Indicadores sinalizam que o peso do turismo na
economia está em máximos históricos, mas estagnou em 2024. O risco é o
sobreturismo, situação em que o turismo prejudica muito os recursos naturais, o
ambiente social e a capacidade de resposta das infraestruturas e serviços do
país, e que já se manifesta em alguns destinos turísticos europeus. Para Pedro
Brinca, “as desvantagens estão associadas à falta de políticas que consigam
minimizar os impactos negativos do turismo excessivo: congestionamento, degradação
da experiência e por consequência da marca turismo em Portugal”. O turismo tem
forte expressão em Portugal, e tem aumentado nos últimos anos, com a explosão
do sector após a crise pandémica. Os indicadores sobre o peso do turismo na
economia portuguesa estão em máximos históricos, mas estagnaram em 2024. Ainda
há espaço para o turismo crescer e ganhar peso no país? Os especialistas
consideram que sim, mas há riscos.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE),
o Consumo do Turismo no Território Económico (CTTE) — um dos principais
indicadores sobre o peso do sector na economia — situou-se nos 16,6% do produto
interno bruto(PIB) luso em 2024. É um máximo histórico, mas já tinha sido
alcançado em 2023. O CTTE mede a procura turística, e cresceu 6,5% em termos
nominais em 2024. Um valor aquém de 2022 e de 2023 e em linha com a subida
nominal do PIB (6,4%), ficando o rácio inalterado.
No Valor Acrescentado Bruto direto gerado pelo
Turismo (VABGT) — traduz a riqueza criada diretamente pelo sector — o padrão
repete-se. Em 2024 cresceu 6,5%, ligeiramente acima do aumento de 6,2% do Valor
Acrescentado Bruto (VAB) total da economia portuguesa. Mas o crescimento do
VABGT ficou muito abaixo de 2022 e de 2023, e o seu peso no VAB total luso
manteve-se inalterado em 2024, nos 8,1%. É um máximo histórico, mas repetindo o
patamar de 2023 e, também, de 2019, antes da crise pandémica.
Estes indicadores tinham em 2023 (últimos dados comparáveis) dos valores mais elevados entre os países europeus incluídos numa análise publicada pelo INE, no âmbito da Conta Satélite do Turismo. No caso do CTTE em percentagem do PIB, Portugal ficava à frente de Espanha (13,4%) e apenas atrás da Islândia (18,9%). No rácio entre o VABGT e o VAB total da economia, Portugal tinha a liderança da tabela.
A análise, contudo, abrange apenas alguns países
europeus. Questionado pelo Expresso, o INE indica que foram incluídos “aqueles
que apresentam informação mais recente”. Quanto ao Eurostat, a última análise
(abrangendo países da UE e outros) é de 2023, com dados até 2019 ou 2020. O
rácio entre o VAB gerado pelo turismo e o VAB total em Portugal era de 8,1%,
face a uma média de 4,5% na UE. E era o segundo valor mais elevado do ranking,
apenas atrás da Croácia (11,3%).
“O peso do turismo resulta das condições naturais
de atração do território e da racional alocação de recursos em função do
potencial do mercado e da rentabilidade dos investimentos”, diz Tiago Correia,
economista do BPI. Para Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE, o
forte peso do turismo “é mais um sintoma que uma doença”. E explica: “A doença
está nos custos de contexto que tornam Portugal um país pouco atrativo para o
crescimento dos outros sectores, ficando aqueles [como o turismo] em que as condições
naturais nos dão uma vantagem”. Assim, “políticas económicas adequadas
aproveitam a oportunidade do turismo, e providenciam o ambiente económico com
os incentivos precisos para que os restantes sectores se desenvolvam”, defende.
O risco do sobreturismo
“Portugal tem um potencial (concretizado e por
concretizar) imenso para o turismo”, diz Pedro Brinca. “O desafio é subir na
cadeia de valor, numa altura em que começa a surgir alguma oposição política ao
contínuo aumento dos fluxos turísticos”, destaca.
