Escreve a jornalista Ana Suspiro do Jornal "I", que "quatro anos a mais à espera da Casa da Música e da ampliação do aeroporto Sá Carneiro, mais 2,8 anos (ou sete) à espera do metro do Terreiro do Paço, mais dois anos e meio a aguardar pela Ponte Europa e mais 1,4 anos para os comboios da linha de Sintra voltarem ao túnel do Rossio. A execução destas cinco obras públicas demorou mais do dobro do tempo previsto por governos e empresas promotoras, para além de ter uma factura adicional de 241 milhões de euros paga pelo Estado - ou seja, pelos contribuintes. A Casa da Música no Porto foi a campeã das derrapagens. Depois de analisar cada uma das obras públicas que mais dores de cabeça deram aos poderes públicos e aos utilizadores, o Tribunal de Contas faz agora o saldo das derrapagens financeiras e temporais, detecta causas e produz recomendações para obras futuras.A suspensão do recurso à criação de regimes de jurídicos de excepção para adjudicações - como o que foi aprovado pelo governo que permite o uso de ajuste directo para obras inseridas no plano de combate à crise - é uma das principais propostas do órgão liderado por Guilherme Oliveira Martins. Outra sugestão passa pela criação da figura do gestor do empreendimento e a criação de um sistema de incentivos e penalizações para as comissões de acompanhamento.As obras da Casa da Música, Ponte Europa, Metro do Terreiro do Paço, reabilitação do túnel do Rossio e a ampliação do aeroporto Sá Carneiro custaram 726 milhões de euros, mais 52,6% do que o valor previsto. O desvio temporal variou entre 1,4 e 4,6 anos, sem contar com a paragem de cinco anos na obra de construção túnel do metro do Terreiro do Paço, cuja execução demorou mais de 12 anos.A não existência de concorrência na escolha dos empreiteiros, as deficiências na fase do projecto, a falta de rigor na preparação dos processos e as falhas de controlo por parte dos donos de obra - que, nos casos analisados, chegaram a pagar prémios aos empreiteiros quando os prazos não foram cumpridos e não aplicaram as multas previstas para incumprimentos - foram situações detectadas, "susceptíveis de violar os princípios e as boas práticas de gestão dos dinheiros públicos". As duras críticas à gestão destas obras não poupam o poder político que não garantiu às entidades gestoras "a necessária estabilidade de gestão dos empreendimentos a seu cargo, o que foi potenciador das derrapagens de prazo e de custos". A dimensão dos encargos adicionais, que ultrapassaram em mais de metade os valores inicialmente contratualizados, "ilustra o grau das ineficiências que acabaram por ser suportadas pelo Estado e, em última instância, pelos contribuintes".
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