quarta-feira, agosto 06, 2008

Liliana a “tenebrosa”?

Não conheço a dra Liliana Rodrigues de lado nenhum, nunca falei com ela, portanto não há pessoa que se sinta mais à vontade para falar do assunto que eu. Liliana foi autora de uma tese de doutoramento – e será que as pessoas sabem o que é uma tese de doutoramento, em que bases científicas rigorosas ela assenta, as metodologias de investigação adoptadas? O rigor a que se sujeitam os autores, tantas vezes torturados por exigências e rigores dos tutores? Portanto quando percebi a polémica, e constatei que ainda por cima se trata de uma jovem madeirense, que lutou pela suja valorização, perguntei logo a mim mesmo se a docente e investigadora em questão, pela forma como em determinados momentos foi tratada, quase ridicularizada, seria suficientemente masoquista para andar a envolver-se num, trabalho desta responsabilidade e inventar indicadores ou querer provocar seja quem for. Não acredito. Acho que o documento de Liliana Rodrigues, é mais um contributo que deve ser tido em consideração, que certamente aponta para realidades que mesmo incómodas, por muito incómodas, não devem ser escamoteadas. Quando há meses ficamos a saber pelo PCP que um estudo sobre a pobreza realizado por uma equipa de docentes universitários, liderados por Luís Capucha, e elaborado para o QREN no âmbito da preparação deste novo programa, garantia na Madeira 50 mil pobres ou coisa do género, as reacções verificadas foram sobretudo políticas. E legítimas. Não acreditamos que existam 50 mil pobres na Madeira. Mas já podemos admitir que existam, devido a um somatório de factores diversos, entre os quais o nível dos salários, eventuais despedimentos, precariedade laboral, aumento do endividamento, etc 50 mil pessoas que vivam com dificuldades e privações com as quais não estavam a contar. Porque mesmo sabendo-se que não existem 50 mil pobres, na Madeira, pelo menos de acordo com a nossa perspectiva, há que ter em consideração que os estudos científicos e universitários – cuidado que eu não estou a dizer que por causa disso são todos perfeitos ou inatacáveis em termos de discussão do seu conteúdo ou das conclusões, etc - obedecem a critérios e que existem conceitos que não podem ser ludibriados. É o somatório desses conceitos num trabalho metodológico que permitem obter indicadores, depois usados por instituições nacionais ou internacionais. Isto não quer dizer que a soma de todos esses conceitos prove que existiam 50 mil pobres na Madeira. Não, o que o estudo dizia é que, considerando aqueles conceitos previamente estabelecidos e definidos, existiam 50 mil pessoas que corriam o risco se ser incluídos num determinado grupo de cidadãos com determinadas características. Tal como em Portugal se fala nos 2,5 a 3 milhões e na Europa já perderam as contas porque os 20 a 30 milhões inicialmente falados já bateram no tecto! Quando Alfredo Bruto da Costa liderou um grupo que cientistas e que sobre o mesmo assunto e pendo por base exactamente a mesma técnica de trabalho falou em 80 mil potenciais pobres na Madeira, alguém tratou-o da forma como Liliana Rodrigues foi tratada? Aliás sobre esta questão da pobreza volto a recomendar a leitura deste texto de Rui Cerdeira Branco, aqui. No caso de Liliana Rodrigues, perguntei-me se havia alguma relação entre os títulos sensacionalistas publicados na imprensa e o trabalho em questão. Em segundo lugar, pior do que isso, ficou-se a dúvida: seria a docente masoquista ao ponto de provocatoriamente, ou por mera gáudio pessoal, avançar com o documento que à partida sabia poder ser polémico, sem o ter fundamentado e, mais do que isso, sem o ter encarado sempre como um contributo para uma discussão séria do assunto. Se uma filha minha, que optasse pelo doutoramento, resolvesse avançar com uma tese de doutoramento que sabia à partida ser incómoda – imaginemos apenas por exemplo, dois exemplos: o primeiro - qual o peso do Centro Internacional