O risco é o sobreturismo, situação em que o
turismo prejudica muito os recursos naturais, o ambiente social e a capacidade
de resposta das infraestruturas e serviços do país. E que já se manifesta em
alguns dos mais famosos destinos turísticos europeus. Mas Tiago Correia nota
que há “países europeus com um peso maior do turismo no PIB, como Croácia,
Malta e Grécia”. Para Pedro Brinca, “as desvantagens estão associadas à falta
de políticas que consigam minimizar os impactos negativos do turismo excessivo:
congestionamento, degradação da experiência e por consequência da marca turismo
em Portugal”.
Outro risco associado ao forte peso do turismo
ficou vincado na pandemia de covid-19. O sector praticamente ‘fechou portas’,
levando a um forte tombo do PIB português. É um sector muito exposto a eventos
excecionais, como catástrofes naturais, terrorismo, ou pandemias. Também as
alterações climáticas são uma ameaça.
Já nas vantagens conta-se “ser uma atividade capaz
de gerar muito emprego — embora muitas vezes sejam empregos não muito
qualificados —, possibilitar o desenvolvimento de regiões fora do litoral e
mais desertificadas, e atrair investimento estrangeiro”, diz Tiago Correia. E
“promove pequenos negócios locais que beneficiam do maior fluxo de pessoas e
incentiva a preservação dos monumentos e património”, acrescenta.
Subir na cadeia de valor
A subida na cadeia de valor do turismo em Portugal
“tem sido feita. A oferta turística está longe da que caracterizava o país há
50 anos ou mesmo há 20 anos”, afirma Pedro Brinca. Mas “há muito ainda a fazer,
em termos de diversificação geográfica e de estruturas de apoio que consigam
potenciar ao máximo o valor acrescentado criado, minimizando os efeitos
negativos”, salienta. “É possível e desejável que o sector evolua na cadeia de
valor, permitindo reduzir os impactos negativos, aumentar a qualidade e o valor
acrescentado da oferta”, acrescenta Tiago Correia.
Para o economista do BPI, o turismo em Portugal
“tem espaço para crescer. Por exemplo, através da redução da sazonalidade, da
diversificação territorial (que tem estado a acontecer), e da atração de uma
procura mais exigente e sofisticada”. E destaca: “Os dados indicam que o sector
está a ser capaz de se colocar numa escala de valor mais elevada, já que os
proveitos estão a crescer acima das dormidas/hóspedes, e estão a crescer mais
em hotéis de quatro e cinco estrelas”.
“Diversificação geográfica e subir na cadeia de
valor são imperativos para proteger a nossa reputação enquanto destino
turístico, e fugirmos à perda de competitividade nos custos, consequente da
subida real dos salários, quando comparada com outros destinos”, diz Pedro
Brinca.
Os representantes do sector também acreditam que o
turismo em Portugal tem margem para crescer, sobretudo no Alentejo, Norte, e
interior do país, numa lógica de sustentabilidade, diversificação e
descentralização. “O crescimento deverá assentar na aposta no long hall
[turismo de longa distância], diversificação da oferta e dos mercados
emissores, e na melhoria contínua da experiência turística”, frisa Pedro Costa
Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e
Turismo. Já Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé,
sublinha a necessidade de “melhorar os fluxos e os transportes nas cidades, e
criar polos de atração em zonas distintas das cidades” como forma de aliviar a
pressão sobre os centros urbanos de Lisboa e Porto.
Para lá do reforço da promoção internacional e da aposta nos mercados longínquos, Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal, acredita que é essencial usar inteligência artificial e dados para monitorizar o impacto do turismo na relação com a comunidade. “Crescer por crescer não nos interessa”, afirma (Expresso, texto da jornalista Sónia M. Lourenço com Juliana Simões)
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