Pedro Passos Coelho defende que o PSD “tinha a obrigação” de explorar uma maioria com o Chega e a Iniciativa Liberal criticando o reformismo de Montenegro que “tardou a perceber-se”. O antigo primeiro-ministro admite ainda regressar à política ativa se o Governo não entregar resultados. Em entrevista a Maria João Avillez, na SIC Notícias, afirmou que a sua preocupação “não é o PSD”, mas “o país”. Naquela que foi a sua primeira entrevista na televisão após a saída do governo em 2015, Pedro Passos Coelho considera que o país não está bem e que tem o dever de intervir no debate público. Em entrevista à SIC Notícias, conduzida por Maria João Avillez, o antigo primeiro-ministro afastou, porém, a hipótese de uma candidatura: “Nesta altura não estou candidato a nada, nem estou a preparar nenhuma candidatura. Se estivesse a fazê-lo, dizia-o.”
Questionado sobre as declarações que já prestou, Passos Coelho foi claro: “Tenho que intervir? Certamente.” A jornalista recordou o prefácio do livro “Portugal na Paz dos Bloqueios” de Pedro Gomes Sanches , que, disse, se assemelha mais a um programa de governo, e o estudo da Associação Comercial do Porto, coordenado por Passos Coelho e Sérgio Sousa Pinto, que poderá ser lido do mesmo modo. Perguntou se não seria natural que muitos portugueses se interrogassem sobre o que aí vem. O social-democrata não cedeu.
Um país no “rame-rame”
Passos Coelho descreveu um tempo “muito exigente”, “de espera” e de profunda mudança. Reconheceu aspetos positivos nas transformações tecnológicas, mas disse que há motivos de preocupação. Em Portugal, afirmou, passou-se de um período de grandes responsabilidades e mudanças significativas (referindo-se aos anos do seu mandato pautado pela crise política) para o extremo oposto. Expôs os quase nove anos de governação socialista, primeiro com maioria relativa e depois absoluta, em que o país se afastou das grandes mudanças e dos grandes problemas e mergulhou no “rame-rame” do quotidiano.
Quando só se gere o dia a dia, defendeu, o longo prazo chega com razões de insatisfação, e as pessoas “não percebem porque são tão modestas as suas perspetivas”. Apontou aos poderes públicos “uma espécie de deixa andar” e dificuldade em apresentar uma visão que mobilize os portugueses a médio e longo prazo.
Esse sentimento, disse, liga-se ao que se passa na Europa. Durante uns anos, Portugal pôde olhar para o que acontecia aos outros para antever o seu futuro e “distraiu-se” com isso, nomeadamente no tema da imigração, durante “todo o reinado” de António Costa. “Vemos o que se está a passar na Europa e não estamos tranquilos”, afirmou, defendendo que é preciso fazer “alguma coisa mais transformadora”. Para Passos Coelho, quando o PSD ganhou em 2024, depois de uma maioria absoluta socialista, ficou claro que o país esperava “uma mudança significativa na orientação política do Governo”. Perante a pergunta de Maria João Avillez, se isso não aconteceu, respondeu: “Tardou a perceber-se.”
Aliança com Chega e IL? Uma opção que devia ter sido “explorada”
O PSD, reconheceu, tem programa e ambição, mas a ambição transformadora “tem sido lenta a passar do programa para as ações do Governo e para a realidade do país”. Avisou que, se esta pressão não for melhor respondida, os eleitores não compreenderão que os partidos à direita do PS, que somam mais de 60% dos deputados, não revelem capacidade de entendimento.
É aqui que está o núcleo da crítica. Passos Coelho referiu-se à “dificuldade em gerar uma maioria que suporte a ação reformista do Governo” e disse que: “O PSD tinha obrigação de explorar essa possibilidade. O PSD tinha a obrigação de tentar”. “Não estou a dizer que fosse fácil”, reconheceu, admitindo que um entendimento entre PSD, CDS, Chega e IL talvez não o fosse, “mas era importante tentá-lo”.
O argumento de fundo é que os governos precisam de apoio no país e no Parlamento: “É muito difícil mudar as coisas sem estabilidade e força política.” Recordou o seu próprio Governo, que funcionou graças à aliança com o CDS. Lembrando que as coligações “não são fáceis”, mas que na altura os partidos tiveram “maturidade suficiente” para acordar uma estratégia de saída da crise. O PSD, defendeu, devia ter criado condições, em coligação ou com acordos parlamentares, para um programa executável durante quatro anos.
