“Foi com vontade que peguei no
livro-entrevista a Vítor Gaspar que chegou esta semana às livrarias. Não é
habitual os políticos portugueses escreverem e contarem-se. Poucos se aventuram
nesses labirintos, menos ainda o fazem bem. Estilo, substância, alguma clareza
de espírito não desaguam por aí. Muitos políticos talvez nem leiam. Suspeito
que se dediquem com afinco aos recortes que os assessores lhes despacham para
as mãos. Espelho meu, espelho meu, há alguém mais sabido do que eu?
Passos Coelho, antes de ser primeiro-ministro,
redigiu uma brochura de governo, encantadora e vácua como todas naquele
subgénero literário ultracongelado. Como é evidente, a prosa não resistiu ao
primeiro sopro da realidade. Ainda assim, fez boa prateleira nas livrarias no
período eleitoral. Lembro--me de o ver na Fnac. Ficou meses a fio exposto ao pé
de livros para realmente ler. Posicionou - é assim que se diz - o futuro homem de
Estado.
José Sócrates, no regresso de Paris, deu uma
entrevista televisiva, o efémero baile de debutantes obrigatório para políticos
ainda e sempre com aspirações nacionais. Também publicou um livro, na verdade
uma tese sobre tortura, enquadrável no mesmo espírito curricular de quem aspira
a novos voos, mas não quer realmente fazer contas com o passado. Teixeira dos
Santos foi Teixeira dos Santos: previsível como um chaparro. Depois da sombra,
a seguir ao obrigatório período de eclipse político, também deu a sua bendita
entrevista a um canal televisivo, a que se seguiu o pitoresco magazine semanal,
o púlpito onde faz de conta que analisa - ele dirá pensa - a atualidade, mas
onde apenas procura dar algum consolo e futuro ao nome turvado pela realidade.
Álvaro Cunhal escreveu, Mário Soares escreveu,
embora deles, talvez por defeito de idade, eu tenha percorrido mais os
livros-entrevista que publicaram com Maria João Avillez. Grandes livros, dois
tenores da vida pública portuguesa com tempo para falar e responder. A voz
deles está ali. Embora não tenham sido escritos pela própria mão, há pulso
deles em cada uma daquelas páginas. Para quem não viveu o antes e o pós-25 de
Abril, é história viva, cheia de contradições e significados. A recordação é
sempre imperfeita e precária, mas ajuda a fixar o presente ainda mais fugaz.
Foi por isso que peguei com vontade no
livro-entrevista a Vítor Gaspar, também ele escrito por Maria João Avillez.
Infelizmente é uma entrevista biográfica quase sem nódoas - não há perfis sem
defeitos, foi o que aprendi -, refém talvez de uma pueril admiração pela
personagem. As perguntas e respostas contam um Gaspar previsível. É uma espécie
de Gaspar por Gaspar. Não expõe o que não sabíamos dele. Imagino que nem o
próprio gostaria de ver-se confrontado com isso. Ainda assim, deu a cara, por
escrito e demoradamente, antes de partir para o exílio dourado. Isto é
política, não é Excel” (texto de ANDRÉ MACEDO, Diario de Notícias de Lisboa com
a devida vénia)