“Numa dezena de
dias, deixei Portugal em crise e regresso com ele "herói-surpresa da zona
euro", como diz o Financial Times. Mesmo dando de barato a ofensa sub-reptícia,
sabe bem. Sim, aquela palavrinha "surpresa" faz-me lembrar, era eu
jovem repórter e tendo sido cumprimentado no jornal por uma qualquer
reportagem, que na redação se fez ouvir a voz de um menos jovem repórter:
"O texto é bom, surpreendeu-me." Mas o facto é que o patinho feio
europeu exportou mais. É verdade que a comparação era connosco, mas hoje
fazemos melhor do que ontem, essa é que é essa. Caucionados por lá fora, os
eufóricos locais aproveitaram a maré: "Milagre económico", disse
Pires de Lima. Depois, ele iria corrigir: "Foi excesso de
linguagem..." Não era bem um milagre prodigioso com cura surpreendente,
temos de continuar a tomar os remédios... A mensagem de Pires de Lima passou
(como são, os do CDS, tão melhores que os sócios a passar mensagens!) E
funcionou: um acamado prefere um otimismo moderado a ufanismo. Registada a
mezinha, insistiu-se nela: "Não há motivo para um discurso de
euforia", disse ontem o mesmo ministro. Há meses, a frase levar-nos-ia a
comentar: "Até eles não acreditam..." Hoje, a negativa ("não há
motivo") serve para implantar a dúvida inversa: "Queres ver que isto
está a começar a correr bem..." Sim, uma crise acabou. Estou a falar de
crise política - a do Governo acabou. E, também ontem, Portas sabotou a memória
de Vítor Gaspar” (texto de Ferreira Fernandes, DN de Lisboa, com a devida vénia)