"A inveja é dos piores sentimentos que qualquer ser humano pode ter. A inveja pode destruir o sentido de importância das coisas. Tudo começa com a célebre, "a galinha da vizinha é muito melhor que a minha", algo aparentemente inocente e inócuo, para depois se tornar em inveja pura. O invejoso esquece-se de apreciar o que possui, esquece-se de viver porque passa a vida a observar, de soslaio, o que os outros alcançaram. O Invejoso é um "azedo", um ser carregado de desgostos por não possuir a prosperidade, a inteligência, a fortuna alheias. O invejoso é uma "estátua" no meio de uma praça, parado, vendo os outros deslocarem-se, rirem, viverem. Mas tudo isto poderia morrer com ele e nada de mal viria ao mundo, porém a pessoa infectada por este violento e paralisante sentimento não se fica por aí e manifesta das formas mais diversas o seu azedume. A inveja em doses exageradas pode levar ao isolamento, à conversa que rebaixa e vilipendia o outro, à simulação de que o outro não existe mesmo que os seus méritos sejam muitos. A inveja alastra por todas as condições, graus de cultura, não escolhe apenas determinadas classes ou sectores da população. No nosso país é comum que alguém que seja bem sucedido, seja criativo, revele inteligência, ou vontade de fazer algo válido numa determinada área, venha a ser alvo de inveja destilada em forma de crítica sem sentido. Como o invejoso raramente faz algo digno de nota dedica-se a ruminar este sentir, só seu, até ao comentário jocoso surgir para repor o equilíbrio no seu espirito torturado pela angustiante "invejosíce". O invejoso dorme mal só de pensar que o vizinho ganhou a lotaria. O invejoso sente angústia por saber que algo correu bem na vida de um colega. O invejoso contorce-se quando um familiar lhe mostra o seu novo automóvel, sonha com avarias, furos nos pneus, pequenas atrocidades que retirem ao outro aquele momento de felicidade. O invejoso é um egoísta pois gostaria de ter a felicidade dos outros na suas mãos. O invejoso quando no auge da sua acção denota uma tonalidade esverdeada, a inveja fazendo efeito. A inveja é tanta que mesmo que ele tivesse tudo o que os outros possuem inventaria algo que invejar. A sua mente belicosa , o seu olhar atento, utiliza-os para, de forma masoquista, se torturar a si e aos outros. O invejoso sente de forma desvairada, é incapaz de compartilhar com os outros e impede que os outros o façam com ele. Isola-se, destila o que sente e transforma-o em gestos e comportamentos anormais. Devia haver vacina para a inveja e se possível obrigatória. Mas quem a inventasse não poderia evitar provocar inveja em algum cientista concorrente e por outro lado há quem diga que a inveja tem sido um dos motores do mundo. Quem inventou esta tirada foi provavelmente um invejoso qualquer" (fonte: Carlos Adaixo, Terras da Beira, Julho de 2000)
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