terça-feira, agosto 19, 2008

Reflexão

Não me compete, porque não recebi procuração, não quero, nem sequer é matéria que me diga respeito, vir defender seja quem for, muito menos Alberto João Jardim, quando se trata dos combates políticos em que se envolve. Se o Presidente do PSD da Madeira e do Governo Regional considera que em 2009, depois das legislativas de Outubro e em caso de derrota dos social-democratas – um timing que terá que ser muito mais prolongado porque haverá autárquicas em Dezembro de 2009 devido à falta de acordo entre os partidos para as antecipar –a solução será a formação de um novo partido, em vez de agarrar o PSD nacional, ajustar contas com quem o conduziu para o fundo do fosso e mudá-lo a partir de dentro, temos que respeitar essa posição, embora não a partilhe. E não partilho porque me recordo do fracasso de todos os projectos partidários surgidos, o mais importante dos quais dos quais foi o PRD (mas poderia falar do PSN, entre outros), que durou o que durou. Não partilho porque não vejo Alberto João Jardim dissociado do PSD, pior do que isso, combatê-lo politica e eleitoralmente. Não vejo um Alberto João Jardim, que sempre se reclamou de sá-carneirista - de facto foi-o sempre – envolver-se num partido que teria depois que combater o PSD o qual, com todos os seus defeitos e virtudes, sucessos ou fracassos, vitórias ou derrotas, é uma herança, um legado se preferirem de Francisco Sá Carneiro, uma pessoa por quem sempre nutri um enorme respeito, pela sua coerência, pela sua coragem, pela sua frontalidade, pela sua atitude perante a vida, pela forma como assumiu tudo, sem hesitações, sem medo, pela maneira como se empenhou nos combates políticos, acreditou nos seus projectos e em nome deles acabou por morrer num acidente ocorrido em circunstâncias que até hoje ninguém consegue garantir porque aconteceu.
A propósito da polémica que envolveu João Jardim e a história do “novo partido”, é preciso fazer uma cronologia evolutiva das declarações proferidas, desde o comício no Porto Santo, no passado fim-de-semana, até às que foram depois prestadas à comunicação social no areal do Porto Santo.
A minha interpretação, meramente pessoal, por isso mesmo discutível e contestável, ao contrário do que sugeriu Guilherme Silva que acha que foram recados para Sócrates – que eu saiba não é Sócrates que tem que fazer oposição em Portugal! – é que Jardim estava a pensar no PSD nacional e na (des)liderança de Ferreira Leite, que nos últimos dois meses desapareceu do mapa, revelando uma confrangedora inércia e falta de ideias e de presença. Eu também acho que a manter-se esta postura elitista de uma direcção de forte predomínio de “pipis”, influenciada pelo pensamento político desfazado da realidade mas que é sempre motivo de festança lá para as bandas da linha de Cascais, o PSD não vai longe. Porque raio é que o Chão da Lagoa não é importante? E o Pontal? Por acaso os chás das cinco com canastras serão eloquentes ou darão mais votos ao PSD, ou sequer ajudarão a construir uma alternativa que passe pelos social-democratas? O partido precisa de uma nova dinâmica, precisa de ir ao encontro do povo, de ouvir o que ele diz, pensa e deseja, precisa de conhecer as suas expectativas, desilusões ou sonhos - e isso é diferente, muito diferente, do que estar em encontros com militantes porque esses são eleitores certos do PSD, era o que nos faltava que não o fossem!... E para sentir o povo não se pode julgar que certas inteligências iluminadas, daquelas que se pavoneiam carregadas às costas com sacos cheios de diplomas de mestrados, graduações, doutoramentos obtidos em universidades estrangeiras, e que por causa desse seu estatuto auto-promocional, por mais brilhante que seja, nem precisam de conhecer o país profundo, que não conhecem, não precisa de sentir o pulsar das gentes, que não contactam. Era no fundo no PSD e na ausência de protagonismo da sua liderança, e a um ano de eleições legislativas nacionais - onde a mudança tem que acontecer sob pena de, em caso de derrota o PSD poder confrontar-se com o terrível espectro de ter que lutar pela sua sobrevivência - que Jardim estava a pensar quando falou nesse novo partido que eu continuo a acreditar não passar de uma técnica de retórica comunicacional frequente em política, a de saber dizer coisas concretas e enviar recados a destinatários em concreto, sem nunca referir o seu nome. Mas uma coisa é certa, e no fundo foi isso que Jardim pretendeu dizer quando falou em ruptura: se em 2009 o PSD se revelar um partido pateticamente incapaz de obter a confiança do povo, se esta liderança continuar a pensar que vai fazer o que lhe mandam fazer ou lhe apetece - porque há quem pense mais nas presidenciais que em 2009… - então das duas uma: ou o PSD tem remédio e partimos para um ajuste de contas interno, epílogo de uma revolta das bases, no seu direito à indignação, e fomenta-se assim a regeneração do partido, ou a solução pode ser então, como último recurso, e em caso de resistências tontas de gente medíocre, optar por uma nova força política que possa congregar aqueles que não acreditaram em 2009 no PSD, caso este mantenha a orientação que vem adoptando. E não me venham com a treta, própria de iluminados, engomadinhos e bem vestidos, que as cosias são feitas quando e como a líder quiser. Não. O partido não é uma quinta da líder nem ela tem ao seu serviço capatazes para meter na ordem quem por lá anda. A líder nem sequer teve uma votação nas "directas" que lhe dê uma tão grande legitimidade interna. A líder teve mais votos que os outros candidatos, mas o que as pessoas que nela votaram querem e esperam é que o PSD apareça, forte, pujante, com ideias novas, mobilizador. Não ”isto” que não se está a ver porque até parece que o PSD não existe.
Aliás eu deixo um desafio que é duplo: por um lado se a líder Manuela Ferreira Leite, chegar à conclusão, tão rápido quanto desejável, que não tem perfil adequado e que não está em condições de liderar um projecto de mudança, face às exigências que se colocam ao partido da oposição, em vez de deixar ser “comandada” pelos que estão à sua volta que se demita dando assim oportunidade par a que o PSD reveja tudo o que decidiu até hoje e tenha a coragem de votar como deve votar em vez de ser influenciado e manipulado por oportunismos e oportunistas. E é um desafio duplo porque, a acontecer esse cenário, Jardim deve perder, de uma vez por todas, receios que porventura travaram a sua decisão, num processo complexo, polémico e que acabou por não abonar a favor de ninguém. Neste contexto, duas notas: sou incapaz de me vez ligado a qualquer outro partido que não o PSD, ao qual estou ligado desde 1974; assim sendo, esse cenário último, meramente referenciado como uma hipotética solução de recurso e de ruptura com o PSD, significaria que provavelmente não estaria nesse partido. Mas há outras questões que estão a ser escamoteadas: e a revisão constitucional de 2010 ou 2011 ficaria adiada? Deixaria Jardim de contar com o apoio do PSD, mesmo derrotado, o que implicitamente significaria dizer que a revisão constitucional ia pelas canas dentro? E na Madeira, com as regionais a 2011, acham mesmo que o eleitorado regional deixava todo de votar maioritariamente no PSD para passar a votar numa nova sigla? Mais do que especular sobre questões que me parecem demasiado sérias, e sobre as quais, para estabilidade interna, parece que foi dito tudo o que havia para dizer, pensemos antes com coragem e com a frontalidade de dizer o que está mal, no PSD nacional, porque será ele a concorrer em 2009 às eleições, e tudo o que possa acontecer em termos de alternativa passa por esse partido.

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