IPMA sublinha que "não pode dizer que o risco é baixo". Não é uma questão de se, mas de quando. Na noite de ontem, dois sismos de magnitude 7.2 e 7.5 abalaram a Venezuela com apenas 39 segundos de diferença, provocando o colapso de edifícios em Caracas e gerando um alerta de tsunami que acabaria por ser cancelado. Poucas horas depois, também durante a noite, um sismo de magnitude 6.9 sacudiu a costa nordeste do Japão, ao largo da prefeitura de Iwate, sem vítimas reportadas mas com registo de pequenas variações do nível do mar em vários portos da região. Dois lembretes, em menos de 24 horas, de que a atividade sísmica do planeta não dorme e de que a ameaça de tsunamis é permanente. É neste contexto que vale a pena revisitar um alerta da UNESCO que, apesar de não ser novo, permanece por cumprir em muitos países costeiros, incluindo Portugal.
O Mediterrâneo é, depois do Pacífico, o segundo maior repositório de tsunamis históricos registados. Só na Costa Azul francesa foram documentados cerca de vinte incidentes desde o século XVI, com ondas que chegaram frequentemente a ultrapassar os dois metros de altura.
Por que razão o Mediterrâneo é tão vulnerável?
O Mediterrâneo é um mar fechado e de dimensões reduzidas, o que agrava a propagação das ondas. A UNESCO considera que o risco de tsunamis foi subestimado em algumas regiões do mundo, nomeadamente no Mediterrâneo, onde as comunidades não estão preparadas ou instruídas sobre como reagir a este tipo de desastre. O Mediterrâneo oriental, que inclui a Grécia, a Turquia e a Itália, é considerado a zona de maior risco, devido à intensa atividade tectónica da região.
O fator tempo é outro elemento crítico. Um deslizamento submarino ou um sismo no Mar da Ligúria poderia gerar ondas na Riviera Francesa em menos de dez minutos. Mesmo um sismo mais distante, como o de Boumerdès em 2003, ao largo da costa argelina, levou apenas cerca de 75 minutos a fazer sentir os seus efeitos em França.
E Portugal?
Embora virado para o Atlântico, Portugal não está fora do radar. O especialista Rachid Omira, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, foi direto ao assumir que "não pode dizer que o risco de tsunami é baixo", distinguindo a perigosidade reduzida da zona tectónica do risco real a que a costa portuguesa continua exposta.
Estudos citados pelo IPMA indicam que existe uma probabilidade de 100% de as costas de Portugal continental, dos Açores e da Madeira serem afetadas por um tsunami com pelo menos um metro de altura num período de exposição de 500 anos. Portugal, Espanha e Marrocos poderão ainda enfrentar um tsunami com pelo menos cinco metros de altura no mesmo período, com uma probabilidade de 50%.
Modelos do IPMA apontam o Algarve como o ponto mais exposto: cidades como Portimão, Lagos ou Faro podem ser atingidas em 20 a 30 minutos em caso de sismo de grande magnitude no Atlântico. O historial do país fala por si. O terramoto de 1755 gerou um dos tsunamis mais destrutivos da história europeia, com ondas que varreram a Baixa Pombalina e devastaram o litoral algarvio.
Desde 2017, o Centro de Alerta de Tsunamis de Portugal, reconhecido pela UNESCO em 2019, integra a rede NEAM (Atlântico Nordeste, Mediterrâneo e Mares Conectados) e colabora com países como Espanha, França, Marrocos, Itália e Reino Unido. Para reforçar a deteção precoce, o IPMA está a instalar um cabo submarino com sensores sísmicos que ligará o continente à Madeira e aos Açores.
O que os países têm de fazer
Para responder à ameaça, a UNESCO criou o programa Tsunami Ready, uma iniciativa internacional de base comunitária que certifica localidades com capacidade real de resposta. Os países participantes têm de cumprir 12 indicadores, entre os quais:
- Cartografar e sinalizar as zonas de risco
- Aprovar mapas de evacuação de fácil leitura
- Realizar pelo menos três ações de sensibilização por ano
- Efetuar simulacros comunitários de dois em dois anos
- Garantir mecanismos de alerta redundantes disponíveis 24 horas por dia
Portugal integra o Centro de Vigilância para Tsunamis da Europa e Noroeste Atlântico, a par de França, Itália, Grécia e Turquia, com centros nacionais de alerta acreditados pela UNESCO. Os avisos são acionados cerca de dez minutos após a deteção de um sismo e podem ser transmitidos por diferentes canais, incluindo colunas de som e aplicações de comunicação (Sol)


Sem comentários:
Enviar um comentário