Dois anos e meio depois de ter sido eleito pela primeira vez, ano e meio depois das últimas legislativas e seis meses depois da última sondagem, só a AD não tem razões para sorrir ao olhar para os dados do novo inquérito realizado pelo ICS/Iscte e Gfk para o Expresso e SIC. Depois de ter vencido a sua segunda eleição com 31,9% dos votos, a AD aparece agora em terceiro lugar na intenção direta de voto — a par do Chega e um pouco mais distante dos socialistas.
Eis os resultados: sem distribuição de indecisos, o PS lidera com 23%, seguido do Chega com 21% e, só depois, surge a AD com 20% — confirmando o padrão de outros estudos de opinião mais recentes, mas aqui com inquéritos presenciais. A liderança do partido de José Luís Carneiro não é, neste momento, sinónimo de crescimento. Em comparação com a sondagem de maio, o PS cai de 24% para 23% e, com distribuição de indecisos, passa de 31% para 30%. Mas os socialistas podem, pelo menos, saborear uma subida face aos 22,8% das legislativas.
Quem desce em todos os critérios é mesmo a AD: cai de 21% para 20% face à sondagem de maio (e de 27% para 26% com ponderação dos indecisos). E regista uma descida mais acentuada ainda face aos 31,9% das legislativas. Para tornar o cenário mais cinzento, só o Chega segue uma trajetória positiva passando de 17% para 21% nas intenções de voto direta (e de 20% para 26% após distribuição, já acima dos 22,8% das legislativas). Estes valores fazem com que, neste momento, só a direita consiga sonhar com uma maioria no hemiciclo. Olhando para a intenção de voto direta, o Chega somado ao PSD e à IL chega aos 44%. A margem fica muito mais confortável quando há distribuição de indecisos e exclusão de abstencionistas, já que a direita toda junta passa a valer 56%. Pelo contrário a esquerda (PS, Livre, PCP e BE) fica-se pelos 30% ou, com distribuição, 39%.
A dúvida prende-se com o rosto que poderia liderar essa direita. A sondagem aponta para uma vantagem de André Ventura, mas com Luís Montenegro a morder-lhe os calcanhares. A hipótese de uma maioria de direita com o Chega a conseguir mais votos que o PSD é nova – e levaria os sociais-democratas a terem de escolher entre formar maioria como ‘número 2’ do Chega ou viabilizar um governo minoritário do PS, acordando o fantasma do Bloco Central. Há escassas semanas, Passos Coelho deu uma entrevista com um aviso: admitia regressar, numa “situação em que o PSD, visivelmente, não tivesse a possibilidade de entregar um resultado satisfatório”.
OE não ajuda a descolar
Com o trabalho de campo a decorrer entre 16 e 25 de outubro, já após a apresentação do Orçamento do Estado (OE) para 2027 , a sondagem demonstra pelo menos que a proposta do Governo não serviu de trunfo para a AD descolar do terceiro lugar — nem com a nova redução do IRS e o bónus nas pensões mais baixas.
Para fora, o discurso dos sociais-democratas é de desvalorização. “Não se preocupe com a sondagens, eu também não me preocupo”, lançou Hugo Soares numa entrevista esta quarta-feira à RTP-Notícias. No início do mês, quando o partido já começava a surgir em terceiro lugar, também Sebastião Bugalho, porta-voz do PSD, considerou que estes números “mudariam muito rapidamente” se o PS e o Chega se unissem para “derrubar” o Governo. Mas os socialistas, esta semana, deram a luz verde ao Orçamento na generalidade, sinalizando não desejar crises políticas.
Só a AD desce em todos os critérios: cai um ponto face à última sondagem, e está cinco pontos abaixo das legislativas
Esta fotografia das intenções de voto foi tirada em pleno pico das manifestações pelo direito à habitação, pouco depois da primeira carga policial que ocorreu no Porto. Os partidos à esquerda do PS são os que mais têm feito eco das reivindicações dos manifestantes, mas para já, com retorno eleitoral pouco significativo. Sem distribuição de indecisos, o Livre surge na frente com 3% e a CDU e o BE empatam com 2% (o PAN integra a categoria Outros por ficar abaixo do 1%). Com essa distribuição, só o Livre e a CDU sobem um ponto percentual. Estes foram os mesmos resultados que os partidos conseguiram alcançar nas legislativas de 2025.
Se a comparação for feita com a sondagem de maio, há uma ligeira subida do Livre (de 2% para 3%) e do BE (de 1% para 2%), mas face à descida da CDU (de 4% para 2%) a totalidade da esquerda fica a valer ainda menos: toda junta fica-se pelos 7%, face aos 8% de há cinco meses.
NÚMEROS
73 - é a percentagem de inquiridos entre os 25 e os 44 anos que diz ter piorado “muito” a situação da habitação
94 - é a percentagem dos inquiridos simpatizantes do PSD que consideram que o preço da habitação “piorou” ou “piorou muito”
26 - é a queda, em pontos percentuais e face a março, da avaliação feita pelo eleitorado do PSD do estado do ensino
62 - é a percentagem dos simpatizantes sociais-democratas que faz uma avaliação negativa da situação da imigração
54 - é a percentagem dos simpatizantes do PSD que respondeu “piorou” ou “piorou muito” quando o tema era os impostos (Expresso, texto das jornalistas Margarida Coutinho Sofia Miguel Rosa)

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