CENTRISTAS PAGAM PELA CRISE
É ao Largo do Caldas que mais responsabilidades se imputam no rescaldo da crise política. O CDS vai no terceiro mês de queda livre e não consegue, em Julho, mais de 8,1% das intenções de voto dos inquiridos - um resultado negro para o partido de Paulo Portas, que nunca registou números tão anémicos num barómetro. Ainda que acentuada (um ponto percentual), a descida não é, porém, tão significativa como a de Maio, em que a perda dos centristas foi de 1,5%.
ESQUERDA MANTÉM
O PCP continuaria seguro na sua posição como terceira força política se as eleições fossem amanhã. Com um muito ligeiro recuo, o partido segura o resultado de Junho - o melhor desde o início do barómetro. Os comunistas perdem apenas uma décima, recolhendo em Julho 13,1% das intenções de voto dos inquiridos. É, assim, o segundo mês em que o PCP surge acima dos 13% - e muito acima dos 7,9% de votos com que se fizeram as contas em 2011, aquando da distribuição de lugares dos deputados à Assembleia da República. Mais à esquerda no hemiciclo, o Bloco de Esquerda desce pelo segundo mês consecutivo e fica quase a um ponto percentual do seu melhor resultado (9,4% em Maio). Ainda assim, é uma posição favorável para os bloquistas, quando comparada com o resultado das últimas legislativas - 8,7% dos boletins seriam atribuídos ao partido no cenário de eleições a breve trecho.
Paulo Portas. O nome que cola com a crise
Uma pergunta: quem ficou pior na fotografia da crise política? Quatro nomes: Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro. Um número: 45,9%. Para os inquiridos é clara a responsabilidade de Portas no episódio que ameaçou fazer cair o governo. Estava “irrevogavelmente” decidido a sair, ficar no governo seria uma “dissimulação”, mas acabou vice-primeiro-ministro. “Criancice”, “garotice”, “infantilidade” – adjectivos não faltaram para caracterizar os avanços e recuos de Portas. Passos aguentou o barco e sai com a imagem mais imaculada do conjunto. Seguro não aceitou as condições impostas pela maioria, mas o preço a pagar não é alto. Cavaco tentou forçar o diálogo: os portugueses não apreciaram a ideia (gorada) de tentar unir os três partidos.
Finanças. Macedo preferido para o Terreiro do Paço
A notícia chegou sem aviso: “Gaspar demite-se”. Sai o ministro e, no dia seguinte, Maria Luís Albuquerque sobe a titular da pasta das Finanças. Nas 24 horas que separaram os dois momentos, chegou a ser sugerido o nome de Paulo Macedo, ministro da Saúde, como possível substituto. Não foi, mas essa seria a escolha mais apoiada pelos inquiridos (45,9). Maria Luís não recolhe mais de 10,3% dos votos sobre quem estaria mais preparado para suceder a Gaspar. De longe, Paulo Macedo seria o nome preferido, sobretudo na opinião dos homens com mais de 55 anos, das classes sociais média e alta e residentes da região de Lisboa. Entre os dois, surge uma terceira votação: para 25,8% dos inquiridos, nenhum dos governantes estava bem preparado para assumir essa responsabilidade. Passos escolheu a secretária de Estado.
Palavra de ordem: investimento, investimento, investimento
A esmagadora maioria dos inquiridos (91,3%) considera que a saída de Vítor Gaspar do governo – e assumir que a austeridade como solução única para o ajustamento das contas públicas falhou – deu o mote a uma nova fase em que o investimento é rei. O ex-ministro das Finanças, que saiu alegando falta de apoio, leva nota negativa pela sua passagem pelo executivo. Quase metade dos inquiridos (45,5%) considera que foi a falta de apoio que levou o ex-ministro de Passos a abandonar o governo no início de Julho. A segunda hipótese para justificar a decisão foi o facto de Gaspar ter reconhecido que a política que aplicou durante dois anos tinha falhado (38,6%). Menos expressivas são as opiniões de quem diz que a saída se deveu à oposição de Paulo Portas ou à falta de crença de Passos Coelho (entre 3% e 4% dos votos). Bastante expressiva é, por outro lado, a vontade de uma grande maioria que defende uma mudança de rumo nas políticas do governo, dando prioridade ao investimento. Este imperativo de mudança é expresso com maior vigor pelos inquiridos das classes mais altas, os da Região Norte do país, os que têm entre 18 e 54 anos e as mulheres. 91,3% querem um Estado a dar mais apoio à economia através do investimento. Ao terceiro pedido de demissão, Vítor Gaspar saiu, mas leva consigo a imagem de um trabalho insatisfatório. Solicitados a avaliar o trabalho do ex-ministro, 54,2% dos inquiridos considera que a prestação foi má ou muito má. Um terço (33,1%, o resultado individual mais expressivo) fica-se por uma avaliação “razoável” do governante, e apenas 9,5% dão nota positiva (0,5% dizem que os dois anos de passagem pelo governo foram “muito bons”).