terça-feira, fevereiro 19, 2013

Opinião: "Da estupidez como critério jornalístico"

"Leio em diversa imprensa internacional (o primeiro a chamar-me a atenção foi o Hunffington Post) e também portuguesa que a nomeação pelo Papa do novo presidente do banco do Vaticano é controversa. Primeiro, pensei que era por ser alemão ou amigo do Papa (este desmentiu conhecê-lo sequer), mas verifiquei que, afinal, era porque o nomeado Ernst Von Freyberg preside a uma empresa de construção naval que fez barcos de guerra para os nazis. Pensei, então, que Von Freyberg fosse um idoso. Mas não, nasceu em 58, já a guerra e os nazis tinham acabado há 13 anos. É mais novo do que eu, que nasci em 56. A suspeita não é sobre Freyberg, mas sobre a empresa. Mas será que isso faz sentido? E a Grundig (agora comprada por investidores turcos), quando se chamava Fuerth, Grundig & Wurzer, não vendeu rádios aos nazis? E a Siemens, fundada em 1847, não aproveitou a mão-de-obra de campos de concentração? E a célebre Volkswagen (que traduzido é o carro do povo), não foi fundada por uma organização nazi em 1937? Isto tudo se sabe em três minutos de pesquisa na Internet. Eu sei que muitos jornalistas dirão que são os críticos de Freyberg que estão a levantar essas dúvidas e não os próprios jornais. Mas, a verdade é que editar um jornal é também escolher o que tem sentido. E, neste caso, a ligação de Freyberg ao nazismo é forçada e ridícula. Até que porque nem sequer tem idade para isso. A História é a História. Também em Portugal há empresas relacionadas - e muito - com o colonialismo, com o salazarismo, com a escravatura, provavelmente... E de que culpa podemos acusar os seus responsáveis atuais. Pensar um pouco não faz mal a ninguém. Assim como não pode valer tudo para criticar uma decisão, independentemente de ela ser boa ou má, coisa que eu não faço ideia, embora ultimamente tudo o que rodeie o Banco do Vaticano (ou o Instituto das Obras Religiosas, como oficialmente se chama) tenha sido sempre objeto de controvérsia Mas sinceramente choca-me que a necessidade de ser notado tenha feito o jornalismo chegar a este ponto..." (texto de Henrique Monteiro, Expresso, com a devida vénia)