Como nota prévia gostaria de me distanciar de
qualquer ideia de diabolização de Alberto João Jardim. As governações não são
perfeitas, muitas vezes nem sequer são justas, porque em política não há o
perfecionismo. As pessoas cometem erros, e têm insuficiências. Alberto João
Jardim foi fundamental para o PSD da Madeira, para a história da Madeira pós-25
de Abril e liderou um processo de mudança política, social e económica que
precisamos dar continuidade, processo esse que naturalmente não foi unânime.
Obviamente que ele cometeu erros, porque, repito, ninguém é perfeito. A
política detesta os que se auto-catalogam de “perfeitos”. A política abomina os
“imaculados”. Todos cometemos erros, nenhum de nós é perfeito
Anjos e vedetas cinematográficas só no cinema. Na
política não há vedetas, nem as vaidades pessoais influenciam as opções das
pessoas muito menos condicionam a sua liberdade. O povo sabe que os
“milagreiros” de pacotilha são uma invenção para enganar as pessoas. A
humildade é uma preciosidade cada vez mais rara na política, infelizmente.
Quando no PSD regional, e a propósito de uma disputa interna pela sua
liderança, se radicaliza o discurso - e admito excessos de todas as partes,
alguns erros de análise e decisões discutíveis - quando se confundem questões
pessoais com política, quando as pessoas não passam de reféns manipulados por “vendettas” que acabam por obstruir o bom
senso e o discernimento impedindo os protagonistas de encararem os factos e a
verdade, tal como eles são e como como querermos que sejam, inevitavelmente
acabamos por ser injustos e dar repetidos tiros-nos pés.
A diabolização de Alberto João Jardim, só porque o
PSD regional ficou duplamente fragilizado, em termos eleitorais e políticos,
desde 2011, por causa da incontornável conjugação de decisões externas que se
mantiveram (e se manterão) até hoje, com o consequente desgaste negativo, é uma
desonestidade. Há que respeitar as pessoas na política porque a política
precisa que os seus protagonistas sejam respeitados. Os tempos são os piores de
sempre, nestes 40 anos de democracia, para políticos e partidos. Para todos,
sem exceção. Não se iludam!
O PS não se atreve a colocar em causa Mário Soares,
tal como o PSD se ajoelha sempre que falam em Sá Carneiro, o CDS quando evocam
Amaro da Costa ou o PCP sempre que se trata de defender Álvaro Cunhal. Nenhum
deles foi perfeito, nenhum deles deixou de cometer erros, nem todos tiveram as
mesmas responsabilidades governativas e políticas. Mas foram todos eles
dirigentes políticos dotados de forte carisma e reconhecidamente tiveram um
papel importante nos respectivos partidos o que explica que hoje sejam
recordados e respeitados mesmo por aqueles que deles discordaram.
Repugna-me a ideia, de resto construída também um
pouco dentro e não apenas fora das fronteiras do PSD-Madeira, que, subitamente,
deixamos de ter um legado, mesmo contabilizando as nossas insuficiências individuais
ou coletivas. Basta-me percorrer certos corredores onde se operou mudança
política recente para que se perceba que os mitos se derrubam facilmente. Eu
não sei se a Madeira seria diferente ou se os Madeirenses teriam outra
mentalidade se porventura outro partido, que não o PSD da Madeira, tivesse
liderado este processo de mudança política, social e económica que o 25 de
Abril e a revolução dos cravos nos desafiou e a liberdade nos abriu portas. Não
conseguimos tudo o que queríamos, provavelmente nunca conseguiremos tudo o que
desejamos. Mas passados estes anos todos, e ponderados os erros e as virtudes,
os avanços e os recuos, as vitórias e as derrotas, as conquistas e as perdas,
os sucessos e os fracassos, temos obviamente um legado que não aconteceu por
acaso e que temos que preservar e respeitar. Trata-se no fundo de um património
que também pertence ao PSD regional. Entristece-me por isso a ideia de um
partido desfigurado, injusto e perigosamente refém de uma espécie de ânsia
elitista apressada de tomada do poder, custe o que custar, independentemente
das consequências que daí advenham e sem ponderar tranquila e pragmaticamente
aquilo que neste contexto melhor importa ao partido. Porque julgo que sabemos
todos o que a Madeira e os madeirenses precisam.
Esta reflexão, que vou dividir em dois ou três
textos, pretende ser apenas a expressão de uma opinião pessoal e livre, de quem
tem a consciência que se aproxima do final do seu tempo enquanto dirigente
partidário, de quem não tem qualquer tipo de ambições, que espera não ter
deixado para trás inimigos, mas tão-somente, e ainda bem, adversários, porque pertencerem
a partidos diferentes e terem feito escolhas ideológicas opostas. Mas que foram
sempre respeitados por quem se recusa alimentar qualquer inimizade neste
contexto, mesmo que algum radicalismo na escrita deixe transparecer algo que
não corresponde à realidade, que não deve ser valorizado ou encarado mais do
que isso mesmo, a expressão de uma opinião. Respeito todos os que não pensam
como eu e que não quero que pensem como eu. Gostaria que o retorno se fizesse
pela mesma bitola.
Esta sensação de estar fora, por opção pessoal, de
tudo o que se seguirá, propicia-me alguma liberdade e encantamento, confesso. Que
nada tem a ver com o facto de ter tomado, em 1974, uma opção que preservo até
os dias de hoje, sem hesitações, sem hiatos, sem medos, sem hipocrisias, sem arrependimentos.
Estou consciente de que termos o dever de estar disponíveis para colaborar -
quando e se precisarem de nós - porque enquanto militantes de um partido temos
essa obrigação da disponibilidade, sem precisarmos de ocupar permanentemente
cargos dirigentes ou integrar estruturas partidárias. Não viro costas porque
seria uma atitude repugnante da minha parte, porque respeito os meus
companheiros de partido, admito a sua disponibilidade – mas aos quais apelo ao
bom senso nesta fase complicada em que estamos onde os erros podem ser fatais –
e a coragem de se assumirem e de quererem aceitar desafios futuros (JM)
