quarta-feira, janeiro 23, 2013

Portugal: crédito à economia penalizado por compra em massa de dívida pública pela banca

Li no Económico que "a concessão de crédito à economia tem sido penalizado pela aposta da banca em dívida pública, consideram os analistas contactados pela Lusa, baseando-se no aumento da dívida detida pela banca e na diminuição dos empréstimos às empresas e famílias. Os bancos a operar em território nacional tinham, em novembro do ano passado, 32.499 milhões de euros de títulos soberanos de Portugal, o valor mais alto desde 1979, o primeiro ano de que há registos do Banco de Portugal, e quase 10.000 milhões de euros a mais desde o início de 2012. Já nos empréstimos, novembro foi o 14.º mês em que o crédito concedido às empresas caiu, para 106.672 milhões de euros. Nos particulares, a queda repetiu-se pelo 9.º mês consecutivo para 134.407 milhões de euros em outubro. No total, desde o início do ano de 2012 e até novembro, o crédito às famílias e empresas caiu 12.334 milhões de euros (4,87%). Para os analistas contactados pela Lusa esta queda da concessão de crédito pelos bancos não é completamente independente do uso da sua liquidez para a compra de títulos soberanos. "É uma solução fácil para qualquer banqueiro [investir em dívida soberana], isto se não houver uma reestruturação da dívida. Já nos empréstimos há risco de crédito", considerou à Lusa Francisco Almeida, gestor de ativos da corretora Orey Financial. Outro analista contactado, que preferiu não ser identificado, também disse que as operações de financiamento a três anos que o BCE fez em dezembro de 2011 e março de 2012 (a que bancos portugueses foram buscar 40 mil milhões de euros) tinham como objetivo dar aos bancos "uma folga para começarem a conceder mais crédito", quando isso, "na realidade, se traduziu pela compra de mais dívida pública". Para o professor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Soares Pinho, vive-se mesmo uma "situação de 'crowding-out'", em que o "Estado se apropria da quase totalidade" do financiamento do BCE e do capital injetado pelo Estado nos bancos para os recapitalizar. Em consequência, afirma, "pouco ou nada chega à economia real, exceção feita às grandes empresas". Apesar de a banca estar neste momento a dirigir a liquidez que tem sobretudo para a compra de títulos soberanos em vez de para o crédito à economia, é provável que essa tendência venha a esbater-se, considera o analista que preferiu não ser identificado. Por um lado, justificou, porque a dívida portuguesa "tem hoje taxas de remuneração muito menos interessantes do que tinha há um ano atrás" e, por outro, porque o negócio dos bancos é emprestar dinheiro dos aforradores. "Aos bancos também interessa conceder crédito e se não o fazem é porque, no curto prazo, acham que as condições a que teriam de emprestar implicariam perdas que não querem correr. A tendência normal, a prazo, será isto começar a diminuir à medida que a economia começar a recuperar", afirmou. Além do crédito às famílias e empresas, também os empréstimos à administração pública têm estado a cair nos últimos meses. Os empréstimos dos bancos à administração central - que em abril de 2011 atingiram o recorde (desde 1979) de 12.502 milhões de euros - estavam em novembro de 2012 em 3.115 milhões de euros, sendo esse o quarto mês consecutivo de queda. Os empréstimos à administração regional também desceram em novembro último, pelo terceiro mês consecutivo, para 1.487 milhões de euros. O valor mais elevado de crédito concedido nas administrações públicas era, em novembro, o destinado à administração local, com 4.568 milhões de euros. Ainda assim, é também nesta rubrica se regista a maior queda consecutiva, estando a ceder há 19 meses, desde abril de 2011"