de Negócios n o PIB regional, de facto? Que influência tem o CINM na economia da Madeira, de facto?; o segundo – numa região insular em que os transportes são sectores estratégicos fundamentais (vem nos manuais) até que ponto faz sentido a privatização, parcial ou total dos serviços associados a essas duas áreas? Corre uma região insular que opte por essa solução perigos de se expor a vulnerabilidades de consequência s imprevisíveis? – e que as conclusões apresentadas, em vez de serem discutidas construtivamente, fossem imediatamente rebaixadas ou ridicularizadas, podem ter a certeza que eu reagiria mal. Desde logo porque nunca hesitaria em acreditar que a minha filha tinha dado o seu melhor na elaboração do documento e que mesmo tendo chegado à conclusões que chegou, e que ela explicaria porque chegou, recusava aceitar que o tivesse feito deliberadamente para enxovalhar a Madeira ou fosse quem fosse.
Ora se eu penso assim, tenho que defender Liliana Rodrigues e achar que ela tem o direito a ser respeitada, que para se discutir a sua tese de doutoramento é preciso ler, todo o documento, as notas pessoais da autora, os métodos usados, as fontes de informação estatística que utilizou, etc. Estou quase a concluir a leitura do texto – uma pequena parcela do trabalho da Liliana Rodrigues – que a UMA disponibilizou no site, e não percebo. Mas afinal será necessário discutir as causas do abandono escolar sobretudo quando a crise social aumenta? Será necessário olhar para o abandono escolar dissociando-o do perfil dos jovens dos nossos tempos? Será preciso discutir o abandono escolar ligando-o com os custos que o ensino cada vez mais representa para os orçamentos apertados de uma família? Mas será preciso trazer indicadores do que se passa em Portugal ou na Europa? Com as universidades falidas ou à beira disso e com o Estado a cortar os apoios financeiros, o que obrigará a aumento de propinas, despedimento de docentes contratados, etc, alguém duvida que o abandono do ensino superior será uma realidade incontornável e que a qualidade do ensino superior vai cair a pique? Mas se aparecer alguma tese de doutoramento a provar antecipadamente isso, alguém ousará contestar por muito que esse indicador incomode? Finalmente uma nota pessoal. Chegou-se ao conhecimento que a jovem madeirense, depois da polémica em que injustamente se viu envolvida, triste e frustrada pelo facto da Madeira poder não aproveitar o seu trabalho. Será que Liliana Rodrigues será obrigada a trabalhar fora da Madeira? Que raio de terra é esta que trataria desta maneira os seus próprios filhos? A docente porventura terá outros projectos, um deles, ao que me parece, iria ia entregue agora ao FSE para financiamento, numa parceira a SREC. Depois da polémica a jovem madeirense teme que essa parceria antes praticamente acertada seja recusada. Garante-me quem a conhece, que a jovem Liliana, essa "tenebrosa" mulher que ousou avançar com determinados indicadores estatísticos, sem culpa que a comunicação social especulasse em torno do assunto e que, a reboque desta alguns partidos da oposição local, sempre sedentos de protagonismo, "sangue" e votos, viessem falar do que não percebem patavina. Apesar de confiante, Liliana parece acreditar que não será nem marginalizada nem prejudicada por causa desse seu trabalho no qual se empenhou e a sua carreira. Será mesmo que a vão mandar para canto? Que raio de terra é esta que insiste neste tipo de atitude? Deixem a Liliana voar, deixem a Liliana sonhar e não me venham com moralismos porque como diz o brasileiro, se me apetecer, ainda dou com a boca no "trombone" a propósito de certas encomendas...recentes. Já agora será que o Presidente do Governo sabe a "missa" toda. E depois a coitada da Liliana Rodrigues é que acaba por levar a porrada toda. Os outros são os gajos porreiros... Voltarei aos tais números da "tenebrosa" miúda. Podem crer.

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