Escreve
o Observador: “Investigação de media britânicos: Presidente da Federação do
Gana assinou acordo para seleção alinhar em amigáveis organizados por 'match
fixers' - com árbitros comprados e resultados definidos. É mais um caso de
acusações de fraude na FIFA, que promete levantar algum pó no Mundial que decorre
no Brasil. Uma investigação com repórteres infiltrados levada a cabo pelo
jornal britânico The Telegraph e pelo programa de investigação Dispatches do
Canal 4, da televisão inglesa, concluiu que o presidente da Associação Ganesa
de Futebol (GFA) estará envolvido num esquema de participação do Gana em jogos
amigáveis fraudulentos, isto é, com combinação prévia de resultados. A seleção
do Gana, que está neste momento a disputar com Portugal, EUA e Alemanha um
lugar nos oitavos-de-final do Mundial do Brasil, inclui estrelas de futebol
como Kevin-Prince Boateng, ex-jogador do Tottenham e irmão do alemão Jerôme
Boateng, e o ex-jogador do Chelsea Michael Essien. Não há, no entanto, qualquer
indício de que estes ou quaisquer outros jogadores da seleção estejam
envolvidos no esquema de combinação de resultados. A investigação do Telegraph
e do Canal 4 já dura há seis meses e teve início depois de os jornalistas terem
recebido informações de que algumas federações de futebol estariam a trabalhar
com gangues criminosos, responsáveis por corromper os resultados de partidas de
futebol internacionais.
INFILTRADOS
Como
parte da investigação, jornalistas do Telegraph, juntamente com um antigo
investigador da FIFA, infiltraram-se no meio fazendo-se passar por representantes
de uma empresa de investimento que procurava ‘patrocinar’ os jogos. Sob este
disfarce os repórteres conseguiram reunir-se com os responsáveis da Associação
de Futebol do Gana e com agentes da FIFA e obter, assim, as informações
necessárias para sustentar as alegações de fraude. Neste seguimento, relata o
Telegraph, os investigadores infiltrados chegaram a reunir-se com o próprio
presidente da federação do Gana, assim como com Christopher Forsythe, um agente
registado da FIFA, e Obed Nketiah, uma figura sénior da Federação Ganesa de
Futebol, que assinou um contrato que permitia a seleção de participar em jogos
combinados a troco de centenas de milhares de dólares. Por jogo, a federação
receberia 170 mil dólares e permitia que uma empresa falsa de investimento
nomeasse os árbitros das partidas, numa clara violação das regras da FIFA. “Escolhemos
sempre as federações/países com cujos árbitros sabemos que podemos contar”,
dizia o agente da FIFA , Christopher Forsythe, quando questionado pelos
investigadores infiltrados sobre o grau de eficácia do esquema. “Os árbitros
escolhem resultados a toda a hora, até no Reino Unido isto acontece”, dizia
Forsythe depois de uma reunião em Londres. E, de acordo com o Telegraph, até
fez uma lista de países africanos e europeus onde “podemos procurar árbitros que
estejam na nossa sintonia”. O funcionamento era simples: “Se nós escolhermos o
árbitro, vocês conseguem o vosso dinheiro”. Mas para isso “vocês [a empresa,
fictícia] têm sempre de vir ter connosco para dizer como querem que o jogo
fique…que resultado querem”, explicava às tantas o agente da FIFA Christopher
Forsythe. “Têm é de dar alguma coisa aos árbitros, que vão fazer muito por
vocês”, acrescentava Obed Nketiah que, além de representante da Associação
Ganesa de Futebol é também chefe executivo do clube de futebol Berekum Chelsea,
do Gana, e membro do comité da seleção de sub-20.
REUNIÃO
EM MIAMI, NAS VÉSPERAS DA COPA
No
início deste mês de junho, a poucos dias de começar o campeonato do mundo, os
dois responsáveis – Forsythe e Nketiah – apresentaram os jornalistas
infiltrados ao próprio presidente da federação, Kwesi Nyantakyi. A reunião
decorreu num hotel de cinco estrelas em Miami, onde a seleção do Gana se
preparava para jogar contra a Coreia do Sul, numa partida de preparação antes
de rumar ao Brasil. Terá sido nessa reunião, descreve o Telegraph, que o
presidente assinou o contrato que dizia que a tal empresa de investimento
poderia escolher o árbitro para cada jogo, a troco de 170 mil dólares pagos à
federação (por cada partida). A cláusula não deixava dúvidas: “A empresa irá
nomear e pagar pelos árbitros que serão escolhidos após consulta com um membro
da FIFA previamente combinado”, escreve a investigação do jornal britânico. Durante
essa reunião o presidente da federação terá sugerido que a empresa fictícia
actuasse em dois jogos depois do Mundial do Brasil para provar que era capaz,
numa espécie de período experimental. “Haverá uma oportunidade em agosto e
outra em dezembro”, disse o presidente Kwesi Nyantakyi. “Esses meses parecem
ser os únicos onde poderemos fazer amigáveis”, disse. O acordo ficou
estabelecido e ficou decidido que iria mesmo ser testado num jogo amigável, a
título experimental. Questionado pelo jornalista infiltrado sobre se estava
satisfeito com o acordo, o presidente foi claro: “Yeah”. “Então podemos começar
a trabalhar num jogo experimental?” – “Yeah”, voltou a responder. Confrontados
com a operação, tanto Christopher Forsythe, da FIFA, como Obed Nketiah e Kwesi
Nyantakyi da GFA negaram todas as acusações e todos os acordos que os
jornalistas dizem ter feito. Entretanto, escreve o Telegraph, a Federação
anunciou na noite passada que já tinha aberto uma investigação junto da polícia
contra Forsythe e Nketiah por “deturparem a imagem da GFA numa tentativa de
fraude” e que o caso já tinha sido reportado à FIFA e à CAF – Confederação
Africana de Futebol.
MUNDIAL
É VULNERÁVEL E FIFA TEM DE AGIR
De
acordo com o Telegraph, Terry Steans, um ex-investigador da FIFA, acredita que
o Mundial de Futebol é uma competição “vulnerável” aos esquemas de combinação
de jogos. “Sei que o Mundial é vulnerável a este tipo de gangues criminosos
porque há redes de contactos a todos os níveis dentro da competição e estes
gangues podem aproveitar-se da fragilidade de qualquer seleção para as
explorar”, disse. “Esquemas de combinação de resultados estão por toda a parte.
Acontece a todos os níveis – do regional para o nacional e o internacional – e
em muitos países. A FIFA tem de fazer mais para reverter esta situação”, acrescentou
Terry Steans ao mesmo jornal. As últimas revelações deverão voltar a fazer
pressão sobre a FIFA, que já está mergulhada numa enorme controvérsia sobre a
forma como gere o futebol internacional. No último mês, o presidente Joseph
Blatter voltou a enfrentar exigências de demissão depois do escândalo sobre a
realização do mundial no Qatar em 2022, onde se alega que a FIFA recebeu
milhões de dólares para avançar com a organização da competição naquele país”