A aviação europeia enfrenta um dos momentos mais delicados desde a pandemia, com sinais crescentes de escassez de combustível a poucos meses do verão, tradicionalmente o período de maior procura. De acordo com o El País, a situação está diretamente ligada à crise energética internacional e ao agravamento do conflito no Médio Oriente, com impacto direto no abastecimento global de querosene.
Os primeiros sinais concretos de racionamento surgiram em Itália, onde a petrolífera BP alertou para limitações no abastecimento em aeroportos como Milão Linate, Bolonha, Treviso e Veneza. Nestes casos, o combustível está a ser priorizado para voos essenciais, como operações médicas, voos estatais e ligações de longa distância. Segundo o El País, esta situação resulta, em grande parte, do bloqueio do Estreito de Ormuz, que tem condicionado o transporte de petróleo e afetado os níveis de armazenamento em várias regiões, sobretudo na Ásia.
Companhias aéreas já ajustam operações
O impacto começa a refletir-se nas estratégias das companhias aéreas. A Ryanair admite reduzir a sua operação caso o conflito com o Irão se prolongue, enquanto a Volotea já cancelou uma pequena parte dos voos previstos, cerca de 1% da sua atividade, sobretudo em França, Itália e Espanha. Também o grupo IAG, que integra a Iberia, a Vueling e a British Airways, acompanha a situação de perto, especialmente devido à maior exposição do Reino Unido ao fornecimento internacional de combustível.
O custo do combustível está a aumentar de forma acentuada. Desde o início do ano, o preço do jet fuel subiu mais de 100%, com impacto direto nas margens das companhias. Este aumento surge numa altura em que o setor vinha de um 2025 muito positivo, impulsionado por uma forte recuperação da procura. O combustível representa entre 25% e 30% dos custos operacionais das companhias aéreas, tornando o setor particularmente vulnerável a choques energéticos.
Aeroportos mais expostos à crise
O impacto da crise não é uniforme. O aeroporto de Londres Heathrow surge como o mais vulnerável na Europa, devido à sua dependência de importações de combustível do Médio Oriente e dos Estados Unidos. Outros grandes hubs, como Frankfurt, também estão sob vigilância. Segundo o El Confidencial, a França é o país europeu com o maior desfasamento entre a oferta e a procura combustível de aviação, segundo dados fornecidos pela Kpler. No entanto, apesar de estar na lista dos mais expostos, a França poderia superar melhor o impacto do que o Reino Unido, uma vez que o seu acesso ao abastecimento terrestre proveniente dos Países Baixos e da Bélgica – principal cubos petroleiros da Europa – permitir-lhe-iam compensar parte da falta de querosene do Golfo. Fora da Europa, aeroportos na Índia, Austrália, Coreia do Sul e Hong Kong enfrentam igualmente riscos de abastecimento, enquanto companhias escandinavas já reduziram voos.
Portugal em risco de ficar sem reservas em apenas quatro meses
Portugal poderá esgotar as suas reservas em quatro meses, seguido pela Hungria (cinco), Dinamarca (seis) e Itália e Alemanha (sete). A França e a Irlanda teriam espaço durante cerca de oito meses, enquanto a Polónia, praticamente autossuficiente, permaneceria além de um cenário de escassez. As grandes companhias europeias tentam proteger-se através de contratos de cobertura de preços, garantindo entre 65% e 80% do combustível a valores fixos. No entanto, estas estratégias não resolvem um problema essencial: a disponibilidade física de combustível.
Mesmo com preços estabilizados por via financeira, a falta de querosene pode obrigar ao cancelamento de voos. A pressão sobre os custos deverá refletir-se no preço das viagens. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) já tinha antecipado aumentos de até 9% nos bilhetes, mas a atual escalada dos preços do petróleo pode levar a subidas ainda maiores.
O setor aéreo enfrenta agora um cenário de grande incerteza. Se a crise se prolongar, o verão de 2026 poderá ser marcado por menos voos, preços mais elevados e eventuais restrições operacionais. Ainda assim, há esperança de que o conflito no Médio Oriente tenha uma resolução rápida. Caso contrário, esta crise poderá transformar-se num problema estrutural global para a aviação (Executive Digest)

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