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sábado, agosto 20, 2022

"Não podemos olhar para isto de braços cruzados": 1 em cada 4 juízes portugueses acha que um dos seus pares foi corrompido nos últimos três anos


O presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses (ASJP) considera “preocupantes” os dados de um estudo sobre a independência dos magistrados e exige uma resposta do Conselho Superior da Magistratura (CSM) à perceção de corrupção na justiça. “Não podemos ter um conjunto significativo de juízes a considerar que existem problemas de corrupção judicial sem fazermos aquilo que é suposto: tomarmos medidas - seja no plano preventivo, seja no plano repressivo – para contrariar esta perceção, se ela tiver contacto com a realidade. Nesta parte, é importante que haja uma intervenção imediata dos conselhos superiores”, disse Manuel Soares à Lusa. Segundo o inquérito da Rede Europeia de Conselhos de Justiça, que contou com as respostas de 15.821 juízes de 27 países, 26% dos 494 magistrados judiciais portugueses inquiridos disseram acreditar que durante os últimos três anos houve juízes a aceitar, a título individual, subornos ou a envolverem-se em outras formas de corrupção. Neste aspeto, Portugal ficou apenas atrás de Itália (36%) e Croácia (30%), igualando a percentagem da Lituânia (26%).

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Quanto pode ganhar um advogado?

As remunerações vão desde o zero até aos 160 mil euros anuais pagos ao diretor jurídico de uma grande empresa. Aqui comparamos os máximos pagos nas duas principais cidades do país (Jornal Económico, Mário Malhão)

OCDE: portugueses entre os que menos confiam na justiça e nos tribunais

Dados dizem respeito ao ano de 2016 e revelam os níveis de confiança dos países da OCDE no sistema de justiça e nos tribunais (Jornal Económico, Mário Malhão)

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Marinho e Pinto diz que nem Salazar governamentalizou tanto as ordens profissionais

O Bastonário dos Advogados vai convocar um Congresso extraordinário da Ordem para Junho. Marinho e Pinto está contra a nova lei que regula as ordens profissionais e ameaça mesmo abandonar o cargo (veja aqui o video da RTP)

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Maestro condenado por gastar dinheiros públicos com viagens, charutos e lingerie...

Escreve a jornalista do Jornal I, Sílvia Caneco, que "Graça Moura foi condenado a cinco anos de prisão, com pena suspensa. Terá ainda de pagar 690 mil euros à AMEC e 30 mil à câmara. Viagens com destino à Tailândia, Argentina ou Singapura, roupa interior – para homem e mulher –, passeios de balão, jóias, vestidos, aparelhagens, camisas de seda e charutos cubanos, uma revista "Playboy" ou um frigorífico comprado numa loja da Tailândia. Tudo pago pelo maestro Miguel Graça Moura com os cartões de débito e crédito da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), entidade que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa. As compras feitas entre 1996 e 2002 com dinheiros públicos levaram ontem as Varas Criminais de Lisboa a condenar o maestro a cinco anos de prisão, com pena suspensa, por crimes de peculato (uso de dinheiros públicos para fins privados) e de falsificação de documentos. Miguel Graça Moura, que presidiu à AMEC até 2003 terá ainda de pagar 690 mil euros à associação e 30 mil euros à Câmara Municipal de Lisboa. Caso não pague 200 mil euros à AMEC e 10 mil euros à autarquia no prazo de um ano, será detido para cumprir pena de prisão efectiva. O advogado de defesa de Graça Moura anunciou que vai recorrer para a Relação de Lisboa e refutou a acusação de mau uso de dinheiros públicos, alegando que o maestro "não era um funcionário público" e seria "dever do conselho fiscal questionar as verbas" que gastou em seis anos. A juíza presidente sublinhou que Graça Moura "usou dinheiros públicos com desproporcionalidade", numa "conduta reprovável", e quis deixar claro que o colectivo hesitou em dar pena suspensa devido aos danos causados e por o maestro não ter mostrado arrependimento pela sua conduta. Miguel Graça Moura presidiu à Associação Música, Educação e Cultura entre 1992 e 2003, data em que foi afastado do cargo após uma auditoria da Câmara de Lisboa à gestão do maestro revelar indícios de gestão danosa. Em Janeiro de 2011, o músico acabou acusado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa de gastar 720 mil euros do erário público, ao apropriar-se indevidamente de bens e quantias monetárias da AMEC, não fazendo distinção entre despesas pessoais e despesas da associação e utilizando indiscriminadamente os cartões de débito e crédito "para satisfação de necessidades meramente pessoais".Segundo a acusação, Graça Moura terá gasto 214 377 euros só em viagens, muitas delas em primeira classe; mais de 80 mil euros em almoços e jantares; 52 mil euros em livros e mais de 240 mil euros em artigos tão diversos como obras de arte, aparelhagens, vinhos ou charutos. O maestro foi ainda indiciado por falsificação de documento, tendo usado um um falso contrato de prestação de serviços para ocultar do fisco cerca de 200 mil euros de remunerações salariais. Numa das últimas sessões de julgamento, em Novembro, Graça Moura explicou não ter posses para devolver os 720 mil euros gastos em despesas pessoais. "Saí da instituição pior do que entrei. Com a minha carreira destruída, sem a mínima fortuna, a viver numa casa emprestada e a deslocar-me num carro emprestado. Se fiz peculato, sou o mais estúpido dos burlões."

