Segundo o Económico, num texto da jornalista Margarida Peixoto, “há mais de 57.500 pessoas de profissões intelectuais inscritas nos centros de emprego. Mas a maior parte das colocações exigem menos estudos. São os mais qualificados, mas em Janeiro foram também os mais afectados pelo desemprego. Os números revelados ontem pelo IEFP mostram que o aumento do desemprego foi mais expressivo entre profissões que exigem estudos superiores. A economia portuguesa está agora a dispensar sobretudo os intelectuais. Pelo contrário, as profissões menos qualificadas tiveram subidas menos acentuadas do desemprego. Longe vai o tempo em que a formação superior significava trabalho garantido. Os desempregados com uma licenciatura no bolso aumentaram 40,1% em Janeiro, quando comparado com o mesmo mês do ano passado, mostram os dados publicados ontem pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Este foi o grupo onde se registou o maior aumento do desemprego que, no total, subiu 16,1% para mais de 740 mil pessoas. Já entre quem tem apenas a formação ao nível do primeiro ciclo do ensino básico, a subida foi mais modesta: 5,2%. Uma análise detalhada revela que no grupo mais afectado estão desempregados altamente qualificados. São professores, quadros superiores da administração pública, especialistas de ciências físicas, matemáticas, engenharias, ciências da vida. São também profissionais da saúde ou outros especialistas de profissões intelectuais e científicas. A economia portuguesa tem mais de 57.500 intelectuais inscritos nos centros de emprego, à espera de colocação.
"Entre os menos qualificados, já houve a erosão que tinha de haver. Agora está a afectar os mais qualificados", explica Luís Bento, economista, professor na Universidade Autónoma de Lisboa (ver entrevista ao lado). "É natural que a certa altura o desemprego comece a afectar todas as classes de profissionais", concorda João Ferreira do Amaral, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). "Como não há investimento, é natural que deixe de haver colocações para as áreas mais qualificadas. Há também menos investimento em ciência", acrescenta. Para o professor, a recessão que a economia portuguesa atravessa está longe de significar um processo de reestruturação: "nunca acreditei nas virtudes da recessão", frisa. Embora estas profissões continuem longe de caracterizar o típico desempregado, foram as que mais peso ganharam na estrutura dos inscritos nos centros de emprego. A perder expressão estão os trabalhadores não qualificados: operadores de máquinas e trabalhadores da montagem, mecânicos, oleiros, vidreiros, operários e até trabalhadores dos serviços e do comércio. Entre estes profissionais a subida do desemprego não chegou aos 10%. As colocações conseguidas pelos centros de emprego corroboram a análise. A grande maioria dos lugares disponíveis não exigem grandes estudos. Em Janeiro o IEFP colocou quase mil trabalhadores em serviços de protecção e segurança. Mais de 800 pessoas ocuparam posições não qualificadas na indústria das minas, na construção civil e na indústria transformadora. E quase 700 profissionais foram colocados como operários ou artífices”.