Escreve o jornalista do Público, TIAGO PIMENTEL que “mais de metade da
equipa tem raízes estrangeiras. Que consequências terá o “sim” no referendo às
quotas para imigrantes? Dos 50,3% de eleitores suíços que votaram a favor da
imposição de quotas para imigrantes da União Europeia, no referendo do passado
fim-de-semana, quantos serão adeptos de futebol? E, desses, quantos terão consciência
das implicações que uma tal medida teria para a selecção helvética? É que uma
fatia significativa da equipa orientada por Ottmar Hitzfeld – que se qualificou
com distinção para o Mundial 2014 ao vencer o Grupo E de apuramento sem sofrer
qualquer derrota – é constituída por filhos de imigrantes. Rejeitar a livre
circulação na União Europeia é o equivalente a sacrificar a prestação
desportiva da equipa nacional, que disputará no Brasil, pela terceira vez
consecutiva, a fase final de um Campeonato do Mundo. A questão foi ilustrada de
forma esclarecedora numa imagem do portal satírico Extra 3, da televisão
regional alemã NDR: pegando na foto da equipa que alinhou de início num
particular frente à Coreia do Sul, em Novembro de 2013, o Extra 3 apagou os jogadores
cujas origens não estão na Suíça. Jogadores como Tranquillo Barnetta, Gökhan
Inler ou Diego Benaglio “desapareceram” e sobravam apenas três futebolistas no
“onze”. “Com três homens no Mundial?”, questionava-se no título. “O treinador
[alemão] Ottmar Hitzfeld também não estaria na foto, naturalmente! Xherdan
Shaqiri, habitual titular, ficou excepcionalmente de fora neste jogo, por isso
removemos outro jogador no lugar dele”, explicava ainda o portal alemão. O
artigo, publicado no início desta semana, já tinha merecido até ontem à noite
143 comentários. E a imagem começou a circular rapidamente pelas redes sociais.
A neutralidade fez da Suíça um destino apelativo para a imigração ao longo do
século XX, nomeadamente para os refugiados dos conflitos nos Balcãs, na década
de 1990. Isso, aliado ao forte investimento que a Suíça fez no futebol de
formação sensivelmente nessa mesma altura, está agora a reflectir-se na composição
da equipa helvética. “Sem multiculturalismo a Suíça não estaria no Campeonato
do Mundo, escreveu Ishaan Tharoor na revista Time, num texto com o qual
pretendia demonstrar o que há de errado com a “histeria anti-imigração na
Suíça”. “O núcleo dinâmico do futebol suíço é um produto directo de políticas
viradas para fora, que aceitaram imigrantes e acolheram os refugiados dos
conflitos nos Balcãs nos anos 1990. Uma pequena maioria dos suíços pode estar
ressentida pela incursão de grupos tradicionalmente não-suíços na sua
sociedade, mas serão poucos os que se queixam quando Shaqiri, Inler e companhia
vestem a camisola da equipa nacional”, podia ler-se.
“Os filhos dos imigrantes, árabes, portugueses, espanhóis,
sul-americanos, são um reforço importante. As segundas e terceiras gerações
estão a aparecer agora e dão outras características, como maior criatividade”,
explicava João Alves ao PÚBLICO, em 2009 – durante três temporadas o treinador
português orientou o Servette no principal escalão do futebol helvético.
Metade da selecção
Dados do Eurostat relativos a 2012 mostram que havia na Suíça ligeiramente
mais de dois milhões de pessoas nascidas fora das fronteiras helvéticas – um
quarto da população. Mas, dentro das quatro linhas, essa percentagem é mais
elevada. Do total de 26 jogadores utilizados por Ottmar Hitzfeld durante a
qualificação para o Mundial 2014, mais de metade tem raízes fora da Suíça.
Alguns exemplos: Johan Djourou (nascido na Costa do Marfim mas que foi viver
com o pai para a Suíça quando tinha um ano e meio), Ricardo Rodríguez (filho de
pai espanhol e mãe chilena, nascido em Zurique) ou Gelson Fernandes (que
representou o Sporting em 2012-13 e nasceu em Cabo Verde). O grupo dos
jogadores com ascendência turca ou dos Balcãs é o mais numeroso. E é aquele
que, a médio prazo, pode colocar o maior desafio para a selecção suíça. Dele
fazem parte as principais figuras da equipa, como Gökhan Inler e Xherdan
Shaqiri. Este último, aliás, celebrou a conquista da Liga dos Campeões 2012-13,
ao serviço do Bayern Munique, com duas bandeiras: uma da Suíça e outra do
Kosovo. Em Janeiro, o comité de emergência da FIFA autorizou os clubes e
selecções kosovares a disputarem jogos particulares com equipas de federações
reconhecidas pelo organismo que tutela o futebol mundial. “Assim que o Kosovo
se tornar membro de pleno direito da UEFA e da FIFA, será nossa obrigação moral
abrir as portas aos jogadores que nasceram aqui ou têm origens kosovares”,
garantiu o secretário-geral da Federação kosovar, Eroll Salihu. O primeiro jogo
está marcado para 5 de Março, com o Haiti. Candidatos não hão-de faltar nos vários
escalões do futebol suíço. E há precedentes, como o jovem Amir Abrashi, que
alinhou nas selecções jovens da Suíça mas decidiu jogar pela equipa nacional da
Albânia”

