sexta-feira, agosto 29, 2025

Turismo já vale 16,6% do PIB em Portugal — mas pode estar a chegar ao limite?



Indicadores sinalizam que o peso do turismo na economia está em máximos históricos, mas estagnou em 2024. O risco é o sobreturismo, situação em que o turismo prejudica muito os recursos naturais, o ambiente social e a capacidade de resposta das infraestruturas e serviços do país, e que já se manifesta em alguns destinos turísticos europeus. Para Pedro Brinca, “as desvantagens estão associadas à falta de políticas que consigam minimizar os impactos negativos do turismo excessivo: congestionamento, degradação da experiência e por consequência da marca turismo em Portugal”. O turismo tem forte expressão em Portugal, e tem aumentado nos últimos anos, com a explosão do sector após a crise pandémica. Os indicadores sobre o peso do turismo na economia portuguesa estão em máximos históricos, mas estagnaram em 2024. Ainda há espaço para o turismo crescer e ganhar peso no país? Os especialistas consideram que sim, mas há riscos.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Consumo do Turismo no Território Económico (CTTE) — um dos principais indicadores sobre o peso do sector na economia — situou-se nos 16,6% do produto interno bruto(PIB) luso em 2024. É um máximo histórico, mas já tinha sido alcançado em 2023. O CTTE mede a procura turística, e cresceu 6,5% em termos nominais em 2024. Um valor aquém de 2022 e de 2023 e em linha com a subida nominal do PIB (6,4%), ficando o rácio inalterado.

No Valor Acrescentado Bruto direto gerado pelo Turismo (VABGT) — traduz a riqueza criada diretamente pelo sector — o padrão repete-se. Em 2024 cresceu 6,5%, ligeiramente acima do aumento de 6,2% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) total da economia portuguesa. Mas o crescimento do VABGT ficou muito abaixo de 2022 e de 2023, e o seu peso no VAB total luso manteve-se inalterado em 2024, nos 8,1%. É um máximo histórico, mas repetindo o patamar de 2023 e, também, de 2019, antes da crise pandémica.

Estes indicadores tinham em 2023 (últimos dados comparáveis) dos valores mais elevados entre os países europeus incluídos numa análise publicada pelo INE, no âmbito da Conta Satélite do Turismo. No caso do CTTE em percentagem do PIB, Portugal ficava à frente de Espanha (13,4%) e apenas atrás da Islândia (18,9%). No rácio entre o VABGT e o VAB total da economia, Portugal tinha a liderança da tabela.

A análise, contudo, abrange apenas alguns países europeus. Questionado pelo Expresso, o INE indica que foram incluídos “aqueles que apresentam informação mais recente”. Quanto ao Eurostat, a última análise (abrangendo países da UE e outros) é de 2023, com dados até 2019 ou 2020. O rácio entre o VAB gerado pelo turismo e o VAB total em Portugal era de 8,1%, face a uma média de 4,5% na UE. E era o segundo valor mais elevado do ranking, apenas atrás da Croácia (11,3%).

“O peso do turismo resulta das condições naturais de atração do território e da racional alocação de recursos em função do potencial do mercado e da rentabilidade dos investimentos”, diz Tiago Correia, economista do BPI. Para Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE, o forte peso do turismo “é mais um sintoma que uma doença”. E explica: “A doença está nos custos de contexto que tornam Portugal um país pouco atrativo para o crescimento dos outros sectores, ficando aqueles [como o turismo] em que as condições naturais nos dão uma vantagem”. Assim, “políticas económicas adequadas aproveitam a oportunidade do turismo, e providenciam o ambiente económico com os incentivos precisos para que os restantes sectores se desenvolvam”, defende.

O risco do sobreturismo

“Portugal tem um potencial (concretizado e por concretizar) imenso para o turismo”, diz Pedro Brinca. “O desafio é subir na cadeia de valor, numa altura em que começa a surgir alguma oposição política ao contínuo aumento dos fluxos turísticos”, destaca.

O risco é o sobreturismo, situação em que o turismo prejudica muito os recursos naturais, o ambiente social e a capacidade de resposta das infraestruturas e serviços do país. E que já se manifesta em alguns dos mais famosos destinos turísticos europeus. Mas Tiago Correia nota que há “países europeus com um peso maior do turismo no PIB, como Croácia, Malta e Grécia”. Para Pedro Brinca, “as desvantagens estão associadas à falta de políticas que consigam minimizar os impactos negativos do turismo excessivo: congestionamento, degradação da experiência e por consequência da marca turismo em Portugal”.

Outro risco associado ao forte peso do turismo ficou vincado na pandemia de covid-19. O sector praticamente ‘fechou portas’, levando a um forte tombo do PIB português. É um sector muito exposto a eventos excecionais, como catástrofes naturais, terrorismo, ou pandemias. Também as alterações climáticas são uma ameaça.

Já nas vantagens conta-se “ser uma atividade capaz de gerar muito emprego — embora muitas vezes sejam empregos não muito qualificados —, possibilitar o desenvolvimento de regiões fora do litoral e mais desertificadas, e atrair investimento estrangeiro”, diz Tiago Correia. E “promove pequenos negócios locais que beneficiam do maior fluxo de pessoas e incentiva a preservação dos monumentos e património”, acrescenta.

Subir na cadeia de valor

A subida na cadeia de valor do turismo em Portugal “tem sido feita. A oferta turística está longe da que caracterizava o país há 50 anos ou mesmo há 20 anos”, afirma Pedro Brinca. Mas “há muito ainda a fazer, em termos de diversificação geográfica e de estruturas de apoio que consigam potenciar ao máximo o valor acrescentado criado, minimizando os efeitos negativos”, salienta. “É possível e desejável que o sector evolua na cadeia de valor, permitindo reduzir os impactos negativos, aumentar a qualidade e o valor acrescentado da oferta”, acrescenta Tiago Correia.

Para o economista do BPI, o turismo em Portugal “tem espaço para crescer. Por exemplo, através da redução da sazonalidade, da diversificação territorial (que tem estado a acontecer), e da atração de uma procura mais exigente e sofisticada”. E destaca: “Os dados indicam que o sector está a ser capaz de se colocar numa escala de valor mais elevada, já que os proveitos estão a crescer acima das dormidas/hóspedes, e estão a crescer mais em hotéis de quatro e cinco estrelas”.

“Diversificação geográfica e subir na cadeia de valor são imperativos para proteger a nossa reputação enquanto destino turístico, e fugirmos à perda de competitividade nos custos, consequente da subida real dos salários, quando comparada com outros destinos”, diz Pedro Brinca.

Os representantes do sector também acreditam que o turismo em Portugal tem margem para crescer, sobretudo no Alentejo, Norte, e interior do país, numa lógica de sustentabilidade, diversificação e descentralização. “O crescimento deverá assentar na aposta no long hall [turismo de longa distância], diversificação da oferta e dos mercados emissores, e na melhoria contínua da experiência turística”, frisa Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo. Já Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé, sublinha a necessidade de “melhorar os fluxos e os transportes nas cidades, e criar polos de atração em zonas distintas das cidades” como forma de aliviar a pressão sobre os centros urbanos de Lisboa e Porto.

Para lá do reforço da promoção internacional e da aposta nos mercados longínquos, Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal, acredita que é essencial usar inteligência artificial e dados para monitorizar o impacto do turismo na relação com a comunidade. “Crescer por crescer não nos interessa”, afirma (Expresso, texto da jornalista Sónia M. Lourenço com Juliana Simões)

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