Discurso do Bastonário A. Marinho e Pinto na Abertura do Ano Judicial 2013

"Este é o último ano em que, em representação dos advogados portugueses, discurso nesta cerimónia.Uma cerimónia que, formalmente, é organizada em conjunto por este tribunal, pela Procuradoria-Geral da República e pela Ordem dos Advogados a que presido. Este é, pois, um local comum às três principais profissões forenses.
Este Supremo Tribunal de Justiça é, pelo menos neste dia, a verdadeira Casa da Justiça portuguesa. Por isso ele é o local próprio para os balanços que cada orador entenda fazer; é o local adequado para, em nome daqueles que representamos, analisar os principais problemas da justiça e do país. Aqui estão, formalmente convidados, em conjunto pelo Sr. presidente do STJ, pela Sra. PGR e por mim próprio, as mais altas figuras do estado, com destaque para V. Exas. Senhor Presidente da República e Senhora Presidente da Assembleia da República, bem como membros do Governo, representantes dos grupos parlamentares e das forças armadas, dos demais tribunais, e da Igreja Católica, entre outras entidades.
Defendi, em tempos, que os organizadores desta cerimónia deveriam, no final do ano parlamentar, ir à Assembleia da República informar os representantes democráticos do povo português sobre como foi, em geral, administrada a justiça nesse ano.
Defendi e continuo a defender essa iniciativa pois entendo que, quanto mais transparentemente se relacionarem entre si os titulares dos poderes do estado democrático menos o farão às ocultas.
Quanto mais transparente for a interdependência entre esses poderes mais nítida será a separação entre eles, maior será a independência de cada um deles e, consequentemente, melhor se cumprirá o espírito e a letra do artigo 2º da Constituição da República Portuguesa.Juízes, Procuradores e Advogados todos pertencemos à mesma família e todos trabalhamos na mesma casa, em prol do mesmo objectivo que é a justiça.
Por isso, estamos condenados a entendermo-nos – quer queiramos quer não – em benefício ou por imposição dos direitos e dos interesses legítimos dos cidadãos e do próprio estado de direito.
Sendo este alto tribunal, pelo menos hoje, a Casa da Justiça, ele é o local próprio para em nome da Ordem a que presido e em representação dos Advogados portugueses aqui exprimir as nossas preocupações sobre o estado de direito, sobre a democracia, sobre a administração da justiça. Este é, pois, o local próprio para denunciar;
- o populismo da política do governo em matéria de justiça;
- para denunciar a utilização por parte do executivo dos órgãos de informação para fanatizar as consciências dos cidadãos;
- para denunciar o sistemático recurso à propaganda em vez de informação rigorosa sobre os assuntos de interesse colectivo;
- para denunciar a alteração das leis essenciais ao funcionamento da justiça com a finalidade de conquistar popularidade fácil.
- Este tribunal é o local adequado para denunciar a insensibilidade deste governo em relação aos problemas dos portugueses;
- a insensibilidade de pessoas que chegaram ao poder prometendo nunca fazer aquilo que hoje fazem com calculismo e frieza;
- de pessoas que derrubaram o governo anterior por ele pretender aplicar medidas de austeridade infinitamente mais leves do que as que o actual governo agora aplica com gélida determinação e, até, com prazer ideológico;
- em suma: de pessoas que tudo fizeram (incluindo a criação artificial de uma crise política) para obrigar Portugal a pedir a intervenção da TROIKA, pois, sempre souberam que só com essa intervenção poderiam realizar a sua oculta agenda ideológica que passa pela aniquilação dos direitos de quem vive só do seu trabalho, que passa pela destruição do estado social, que passa por um ajuste de contas com os valores e conquistas mais emblemáticos da revolução do 25 de Abril e pela reinstauração de um modelo de organização económica que, verdadeiramente, apenas triunfou nos primórdios do século XIX ou então em algumas das piores ditaduras do século XX.
