“Depois de custos
de pelo menos sete mil milhões de euros, que saíram do bolso dos contribuintes,
sem nenhuma condenação entretanto e com inqualificáveis prescrições à vista, o
BPN é sempre um tema quente. Que queima quem nele toca. Mesmo quando parece
estar em fase de rescaldo, basta um pequeno sopro para o atiçar. Mais do que
isso, temos o fogo de novo ateado e sem controlo. Durão Barroso, sabendo dos
perigos, arriscou ser incendiário. Chamuscou quem quis atingir, é certo. Mas
foi ele quem acabou por ficar mais queimado. A decisão de
reacender o tema BPN, colocando-o como ponto central de uma entrevista em que
nem sequer foi questionado sobre ele, é tão claro como o timing escolhido para
falar aos portugueses e os objetivos com que o fez. A seis meses de deixar de
ser presidente da Comissão e tendo percebido pelas sondagens que jamais será um
novo D. Sebastião para os portugueses, tratou-se de fazer prova de vida. De se
posicionar no terreno do jogo político. De mostrar ao País que pode ser um bom
pivô. O que tanto convence Merkel e está ao lado dos países pobres, como o que
defende os grandes consensos. O que até dá ralhetes ao Governo pelo excesso de
austeridade, ainda que apoiando as políticas de Passos, o líder do partido que
sabe que apoiaria a sua candidatura presidencial. Entre fintas e caneladas aos
adversários, passando por entradas a pés juntos aos seus próprios ex-ministros,
aquilo que vimos foi o José Manuel europeu voltar a transformar-se no Durão
Barroso de há dez anos. Com outras ambições.
É aqui que entra
o BPN. E a não ser que o caso encerre um mistério ainda maior do que o
vergonhoso crime financeiro que todos já conhecemos, Durão só pode ter ido
repescar às anotações diárias dos seus caderninhos as reuniões que teve com
Constâncio em 2003 e 2004 por três motivos. Um é tentar afastar-se o maior
possível de um caso que envolve a sua família política e muitos que lhe eram
próximos. O outro é fazê-lo invertendo as responsabilidades partidárias,
colando o PS ao escândalo, através das falhas de Vítor Constâncio enquanto
supervisor, mesmo que isso signifique, uma vez mais, atacar o polícia e não
fazer nada para punir o ladrão. E o terceiro pode ser mesmo o de anular à
partida quaisquer planos presidenciais que passem pela cabeça do vice do BCE...
Constâncio, é
preciso dizê-lo, caiu na esparrela. Quem tem necessidade de dar justificações
já está a perder. Fazê-lo de forma voluntarista e sem os auxiliares de memória
de Durão pior ainda. Os factos são claros: entre os primeiros boatos sobre o
BPN nos bastidores, as notícias públicas e as conversas em São Bento agora
conhecidas passaram pelo menos quatro anos até o Banco de Portugal atuar. Mas
isso já se sabia: uma das comissões de inquérito tinha posto as datas na coisa.
O que ficámos agora a saber é que ele não foi o único a não fazer nada. O então
primeiro-ministro, que tinha preocupações suficientes com o problema para
convocar por três vezes o governador do Banco de Portugal, também assobiou para
o lado. O que o torna, no mínimo, cúmplice. Até porque guardou provas.
Os salários dos
polícias
As notícias sobre
casos nas polícias sucedem-se. E entre os casos graves de corrupção, envolvendo
um inspetor da PJ, ou o caricato do agente da PSP que tem de fazer striptease
para ganhar mais uns cobres, ninguém discute o problema a montante. Porque o
que está aqui em causa é que quem está disposto a dar a vida pela segurança dos
cidadãos não pode ganhar uma média de mil euros por mês. Nem pode ficar sem os
míseros euros a mais do subsídio de fardamento. Nem pagar quando rasga o casaco
ou perde o boné. Muito menos quando risca o carro a estacionar. Os polícias,
qualquer que seja a sua força, não são funcionários públicos iguais aos outros.
Não podem invadir as escadas do Parlamento. Mas também não podem ser deixados à
mercê de ceder à tentação de uma qualquer nota de cem. Porque muitos não o
fazem por falta de carácter (que os há). Fazem-no por necessidades de
sobrevivência.
A teia de Amado
A questão dos
salários dos políticos também deve ser um tema de discussão. São cada vez menos
as figuras de destaque disponíveis para se dedicarem à causa pública por dever
de cidadania. E isso tem levado à degradação da qualidade da política e ao seu
descrédito. Porque não se ganha muito dinheiro na política. Ganha-se depois
dela. Com o poder e as relações que se conquistaram. Pelo que a política se
arrisca a tornar-se um mero trampolim de ambições. Veja-se só o último exemplo:
Luís Amado. Saltou de ministro dos Negócios Estrangeiros para a liderança do
Banif. Para salvar o banco foi bater à porta da Guiné Equatorial, com a qual
estabelecera relações diplomáticas quando estava no Governo. Para receber os
milhões do país que nem português fala apoiou a sua entrada na CPLP. E agora
aceitou mesmo ser intermediário de Obiang na cimeira em Timor que vai levar o
tema a discussão. São relações perigosas. A que ninguém quer pôr fim.
A publicidade a
Seguro
O cheiro a poder
causa, de facto, uma enorme atração. Ao mesmo tempo
que nas sondagens o PS começa a disparar para as legislativas de 2015 e que
todos já perceberam que as europeias não podem deixar de punir o atual Governo
(sobretudo depois de se perceber que o conceito de temporário pode ter o tempo
que se quiser), Seguro volta a ganhar protagonismo. Entre os elogios
inesperados de Alegre e as conspirações que agora já não se fazem nos sótãos de
algum socialista mas à mesa de bons restaurantes, o líder da oposição está a
marcar pontos. Qualquer especialista sabe que não há má publicidade. E Seguro
voltou a pôr toda a gente a falar dele”! (texto de FILOMENA MARTINS, DN deLisboa, com a devida vénia)