As manifestações em Lisboa e no Porto em prol de medidas urgentes e concretas destinadas a começarem a minimizar o grave problema da crise de habitação - e não quero agora discutir as causas que mais influenciaram o país a caminhar para este ponto - têm toda a razão de existir. Provavelmente podemos discutir os métodos influenciados pela ânsia de ocupação do espaço mediático, ou mesmo por este incentivado, quando a ideia devia ser (?) sobretudo deixar uma mensagem e pressionar os políticos, no poder e na oposição, a encontrarem um ponto comum de entendimento mínimo que viabilize a partida para soluções que, não sendo imediatas, precisam ser tratadas já. Mete-me nojo, confesso, que jovens com rendimentos suficientes - apesar dos apoios concedidos pelo Estado e que são uma faca de dois gumes, como a seu tempo eles constatarão - que famílias da classe média com rendimentos adequados, não tenham, uns e outros, qualquer possibilidade de irem para o mercado habitacional nacional porque as casas disponíveis atingem valores absolutamente pornográficos num dos países mais pobres e carenciados da União Europeia. E incluo nesta realidade vergonhosa e especulativa, triste e lamentável, também a Madeira, incompreensivelmente uma das regiões com os valores das habitações mais caros do país, e também com os valores das rendas dos mais elevados do mercado nacional. Coisas demasiado estranhas e tristes que, em meu entender, exige que também na Madeira se comece, articuladamente, a olhar e a pensar esta problemática de forma séria, com pragmatismo, com muita verdade, com realismo e com decisões concretas e rápidas tanto quanto possível. Acresce a tudo isto o papel que cabe ao Estado - e que não se pode confundir com as duas situações atrás referidas - de construir habitação social visando as famílias com rendimentos insuficientes, que em situações normais nunca poderão ter uma réstea de esperança de que um dia disporão, no actual quadro especulativo, de uma habitação própria, sem que o Estado as ajude. E o Estado, quer no seu todo nacional, quer também na Madeira e nos Açores - bem como no poder autárquico que, apesar de ter menores condições, não deve ficar à margem deste processo - apesar de terem todos despertado para esta realidade no último ano e meio, fizeram muito pouco do que lhes seria exigido e ficaram muito aquém dos níveis de investimento na construção de habitações sociais que lhes era (é) exigido.

