Fundo Monetário Internacional quer mais poupanças, simplificação e eficiência no sistema de pensões. Governo concordou em olhar para o assunto, "aprofundando estudos para eventuais novas reformas".mO plano do Governo para agregar 13 apoios sociais não contributivos – atualmente dispersos, como Rendimento Social de Inserção (RSI), Pensão Social de Velhice ou Pensão Social de Viuvez – numa única prestação (PSU ou Prestação Social Única) tem o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), que divulgou a avaliação anual ao país (Artigo IV), esta quarta-feira, 24 de junho. O diploma da PSU está em debate e aguarda votação no Parlamento esta quarta-feira, justamente.
Riccardo Ercoli, o diretor executivo do FMI responsável por Portugal, e David Taylor Pereira, conselheiro de Ercoli, escrevem na avaliação ao país no âmbito do Artigo IV que "a Prestação Social Única (PSU), recentemente proposta pelo Governo, deverá simplificar o acesso aos apoios sociais, reforçar os incentivos ao trabalho e proporcionar maior proteção às pessoas em situações de vulnerabilidade". Em conferência de imprensa com um grupo de jornalistas portugueses, Jean-François Dauphin, economista e chefe da missão do FMI para Portugal, reforçou a ideia: "Não é uma questão que tenhamos discutido em profundidade com as autoridades portuguesas, mas consideramos que a medida contribui para simplificar a burocracia e facilitar o acesso das famílias aos apoios sociais, pelo que vemos mérito na abordagem“.
A menção favorável na questão da PSU surge no preciso momento em que a
proposta está em debate no Parlamento e que, no pior dos casos para a ministra
da Segurança Social e Luís Montenegro, pode vir a ser chumbada se o Chega votar
contra a proposta do Governo PSD-CDS, como fez com a revisão do Código do
Trabalho, na semana passada.
FMI volta à carga no sistema de pensões
O FMI também quer (continua a querer) uma reforma mais abrangente da
Segurança Social e do sistema de pensões público, que considera estar em risco
"no médio e longo prazo". É algo em que o FMI insiste há anos.
"Na área da segurança social, apesar de resultados favoráveis no
curto prazo, persistem desafios de sustentabilidade no médio e longo
prazo", diz o diretor executivo do Fundo que segue Portugal.
"O ajustamento automático da idade legal de reforma em função da
evolução da esperança de vida e os mecanismos de amortecimento do Fundo de
Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) contribuem para mitigar os
riscos de sustentabilidade a longo prazo", mas, "ainda assim, são
necessários esforços adicionais para reforçar a sustentabilidade da segurança
social, nomeadamente através do reforço do FEFSS, da melhoria do cumprimento
por via da digitalização e de medidas de combate à fraude, bem como da
avaliação adicional da sustentabilidade do sistema de segurança social".
Por isso, diz o FMI, os diretores da instituição, reunidos em
Washington, "incentivaram a adoção de novas medidas de poupança para
atingir os objetivos de médio prazo, incluindo a redução das despesas fiscais,
o aumento da eficiência da despesa e a continuação da reforma do sistema de
pensões".
Pela sua parte, o Executivo de Luís Montenegro e da ministra que tutela as pensões, Rosário Palma Ramalho, concordou em olhar para o assunto. "No que respeita às pensões, o Governo considera que é necessário aprofundar estudos para fundamentar eventuais novas reformas", revela o FMI.
No estudo anual do Artigo IV, o Fundo refere ainda que "o Governo
está a dar prioridade ao reforço da sustentabilidade do sistema de segurança
social, preservando simultaneamente a sua adequação".
"Prevê-se que, até meados de 2026, seja apresentado um relatório
analítico elaborado por um grupo de trabalho de peritos criado pelo Governo,
que deverá servir de base às discussões de política pública", refere a
instituição.
E diz ainda que "o Governo está igualmente focado na promoção de
incentivos à poupança de médio e longo prazo para os cidadãos, através de
regimes complementares; na revisão do quadro de governação e de investimento do
Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), de modo a
melhorar o desempenho financeiro dos ativos das pensões; e no reforço da
literacia financeira e do planeamento para a reforma, através do Plano Nacional
de Formação Financeira, dirigido em particular aos trabalhadores mais
jovens".
