Há uma questão que me confunde – e termino
hoje esta minha reflexão – provavelmente por ser determinante, neste momento, e
na perspetiva do nosso futuro, encontrarmos as respostas adequadas que o bom
sendo e a inteligência exigem sejam dadas de forma inequívoca: até que ponto podemos
consolidar a nossa autonomia sem resolvermos os problemas financeiros que sempre
nos condicionaram e que se arrastaram ao longo dos anos, sem que entre o poder
central e a Madeira fosse encontrada uma solução consistente e duradoura? E,
neste quadro, como é que vamos reclamar mais autonomia junto daqueles com quem
temos que renegociar os calendários de pagamentos dos empréstimos contraídos e
flexibilizar outras exigências decorrentes do nosso programa de ajustamento
financeiro? Existem possibilidades de algum sucesso? Existem sequer condições
políticas, neste momento, para essas negociações com Lisboa? Provavelmente é
esta aparente contradição que as pessoas precisam de perceber e ver
clarificada. E há que lhes explicar devidamente, com clareza e verdade, o que
queremos e até que ponto esta questão financeira condiciona, ou não, os planos
de uma consolidação autonómica.
Duas outras notas finais.
A primeira – e não tenho qualquer hesitação
em assumi-lo, porque acho que política e pragmatismo são indissociáveis – tem a
ver com o facto de que qualquer ato eleitoral antecipado correr o risco de ser penoso
para o PSD regional, por muito que as pessoas acreditem (demasiado ou não, fica
com o respetivo “ego”…) num pretenso capital pessoal como catalisador de votos.
Tal como o povo diz “ainda muita água
pode correr debaixo das pontes” pelo que nem sequer sei se, para além da
conjuntura de crise e de austeridade, outras situações não poderão ser futuramente
suscitadas, quiçá mesmo com origem fora do espaço social-democrata, e com o
objetivo de causarem estragos políticos a alguns protagonistas e ao próprio PSD
regional. Em situações de crise social e económica agreste como a que vivemos,
não há salvadores da pátria, tal como os vendedores de banha-da-cobra
dificilmente deixam de ter o destino recomendado: o lixo!
Não acredito que toda esta estranha ânsia de
acelerada conquista do poder, “justificada” com recurso a argumentos
perfeitamente absurdos e despejados de qualquer lógica e razoabilidade, se
mantenha no caso de um PSD regional fragilizado, quiçá até mesmo derrotado,
pior ainda se relegado para a oposição por culpa própria, devido a um acumular
de erros políticos e de avaliação social imperdoáveis. Tudo Isto faz-me lembrar
aquela história do escorpião e do elefante! Temo que num cenário extremado, tenhamos
até que publicar anúncios nos jornais para se contratar um líder! Porque
desconfio que se contará pelos dedos de uma mão, se tanto, aqueles que estarão
disponíveis para dar a cara nessas circunstâncias.
Temo que se possa revelar um aventureirismo perigoso
e passível de se virar contra o próprio PSD da Madeira, andarem a reivindicar
cenários que todos desconfiamos possam ser prejudiciais, pelo menos até que se
resolvam questões pendentes, no quadro da governação e da inversão deste ciclo restritivo
determinado pelo PAEF, questões essas que precisam ser resolvidas urgentemente,
durante este ano, para bem da Madeira e do seu povo.
Acresce que não tenho tanta certeza que
Cavaco aceite determinados cenários políticos colocados em cima da mesa, o que
significa que, a ser assim - estou apenas a deambular - o espectro de eleições
antecipadas em 2015, antes da data prevista (Outubro) é algo perfeitamente
plausível.
Neste quadro, considero também, segunda
questão a suscitar, que o debate em torno da lei eleitoral regional esteja ser
conduzido de forma absurda, a roçar a demagogia. Se há quem defenda, e sobejam
textos com essa proposta, uma redução do número de deputados regionais, até por
pressão da própria conjuntura, sou eu. Mas há um problema, melhor dizendo dois,
que não podem ser escamoteados nesta discussão. Um, institucional e
legislativo, que tem a ver com o facto de que a lei eleitoral regional, por
mais paradoxal que possa parecer, é competência exclusiva da Assembleia da
República. Tudo passa (e depende) pelas negociações que tenham lugar em São
Bento e que podem até deixar de ter alguma coisa a ver com a realidade política
regional, dando lugar a jogos partidários, com avanços e recuos de todas as
partes. O segundo aspeto, já de natureza política e eleitoral, prende-se com o
facto dos pequenos partidos locais, que precisam de eleger pelo menos um
deputado para sobreviverem no xadrez político-partidário madeirense, têm a
noção da realidade eleitoral e sabem, por isso, que dificilmente conseguirão
esse objetivo com um parlamento regional Regional constituído por 25 ou 27
deputados como já li. Salvo se os partidos maiores perderem ainda mais espaço
eleitoral, o que obviamente beneficiará sempre as franjas minoritárias do
espectro partidário.
Parece-me importante, nesta fase, que não se
transforme o PSD da Madeira numa telenovela capaz de disputar os “shares” às
telenovelas que as nossas televisões diariamente emitem. Uma novela partidária,
neste caso, assente em factos políticos pré-fabricados, muitos deles suscitados
com a clara intenção de fomentar a especulação e gerar a confusão. Quando pugno
por essa reflexão coletiva, ponderada e séria, faço-o porque também não sei o
que pensam de tudo isto todos aqueles que “lá fora” seguem o PSD regional, os
eleitores que não são militantes, os cidadãos que estão insatisfeitos e
frustrados com tudo o que se tem passado nestes últimos anos e que penalizaram
eleitoralmente o partido. E esses dificilmente deixarão de reter os rostos dos
que julgam ser culpados ou coniventes, incluindo arrependimentos tardios
determinados por propósitos claramente identificados ou oportunismos saloios de
quem quer marcar apenas terreno próprio.
Há que pensar a uma escala maior na medida em
que um partido é essencialmente uma estrutura política coletiva que envolve
milhares de pessoa e não apenas os 3 ou 4 mil que votarão nas “diretas” - só
com esses perderíamos todas as eleições. Não acredito, porque seria demasiado
triste, numa espécie de autodestruição calculada do PSD Madeira à custa de
ambições pessoais ou de grupos. Seria desastroso que assim fosse. Pagaríamos
caro e pessoas com valor, que poderiam constituir mais-valias importantes para
a Região, os Madeirenses e o PSD da Madeira, seriam inevitavelmente
penalizadas. Precisamos de estabilidade, de contenção, de fomentar o diálogo,
de pensar o futuro construtivamente, porque disso não conseguiremos fugir. O desafio
é esse e o destino é incontornável (JM)
