"Estava
exausto, mas eu era o batedor de penáltis da equipa. Nunca fugi às minhas
responsabilidades. Só quem tem a coragem de bater um penálti é que falha.
Falhei dessa vez. Ponto final. E afetou-me durante anos. Foi o pior momento da
minha carreira. Ainda tenho pesadelos com isso. Se pudesse apagar um momento da
minha carreira, seria aquele.»
É Roberto
Baggio quem procura as palavras para descrever como perdeu um Campeonato do
Mundo naquele penálti no Rose Bowl, a 17 de julho de 1994, faz 20 anos este
verão. Baggio, que fará 47 anos daqui por uns dias, a 18 de fevereiro, escreve
estas palavras na sua autobiografia, «Una porta nel cielo», aqui reproduzida a
partir de um excerto traduzido pelo «Guardian». «Não me quero gabar, mas só
tinha falhado um par de penáltis na minha carreira. E foi o guarda-redes que
defendeu. É para perceberem que não há explicação fácil para o que aconteceu em
Pasadena. Quando fui para a marca estava muito lúcido, tanto quanto alguém pode
estar naquela situação. Sabia que o Taffarel se atirava sempre, por isso decidi
bater para o meio, a meia altura, para ele não poder tocar-lhe com os pés. Foi
uma decisão inteligente, porque o Taffarel foi mesmo para a esquerda dele, e
nunca teria apanhado o remate que eu planeei. Infelizmente, não sei como, a
bola subiu e passou três metros sobre a barra.»
Baggio não
está a gabar-se. Ele era um ótimo batedor de penáltis. Já tinha estado no
Mundial 90, quando a Itália caiu nas meias-finais frente à Argentina nos
penáltis, e ele não falhou o seu. Podemos procurar fundo e não vamos encontrar
muitas imagens como esta, que o mostrem a falhar de modo tão grosseiro da marca
dos 11 metros. E no entanto aconteceu, quando não podia acontecer.
Baresi e
Massaro tinham falhado antes, como Baggio também faz questão de lembrar. Mas
foi aquele remate para a bancada de «Il Divin Codino» que sentenciou uma das
decisões mais dramáticas da história do Mundial. O Brasil era tetra, a Itália
chorava.
Foi com Baggio
que ganhou corpo e drama a ideia feita de que são sempre os melhores a falhar o
penálti decisivo. Ele chegava ao Mundial 1994 como dono da Bola de Ouro, ganha
em 1993 depois de ter conquistado a Taça UEFA com a Juventus. Era talento, uma
luz de fantasia e criatividade no cinzento futebol daqueles anos. Um dos
melhores da sua geração e, para muitos, o melhor jogador italiano de sempre.
Nos Estados
Unidos ele tinha levado a Itália às costas até à final. Não exatamente desde o
início. A Itália, fiel a si própria, arrancou mal. Começou a perder com a
Irlanda, depois venceu a Noruega, empatou com o México e acabou em terceiro
lugar esse grupo que terminou, coisa única até hoje, com todas as equipas a
somar quatro pontos. A «Azzurra» foi repescada, passou como a última melhor
terceira.
Quanto a
Baggio, começou limitado, não só fisicamente. «O Mundial não começou bem e eu
acusei a pressão. Era muita responsabilidade. Afinal, era suposto ser o «meu»
Mundial. Estava a desmoronar-se à minha frente e não conseguia deixar a minha
marca.» A relação com o selecionador Arrigo Sacchi também não era fácil,
percebe-se. Ficou famosa em Itália a reação de Baggio quando foi substituído
frente à Noruega, pouco depois dos 20 minutos. O guarda-redes Pagliuca fora
expulso e, a jogar com 10, Sacchi abdicou de Baggio. «Isto é uma loucura»,
percebeu-se dizer Baggio, quando deixava o campo.
Budista,
Baggio diz que encontrou na sua fé a força para dar a volta àquele difícil
arranque. E tudo mudou com um golo. Frente à Nigéria, nos oitavos, a Itália
estava fora do Mundial a dois minutos dos 90, até um remate colocado de Baggio
bater Peter Rufai. 1-1, prolongamento e de novo Baggio a resolver. Aos 102
minutos, marcou de penálti. Bateu em força, para o centro, e apurou a
«Azzurra».
Nos quartos de
final, outra vez ele. 1-1 aos 88 minutos, um contra-ataque, Baggio espera a
saída de Zubizarreta, finta o guarda-redes da Espanha e coloca a Itália na
meia-final. Seguia-se a surpreendente Bulgária de Stoickov, Kostadinov e
Balakov. Baggio fez dois golos em quatro minutos, à meia hora a Itália vencia
por 2-0 Stoitchkov ainda reduziu, mas a «Azzurra» seguia para a final, aos
ombros de Roberto Baggio. Saiu com queixas dessa partida, mas jogou de início
frente ao Brasil. A final foi um jogo chato, sem grandes oportunidades. 120
minutos e nada. Não havia volta a dar, seria mesmo a primeira final de um
Campeonato do Mundo decidida nos penáltis.
O resto é
história, e um peso que Baggio carregou até ao fim da carreira. Amargo. «Falhei
o último penálti, «cancelando» assim os de Baresi e Massaro. Tinham de escolher
uma imagem da final e escolheram o meu erro. Queriam um bode expiatório e
escolheram-me a mim. Esquecendo-se que sem mim nunca teriam chegado à final.
Depois do meu falhanço o meu ar era de incredulidade, e esse olhar ficou comigo
por muito tempo. Não conseguia aceitar como tinha acabado. Quando os meus
companheiros de equipa foram jantar, fechei-me no meu quarto”.
A Itália não voltou a olhar para Baggio da mesma forma. Nem
Arrigo Sacchi. «Depois da final a atitude de Sacchi comigo mudou por completo.
Tinha 27 anos, mas ele chamou-me cada vez menos», escreve Baggio: «Esperava
mais gratidão. Teria percebido se fosse uma decisão técnica, mas não foi.
Parecia mais pessoal.»
A época seguinte de Baggio na Juventus ficou marcada por uma
longa ausência por lesão, seguiu-se a mudança para o Milan e, nos três anos que
se seguiram ao Mundial 1994 apenas foi chamado por duas vezes à seleção. Foi
recuperado para a «Azzurra» por Cesare Maldini e jogou o seu terceiro
Campeonato do Mundo em França.
No Mundial 1998, o primeiro jogo vê o Chile surpreender a
Itália, respondendo com dois golos à vantagem garantida por Vieri logo aos 10
minutos. Até que, aos 85m, Baggio cava um penálti. Vai ser ele a batê-lo, e as
imagens daqueles minutos que antecedem a marcação mostram todo o peso do
momento sobre ele. Quatro anos depois, Baggio, um guarda-redes, uma baliza e um
Campeonato do Mundo. E ainda um jogador do Chile ostensivamente a tentar
perturbá-lo. Mas ele não falha, 2-2.
A Itália avançou até aos quartos de final, frente à França. O
nulo perdurou até ao fim do prolongamento. Seriam de novo as grandes
penalidades a decidir. Baggio avançou para bater o primeiro, e marcou-o. A
Itália ficou pelo caminho, falharam Albertini e Di Biagio, mas «Il Codino»
tinha ajustado parte das contas com a sua história. (texto da jornalista do Mais Futebol, Berta Rodrigues, com a devida vénia)