Elogio ao Livro Verde
O antigo credor do país considera que "o Livro Verde de 2024 propôs
orientações para reformas" do sistema de pensões e que "a maioria das
recomendações deverá contribuir para melhorar o sistema de pensões".
O Livro Verde "foi elaborado pela Comissão para a Sustentabilidade
da Segurança Social, composta por um grupo de peritos, e apresenta 18
recomendações gerais destinadas a assegurar a sustentabilidade financeira,
melhorar a adequação das pensões, prevenir novos riscos e reforçar a confiança
no sistema de pensões", recomendações que "estão agora a ser
avaliadas pelo novo Governo", indica o FMI.
No entanto, o FMI foi estudar ele próprio o assunto e chegou a
conclusões. "Poderão ser consideradas opções adicionais de reforma para
melhorar a sustentabilidade, a eficiência e a equidade do sistema de
pensões".
Algumas dessas opções, "a avaliar posteriormente com base numa
análise rigorosa de custos", são:
- Limitar taxas de formação de direitos a apoios
- "Simplificar e, se necessário, reduzir a estrutura das taxas de formação de direitos. Atualmente, a taxa a que o direito à pensão aumenta por cada ano de contribuições diminui ligeiramente em função do rendimento individual, passando de 2,3% para 2%. Por razões de simplicidade, a taxa de formação de direitos deveria ser uniforme, uma vez que os objetivos distributivos podem ser alcançados de forma mais eficiente através de um Complemento Solidário para Idosos (CSI) bem direcionado. A taxa de formação de direitos poderá também ser reduzida, se necessário, para reforçar a sustentabilidade do sistema de pensões: a maioria dos sistemas públicos de pensões na Europa apresenta uma taxa inferior a 1,7%, e a taxa de substituição das pensões está entre as duas mais elevadas da União Europeia."
- Simplificar a fórmula de cálculo das pensões e sua atualização
O FMI também propõe uma maior "simplificação" do mecanismo de
indexação das pensões. "Atualmente, os aumentos das pensões variam em
função do crescimento real do PIB, do índice de preços no consumidor (IPC),
excluindo a habitação, e do nível atual da pensão em relação ao Indexante dos
Apoios Sociais (IAS), um valor de referência para o cálculo das prestações
sociais (Tabela 1). Esta fórmula pode conduzir a ajustamentos reais das pensões
imprevisíveis e indesejáveis, incluindo, em alguns casos, perdas significativas
de poder de compra. Deveria ser substituída por um mecanismo mais simples
baseado no IPC, à semelhança do que acontece em muitos outros países europeus.
O eventual aumento da despesa com pensões daí resultante deverá ser compensado
por uma redução das novas pensões atribuídas (por exemplo, através de taxas de
formação de direitos mais baixas, como referido acima), calibrada de modo a
assegurar a sustentabilidade orçamental do sistema de pensões."
Limitar o direito a pensões de sobrevivência
Reformar as pensões de sobrevivência ou por viuvez é outra das ideias que procedem de Washington. "Atualmente, indivíduos com 35 anos apenas já podem ter direito a prestações vitalícias de sobrevivência. Segundo o relatório de 2024 da UE sobre a adequação das pensões, a soma da pensão de velhice própria e da pensão de sobrevivência, em relação ao rendimento total conjunto antes do falecimento, está entre as mais elevadas da União Europeia, situando-se em cerca de 80%. A redução dos benefícios, o aumento da idade mínima de acesso ou a introdução de testes de rendimentos (como na Áustria e na Alemanha) poderão ajudar a diminuir os elevados custos das pensões de sobrevivência, que atualmente representam 1,9% do PIB, o terceiro valor mais alto na UE. O aumento da idade mínima de acesso poderá também incentivar a participação no mercado de trabalho", defende o Fundo (DN-Lisboa, texto do jornalista Luís Reis Ribeiro)

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