A degradação da perceção sobre o estado do país já não é apenas um problema entre opositores do Governo. A nova sondagem Expresso/SIC revela um agravamento expressivo do pessimismo entre os próprios simpatizantes da AD, sem uma única área a recolher avaliações claramente positivas. Hugo Soares, o número dois de Luís Montenegro, disse na quarta-feira, na RTP, que “a vida das pessoas está muito melhor”, mas o que os portugueses dizem sentir é exatamente o contrário, revela a sondagem Expresso/SIC, realizada pela Gfk/ICS/Iscte neste final de outubro. Quando questionados sobre nove aspetos da vida em Portugal, uma clara maioria dos inquiridos conclui que a situação “piorou” ou “piorou muito” em oito pontos, ao longo do último ano; as avaliações positivas são muito raras — e globalmente piores do que há uns meses; e só mesmo a proteção do ambiente e da natureza é avaliada de forma neutra (com uma maioria a considerar que a situação “não melhorou nem piorou”).
No topo das preocupações estão o custo da habitação e o custo de vida — sem surpresa, dada a guerra no Irão, consequente crise energética e também face à subida contínua dos preços das rendas e de compra de casas. Mas já será mais relevante a taxa de reprovação praticamente unânime, com 97% e 96% dos inquiridos a dizer que habitação e custo de vida estão “pior” ou “muito pior” do que há um ano.
Quando medimos o estado de espírito, nem os simpatizantes do PSD escapam a um pesado pessimismo. As colunas com respostas positivas sobre “habitação” e “custo de vida”, por exemplo, ficaram a zeros — e limitam-se a 6% e 8% os que dizem sentir as coisas “na mesma”. Dito de outra forma: os simpatizantes do PSD que dão nota negativa à evolução destes dois temas ao longo do último ano atingem agora 93% e 91%.
Laranja deprimida
A perceção negativa dos inquiridos mais próximos do Governo vai muito além dos dois temas mais quentes do momento e resume-se em três dados: em nenhuma das nove áreas avaliadas há mais do que 9% de respostas positivas; apenas em três áreas ela é um pouco melhor do que a média das respostas (impostos, ensino público e habitação); só em duas delas a resposta maioritária é neutra, “nem melhor nem pior” (caso da proteção do ambiente e, à justa, no ensino público).
Na criminalidade e corrupção, por exemplo, 74% e 72% ditam que a situação está “pior” ou “muito pior” — com apenas 4% e 3% a verem melhorias. Ainda olhando os que se declaram mais próximos do partido no poder, as avaliações são ligeiramente menos más no que respeita ao SNS (melhor para 2%, na mesma para 36% e pior para 61%), assim como nos “impostos sobre rendimento” (com respostas positivas a atingir 9% e as neutras 32%). Até a avaliação da “situação da imigração”, onde a AD apostou claramente numa política de forte restrição, não foge a este padrão: só 9% de respostas positivas e 62% a apontar uma situação “pior” ou “muito pior”.
Só o ambiente escapa à avaliação negativa dos portugueses. E afunda entre os mais próximos do Governo
Pior, para as perspetivas do Governo, é que a perceção negativa entre o seu eleitorado potencial se agravou — e muito — face ao que se verificava em março. À exceção do ambiente, as respostas negativas nestes inquiridos aumentam de 12 a 26 pontos percentuais (p.p.), sendo as críticas mais acentuadas as referentes a impostos sobre o rendimento (18 p.p.), corrupção (19), ensino público, custo de vida e habitação (26 p.p. cada). Em quase todos os campos a nota negativa é já maioritária — incluindo agora imigração e SNS.
Nem IRS salva o Governo
Quando olhamos para a totalidade dos inquiridos, a avaliação é mais negativa do que na sondagem de março em seis dos nove parâmetros — estabilizando na proteção do ambiente, imigração e SNS. E só é (ligeiramente) diferente do que pensam os eleitores do PSD no que respeita à escala de negativismo.
No topo da insatisfação, os mesmos quatro temas. Por ordem crescente, são eles a corrupção (75% de notas negativas e 21% de neutras), a criminalidade (79% de negativas), e, de forma destacada, o custo de vida (96% de negativas) e o custo da habitação (97%). São duas descidas muito acentuadas face à sondagem de março — de 15 p.p. em cada caso.
No caso do nível dos impostos sobre o rendimento, nem a nova descida anunciada do IRS salva o Governo: se Hugo Soares dizia na RTP que “as pessoas sabem que com este Governo têm mais rendimento”, o facto é que só 4% dizem estar melhor, 21% veem esse imposto na mesma e 71% sentem que piorou — uma perceção muito pior do que há oito meses, quando a negativa estava ‘só’ nos 53%. Também piorou a avaliação do ensino público: mesmo sendo a segunda área menos negativa, são apenas 3% os que dizem ter melhorado (eram 9% há oito meses) e 31% os que dizem que está igual (uma queda de 12 p.p.). Estável, mesmo que bastante negativa aos olhos dos portugueses, está a situação do SNS (mesmo assim pior do que há um ano para 67% dos eleitores).
Ainda que possamos partir de um pressuposto conservador — de que os portugueses olhem com negatividade para os resultados de uma governação —, os números não deixam de ser expressivos. Uma imagem: em setembro de 2019, no final dos primeiros quatro anos de Governo de António Costa, uma sondagem do Expresso/ICS questionava sobre a evolução da qualidade dos serviços públicos de saúde. As respostas eram também maioritariamente negativas, mas muito menos: 45% davam má avaliação e 42% assumiam que estava tudo “na mesma” (Expresso, texto do jornalista David Dinis)
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