domingo, agosto 23, 2026

Crise automóvel europeia ameaça mais de mil empregos em Portugal

A quebra da produção automóvel na Alemanha e em Espanha está a aumentar a pressão sobre a indústria portuguesa de componentes, que depende fortemente destes dois mercados. A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel estima que mais de mil postos de trabalho possam estar em risco nos próximos três anos. Segundo o Jornal de Notícias, Alemanha e Espanha absorvem quase metade das exportações portuguesas de componentes automóveis, o que deixa as empresas nacionais particularmente expostas à redução da produção nos dois maiores fabricantes de veículos da União Europeia. José Couto, presidente da AFIA, admite uma diminuição do emprego no setor, embora sublinhe que essa evolução não resulta apenas da contração do mercado, mas também do aumento da intensidade tecnológica nas empresas.

O alerta surge numa altura em que vários dos principais grupos automóveis europeus estão a preparar cortes significativos. A BMW está a preparar propostas de saída voluntária para cerca de 40 mil trabalhadores na Alemanha, enquanto a Volkswagen admite reduções que poderão atingir 100 mil postos de trabalho. Mercedes e Stellantis estão também a avançar com medidas de contenção de custos e ajustamento da capacidade produtiva. De acordo com o Jornal de Notícias, José Couto considera que a Europa enfrenta um problema de sobrecapacidade instalada, com os construtores a produzirem acima do nível compatível com a atual procura. Quando os fabricantes reduzem a produção de automóveis, a necessidade de componentes também diminui, obrigando os fornecedores a ajustar as próprias estruturas.

Produção na Alemanha e em Espanha caiu 14,3%

A dependência portuguesa destes mercados agrava o risco. Em 2019, as fábricas alemãs e espanholas produziram em conjunto 7,5 milhões de veículos. Em 2025, esse número tinha descido para 6,4 milhões, menos 1,1 milhões de automóveis. A quebra representa 14,3%. Como Alemanha e Espanha representam quase 50% das exportações portuguesas de componentes, a AFIA antecipa efeitos diretos sobre encomendas, produção e emprego em Portugal.

Europa já perdeu 104 mil empregos desde 2024

O problema estende-se a todo o continente. Um estudo da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis, elaborado pela Roland Berger, concluiu que o setor perdeu 104 mil empregos desde 2024, o equivalente a cerca de 142 postos de trabalho por dia. As perspetivas continuam negativas: o estudo estima que pelo menos 350 mil empregos possam desaparecer até 2030 apenas entre os fornecedores da indústria automóvel europeia. Em Portugal, José Couto aponta para uma possível perda superior a mil postos de trabalho nos próximos três anos.

Empresas portuguesas procuram outros mercados

Perante a quebra das encomendas, várias empresas portuguesas estão a tentar reduzir a dependência dos grandes fabricantes europeus. Segundo a AFIA, algumas têm procurado novas geografias, enquanto outras estão a entrar em diferentes setores de atividade. A diversificação é vista como uma forma de compensar a redução da procura no setor automóvel e preservar capacidade produtiva.

AFIA critica perda de competitividade europeia

José Couto considera que parte do problema resulta de decisões tomadas pela própria União Europeia. O presidente da AFIA acusa a Europa de ter subestimado a capacidade dos concorrentes internacionais e de não ter reagido suficientemente cedo à perda de competitividade. Os fornecedores europeus enfrentam empresas de regiões com custos mais baixos, menor regulamentação, tarifas, práticas de dumping e subsídios. A China é apontada como o exemplo mais evidente, mas não como o único concorrente a ganhar terreno.

Transição elétrica também é questionada

A evolução para o automóvel elétrico está igualmente no centro das críticas. José Couto considera que as políticas europeias não tiveram suficientemente em conta a evolução tecnológica e industrial dos concorrentes, permitindo que estes ganhassem posição em várias áreas estratégicas. Na sua avaliação, a Europa terá agora de acelerar a construção de uma política de reindustrialização para recuperar competitividade.

Fabricantes chineses avançam para produção em Espanha

A pressão aumenta também com a instalação de fabricantes chineses dentro da própria Europa. Segundo informação citada pelo Jornal de Notícias, existem já cinco construtoras chinesas instaladas ou com projetos de fábricas em Espanha. A produção local permite reduzir a exposição às tarifas aplicadas pela União Europeia aos veículos importados diretamente da China.

Portugal já sentiu vários cortes no setor

A instabilidade já se fez sentir em várias empresas portuguesas. A Coindu encerrou em dezembro de 2024 a fábrica de Arcos de Valdevez, deixando cerca de 350 trabalhadores sem emprego. A unidade reabriu posteriormente para produzir peças destinadas aos setores aeronáutico e da defesa. A SGL Carbon anunciou o encerramento da fábrica do Lavradio, no Barreiro, com impacto em 250 trabalhadores. Já a Yazaki Saltano, em Ovar, avançou em janeiro com um despedimento coletivo de 163 pessoas, justificando a decisão com a quebra da procura e com o investimento em novas tecnologias, incluindo robótica e inteligência artificial. A evolução da produção na Alemanha e em Espanha será, por isso, determinante para perceber até que ponto a atual crise europeia se traduzirá numa nova vaga de cortes no emprego da indústria automóvel portuguesa (Executive Digest)

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