“Uma armadilha política imensa”
Passos Coelho classificou o atual modelo como “uma armadilha política imensa”. Por um lado, dá a impressão de que ao PSD “tanto faz” negociar à esquerda com o PS ou à direita com o Chega, fazendo de charneira à espera de que lhe deem a maioria. Por outro, o partido passou um ano a preparar eleições que não deram maioria: “Perdemos um ano.” Na sua leitura, é já tarde para tentar um acordo de legislatura, que foi recusado, e as reformas dignas desse nome precisam de apoio popular e parlamentar. O exemplo que deu foi a reforma laboral.
O antigo líder social-democrata lembrou que, em 2024, em Faro, alertou para o “grave problema” da imigração, a que acrescentou a segurança. Considera o assunto “evidente” e “cristalino”, mas sabe que muita gente no PSD “ficou aflita” com o que tem dito. Notou que só no segundo Governo, por iniciativa do ministro da Presidência, se começou a trabalhar na revisão da lei da nacionalidade e da imigração. Muita gente ficou a achar que o PSD agiu “a reboque do Chega”, quando, sublinhou, tinha a obrigação de o fazer.
Relaçao com o PSD? “Emocional”, “descomplexada”, mas sempre crítica
Passos Coelho descreveu uma relação “descomplexada” com o PSD: foi presidente, militou desde jovem, assistiu à sua evolução e mantém uma ligação emocional. Disse que ninguém ficaria mais satisfeito do que ele se o partido se saísse bem e prestasse um bom serviço ao país. Considerou que quem está no Governo faz o melhor que pode, mas meteu-se numa armadilha política muito complicada.
Questionado sobre como se chegou a um sistema político bloqueado, com três partidos que pensam o mesmo, respondeu que “andou tudo demasiado tempo a olhar para o umbigo”. Defendeu que os partidos só são úteis se tiverem algo para oferecer e que a ideia de exercer o poder como tática de sobrevivência tem, em regra, os dias contados, embora haja no PSD quem pense o contrário.
Citou o exemplo de António Costa, que esteve quatro anos a gerir o dia a dia e os apoios e que, depois de um Orçamento chumbado, conseguiu, com a ajuda do Presidente da República, eleições e uma maioria. Por isso, diz, é difícil convencer hoje muita gente no PSD a não seguir esse caminho, porque acham que foi isso que foi premiado.
Criticou a lógica do “um bocadinho aqui e acolá”, com umas reformas e uma baixa do IRS, que distribui margens em vez de as usar para algo de longo prazo. A estrutura fiscal, afirmou, “penaliza tanto o trabalho que não conseguimos fixar o talento”. A alternativa seria uma reforma que permitisse às empresas inovar e pagar melhor, ficando o Estado com uma parte menor, algo que, lamentou, não acontece.
Bloco central: “É perigoso”
Sobre a hipótese de um bloco central, o antigo líder social-democrata afirmou que “o problema não é o arranjo político que se faz”, mas considerou que não é desejável: “É perigoso.”
Passos Coelho corresponsabilizou também o Chega e a Iniciativa Liberal na busca de soluções à direita. Elogiou o líder do Chega: “André Ventura é uma pessoa com bastante mérito. E é um político com um poder de iniciativa notável.” Relativizou ainda algumas propostas “populistas” do partido, que considerou naturais em quem se senta na oposição e ainda não foi testado na governação. O aviso foi dirigido a todos: “Se no fim de todo este período não for possível ao PSD, Chega e Iniciativa Liberal apresentarem um suporte mínimo para reformas importantes, todos eles sairão penalizados. A expectativa que as pessoas tinham era que houvesse um entendimento.” E acrescentou: “A minha preocupação não é o PSD. Gosto muito do PSD. É o meu partido. Mas a minha preocupação é com o país.”
Um regresso? “Ponderarei e tomarei uma iniciativa”
Questionado sobre um eventual regresso, Passos Coelho foi cauteloso, mas não o excluiu: “Se eu tivesse de equacionar um regresso à política ativa, tinha de corresponder à ideia de que tinha a obrigação e a possibilidade de fazer alguma coisa de diferente. Se isso se vier a colocar, se o PSD não vier a ser bem-sucedido, se não vier a entregar um resultado satisfatório, ponderarei e tomarei uma iniciativa.” Descreveu a ideia como pouco confortável: “Não é muito confortável a ideia de regressar. Estou de bem com a minha consciência. Não ando à procura de nenhum protagonismo especial. Se um dia voltar a equacionar voltar, será para oferecer alguma coisa que não seja mais do mesmo.” E afastou qualquer leitura de acerto de contas: “Não há nostalgia nenhuma. Não há nenhum ressentimento. Estou muito bem resolvido com a política e com os portugueses.” (Lusa)
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