Li no site da RTP que "Kareem Khan foi raptado de sua casa por vinte homens armados, parte deles polícias paquistaneses em vésperas de partir para a Alemanha. Tinha encontros marcados com parlamentares de vários países europeus, para informá-los sobre a guerra de "drones", que os Estados Unidos levam a cabo no Paquistão. A polícia paquistanesa nega tê-lo em seu poder e Kahn está desaparecido desde há uma semana. Segundo o testemunho da mulher e filhos de Khan, que presenciaram o rapto, uma vintena de homens armados arrombaram o portão da casa da família em Rawalpindi e levaram Kahn sem apresentarem qualquer mandato judicial. Cerca de oito eram polícias fardados, e os restantes vestiam o traje tradicional, Shalwar Kameez. A Polícia, o Exército e os serviços secretos militares negam ter detido Kahn e dizem desconhecer o seu paradeiro.A CIA: primeira interessada no raptoA questão recorrente é agora a de saber a quem aproveita o desaparecimento do jornalista, de 46 anos. Kareem Khan constituía, em primeiro, lugar um embaraço para o Departamento de Estado de John Kerry e para a CIA. Quando dois dos seus irmãos e um dos seus filhos foram mortos no ataque de um "drone" norte-americano à aldeia de Machikhel, no Vaziristão, Khan lançou uma campanha contra essa "guerra suja" levada a cabo por uma potência estrangeira em território paquistanês. Supõe-se que tivesse boas fontes dentro dos serviços secretos paquistaneses, porque conseguiu inteirar-se de um nome que não era do domínio público: o do chefe da missão da CIA no Paquistão. Instaurou um processo contra ele, culpando-o pela morte de civis inocentes, e em Novembro de 2010 divulgou o seu nome. O agente ex-secreto teve de fazer as malas e regressar aos EUA. A campanha protagonizada por Khan era considerada suficientemente séria e credível para várias instituições europeias lhe darem ouvidos. Quando foi raptado estava em vésperas de viajar para a Europa, onde já tinha reuniões marcadas com deputados da Alemanha, da Holanda e do Reino Unido, e também com magistrados do Tribunal Penal Internacional, na Haia. Num momento em que as relações dos Estados Unidos com a Europa continuam a ressentir-se das revelações de Assange e de Snowden, e em que a "guerra dos drones" é uma peça essencial da estratégia de Obama no Paquistão, não restam muitas dúvidas sobre a contrariedade que a visita de Kahn a vários parlamentares europeus representaria para os EUA. O Departamento de Estado norte-americano e a CIA são portanto os dois primeiros grandes beneficiários do rapto.Governo paquistanês: também interessadoMas também as autoridades paquistanesas tinham motivos para recear o impacto político da tournée europeia de Khan. Acontece que o Governo de Islamabad vive o cenário esquizofrénico de condenar publicamente os ataques norte-americanos com aviões não-tripulados, como atentado contra a soberania do país, ao mesmo tempo que favorece e facilita essa guerra encoberta, na esperança de que ela enfraqueça o perigo "extremista" em regiões de fronteira com o Afeganistão.Tal como existe uma cumplicidade paquistano-americana na guerra secreta, também se admite que ela possa ter existido no sequestro e desaparecimento de Khan. Entretanto, o advogado contratado pela família de Khan, Shahzad Akbar, lembrou que "milhares de pessoas desaparecem no Paquistão quando não agradam a alguém, sem processo judicial, sem fundamento legal. São métodos de um Estado policial, que nega direitos fundamentais aos seus cidadãos". Para já, Akbar conseguiu obter a abertura de um inquérito judicial sobre o desaparecimento de Khan, estando a polícia intimada a explicar os seus motivos legais para manter Khan preso - o que mostra o pouco crédito dado pelo tribunal aos protestos de inocência das autoridades na organização do rapto. Também deputados europeus que deveriam encontrar-se com Khan têm manifestado a sua preocupação. Foi o caso do deputado verde alemão Christian Ströbele, que escreveu ao primeiro ministro paquistanês Nawaz Sharif a pedir-lhe uma rápida intervenção no caso. Para já, Akbar comprometeu-se a viajar para a Europa e a fornecer aos deputados a informação prometida por Khan. Se ele próprio entretanto não desaparecer também".