A guerra no Irão começou no última dia de fevereiro e bastou uma semana para deixar marcas nos mercados financeiros — depois dos combustíveis, com uma subida extraordinária na próxima segunda-feira, uma das próximas vítimas pode ser a Euribor. Os dados da primeira semana de março mostram que a tendência de estabilização e ligeira descida das taxas foi interrompida. Nuno Rico, especialista da DECO PROteste, diz que os sinais são claros, embora ainda iniciais. “Aquela tendência de estabilização e até de ligeira diminuição das taxas que se estava a verificar nas últimas semanas inverteu-se. Estamos a ver agora uma subida, ainda que não muito significativa”, explica. A exceção é a Euribor a 12 meses, que está a mostrar uma subida mais visível. Já as taxas a 3 e 6 meses — que também influenciam milhares de contratos de crédito habitação em Portugal — estão a subir, mas de forma mais moderada.
O primeiro sinal nos números
Os dados da Euribor a 12 meses ilustram bem a mudança. A média final de fevereiro fixou-se em 2,221%, mas o valor diário já chegou a 2,323% nesta primeira semana. Ou seja, mais 0,1 pontos percentuais em poucos dias. A média provisória de março está atualmente em 2,281%, mas se a tendência continuar, o agravamento poderá ser mais expressivo até ao final do mês. “Se esta evolução se mantiver, podemos ter um agravamento claro das taxas, sobretudo na Euribor a 12 meses”, sublinha Nuno Rico.
O que pode acontecer à prestação da casa
Para perceber o impacto real nas famílias, a DECO PROteste fez, em exclusivo à ‘Executive Digest’, simulações com um cenário típico de crédito habitação caso se mantenha a tendência de agravamento já registada na primeira semana deste mês. Considerando um empréstimo de 150 mil euros a 30 anos, com spread de 1%, indexado à Euribor a seis meses — atualmente a mais utilizada em Portugal — a prestação fixada com a média de fevereiro (2,144%) situa-se em cerca de 644,11 euros por mês. Se a taxa subir para 2,5%, num cenário de agravamento de cerca de 0,4 pontos percentuais, a prestação passaria para 673,57 euros. Ou seja, quase mais 30 euros por mês.
O cenário mais pesado
No caso da Euribor a 12 meses, o impacto poderá ser ainda maior. Usando o mesmo exemplo de crédito: Prestação atual: 650,42€. Com Euribor a 2,721% (mais 0,5 pontos percentuais): 692,21€. Ou seja, mais de 40 euros de aumento mensal. “Estamos a falar de valores que ainda são projeções baseadas na evolução desta primeira semana”, explica Nuno Rico. “Mas se a tendência se mantiver ao longo do mês, estes aumentos podem tornar-se uma realidade para quem rever o crédito no próximo mês”.
Quem será afetado primeiro
Nem todos os mutuários sentirão o impacto de imediato. A revisão das prestações depende da média da Euribor no mês anterior à atualização do contrato. Assim, quem tiver revisão do crédito em abril, maio ou junho poderá ser o primeiro a sentir os efeitos da subida. “Quem tiver revisões das taxas nos próximos três meses poderá começar a sentir mais rapidamente o impacto da guerra”, explica o especialista.
BCE observa antes de agir
O próximo momento decisivo para os mercados será a reunião do Banco Central Europeu a 19 de março. Para já, a expectativa é de prudência. “Tudo indica que o BCE deverá manter uma posição cautelosa e esperar para perceber qual é o impacto real deste conflito nas economias”, explica Nuno Rico. Mas o cenário pode mudar rapidamente, se o conflito se prolongar para além de algumas semanas ou se alastrar a outros países do Médio Oriente, a inflação poderá voltar a subir — sobretudo através da energia. Nesse caso, o BCE poderá voltar a subir taxas já na reunião de abril. “Se a guerra se prolongar ou alastrar, é provável que o BCE tenha de reagir com subida das taxas de juro para travar a inflação”, admite.
DECO alerta para pressão nas Euribor
A Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) também já alertou para o risco de subida das taxas. “Para quem tem crédito à habitação, é expectável uma maior pressão sobre as taxas Euribor. Quem vai rever o crédito deverá esperar aumentos nos próximos tempos”, afirmou a especialista Magda Canas. A responsável sublinha que o impacto dependerá da duração do conflito e das decisões políticas que forem tomadas, mas considera que este é um momento em que os consumidores devem olhar com atenção para os seus contratos. “Este é um momento oportuno para analisar ao detalhe as condições do crédito e avaliar a possibilidade de renegociar”, afirma. Essa análise deve incluir sobretudo o spread, mas também outros custos associados ao empréstimo. Magda Canas recomenda ainda prudência. “Haverá inevitavelmente impacto nos mercados financeiros, mas os consumidores devem evitar decisões impulsivas”, alerta.
Tudo depende da duração da guerra
Para já, o impacto nas taxas Euribor resulta sobretudo de expectativas dos mercados. Mas a duração do conflito será decisiva. Se a guerra no Irão se resolver em poucas semanas, o efeito poderá ser temporário. Se se prolongar, poderá marcar o início de um novo ciclo de subida das taxas de juro. E isso voltaria a pesar diretamente na prestação da casa de milhares de famílias portuguesas (Executive Digest, texto do jornalista Francisco Laranjeira)



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