(fonte: aqui)
"Sem pretensões de fazer história e apenas no propósito de recordar os acontecimentos de maior relevo na epopeia aqui levada a cabo, reproduzimos, em breve síntese, os dados colhidos nas obras de diversos historiadores de Angola, nomeadamente no trabalho do capitão Gastão de Sousa Dias intitulado "A Cidade de Sá da Bandeira" e publicado pela Câmara Municipal em 1957.
"A história de Sá da Bandeira começa naquele dia em que D. José da Câmara Leme viu estender-se ante os seus olhos maravilhados o Vale do Lubango. Vinha o então Condutor de Obras Públicas Câmara Leme a realizar o seu plano de escalar a serra com uma estrada que encurtasse o trajecto entre Moçâmedes e a Huíla, fugindo às invencíveis dificuldades do acesso ao Planalto pelas portas difíceis do Bruco. O Vale do Lubango era um paraíso encantado após as securas do deserto do Namibe e as dificuldades tremendas dos precipícios da Chela terrivelmente enrugada. Encontrar agua límpida correndo a sorrir por entre a vegetação viçosa duma bacia hidrográfica abrigada das ventanias pela protecção da serra devia ser para Câmara Leme a sensação mais forte da sua vida. Cresceu-lhe o entusiasmo no peito. Começou a desenhar-se-lhe "um sonho portentoso na fantasia ardente". Com 28 anos de idade punha nos seus pensamentos todo o ardor e entusiasmo da juventude e todo o patriotismo da sua alma dedicada ao engrandecimento de Portugal. Andava em curso a pacificação do Sul de Angola, cobiçado por nações estrangeiras vizinhas que procuravam lançar nas terras de Angola as sementes da discórdia e da traição quase descarada. Já então a glória começava a nimbar a figura heróica de Artur de Paiva. Estavam em curso diversas tentativas de povoamento dirigido, nomeadamente na Huíla, Humpata. Palanca e Bibala. Tratava-se de implantar uma nova povoação nas terras desabitadas do Lubango. E logo pensou na sua terra natal - a Madeira. Escreveu ao Governador-Geral Ferreira do Amaral, dando conta do sonho que lhe empolgava a alma. Chegara a uma região maravilhosa para a agricultura. Havia abundância de água para irrigação. Os terrenos eram férteis. O clima apresentava-se duma amenidade incomparável. As serranias bem arborizadas faziam-lhe lembrar a remota Madeira. Todo o conjunto da região parecia-lhe um pedaço das costas mediterrânicas. A ilha da Madeira, superpovoada, poderia fornecer os primeiros contingentes de povoadores. Seria mais uma bela povoação portuguesa em África, uma povoação de grande futuro! A ideia encontrara o melhor acolhimento da parte do Governo-Geral. Vinha até ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huíla, com elementos lusitanos que imprimiriam o carácter português às novas povoações. Mas o Governador-Geral lamentava não poder fazer nada para a concretização do sonho daquele funcionário patrioticamente empenhado. A ideia exposta ultrapassava os limites da administração do Governo-Geral. Era da competência do Ministro do Ultramar. Só em Lisboa se podia gizar o projecto dessa povoação por envolver outras parcelas do territ6rio português, que teriam de recrutar povoadores para o Lubango. 0 Governo de Angola. embora visse perfeitamente a viabilidade do projecto, nada podia fazer para a sua realização. Não tinha meios nem poderes. Era o primeiro obstáculo que se erguia contra o sonho de D. José da Câmara Leme. Mas o ilustre funcionário não era homem que desanimasse às primeiras dificuldades. A resposta do Governo-Gcral de Angola só vinha fortificar a sua ideia, pois, no fundo, apoiava a seu projecto. E o simples condutor de Obras Públicas ao serviço do Distrito de Moçâmedes, de área vastíssima e desconhecida, resolve poder o que não podia o mais alto magistrado de Angola. Alegaria a necessidade duma licença graciosa para retemperar a saúde após a realização do seu projecto de vencer a serrania com uma estrada directa à povoação da Huíla. Não teria vencimentos durante uns meses. Mas a concretização do seu sonho de engrandecimento da Pátria valia bem todos os sacrifícios. O mérito alcançado com a construção da rodovia levada a efeito seria com certeza considerado para deferimento da sua petição, que era justa. Não se enganou nos seus prognósticos. Obteve a graciosa sem vencimentos, como era hábito então. Partiu para Lisboa, depois de novamente expor oralmente o seu sonho ao Governo-Geral. que o continuava a encarar com o mesmo carinho impotente, sem meios nem competência legislativa que lhe permitissem torná-lo realidade. Era indispensável transporta-lo ao Governo Central e acompanhar de perto o resultado de todas as diligências. Chegado à Capital da Nação, Câmara Leme bateu às portas do Ministério da Marinha e Ultramar, cuja pasta era então sobraçada pelo grande escritor e jornalista. orador, dramaturgo e historiador Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, no último Ministério sob a presidência de Fontes Pereira de Melo. Pinheiro Chagas dedicava ao Ultramar todo o seu carinho e inteligência. Durante os dois anos do seu Ministério, conseguiu estabelecer comunicações telegráficas por cabo submarino entre a Metrópole e Angola; iniciar a construção dos caminhos de ferro de Luanda; criar os serviços de abastecimento de agua a Luanda: desenvolver o povoamento do interior do Distrito de Moçâmedes - Planalto da Huíla; criar o Distrito do Congo e estabelecer a navegação fluvial do Zaire, além de obras semelhantes nas outras Províncias Ultramarinas. Era realmente o Ministro de que precisava Câmara Leme.