Este é, pois, o local certo para, recuperando um ideia central do programa do presidente americano Barak Obama, dizer ao governo português que a existência do estado social não faz de Portugal uma nação de pessoas dependentes, mas antes nos liberta a todos – repito: a todos - para melhor executarmos as tarefas que farão este país trilhar as veredas do progresso e do desenvolvimento e proporcionarão um futuro melhor para os nossos filhos. E, sobretudo, para advertir solenemente o governo de que não tente convencer-nos de que temos de escolher entre apoiar os idosos ou os jovens; de que temos de escolher entre apoiar aqueles que, durante décadas, com o seu trabalho, com os seus impostos, taxas e contribuições, sustentaram este país ou os cidadãos mais jovens a quem entregaremos o futuro de Portugal.
Todos temos direito aos benefícios do progresso e do desenvolvimento.
Nós, a população activa, temos uma dívida de gratidão para com os idosos deste país. Foram eles, os que hoje estão reformados e aposentados, que pagaram as escolas onde estudámos gratuitamente, os hospitais onde nos tratámos sem taxas moderadoras; foram eles que pagaram as maternidades onde nasceram sem qualquer custo para as famílias alguns dos que agora os consideram apenas como um custo económico que é preciso reduzir ou eliminar.
O governo português tem de respeitar os pactos que os reformados e os aposentados celebraram com o estado e com a segurança social quando eram trabalhadores activos e garantir-lhes um fim de vida com dignidade.
Isso é não só uma exigência do princípio da protecção da confiança, mas também um critério de aferição de seriedade que ninguém tem o direito de violar – é também uma questão de honradez.
Este tribunal é, pelo menos hoje, o local apropriado para denunciar a fraude em que se consubstanciam certas pretensas formas de justiça. A justiça faz-se nos tribunais com juízes e advogados independentes e com procuradores e não em centros de mediação, ou julgados de paz. O estado tem a obrigação de resolver com justiça os litígios entre os cidadãos e não obrigá-los a fazerem as pazes. O estado gasta quantias vultuosíssimas em instâncias alternativas que, se aplicados nos tribunais proporcionariam uma justiça muito melhor à cidadania e à economia – ao país e aos cidadãos. O estado tem a obrigação de resolver soberanamente os litígios entre empresas e não remetê-las para essa gigantesca farsa que são os chamados tribunais arbitrais, que em muitos casos não passam de meros instrumentos para legitimar verdadeiros actos de corrupção.
Façamos, a este propósito, um breve desenho para os mais distraídos: por detrás de qualquer acto de corrupção está um acordo entre corrupto e corruptor mediante o qual o primeiro adquire para o estado bens ou serviços ou adjudica obras a um preço muito superior ao seu preço real, repartindo depois essa diferença entre ambos e, nalguns casos, também com terceiros, nomeadamente com o partido a que pertence o decisor corrupto.
Normalmente o acto que materializa esse acordo entre corrupto e corruptor assume a forma jurídica de um contrato publico-privado em que as partes são o estado (ou alguns dos seus órgãos) e a empresa ou instituição privada representada pelo corruptor. Para que o propósito atinja os fins delineados sem qualquer problema para os seus autores, basta apenas que esse contrato inclua uma cláusula mediante a qual as partes recorrerão obrigatoriamente a um tribunal arbitral para resolver qualquer litígio dele emergente. Depois, finge-se uma divergência ou outro pretexto qualquer como um atraso no pagamento do inflacionado preço para que o caso vá parar ao dito tribunal. Imagine-se, agora, qual será a decisão desse tribunal. Qual será a decisão de um tribunal em que os juízes foram substituídos por advogados escolhidos e pagos – principescamente, aliás - pelo corrupto e pelo corruptor. É óbvio que proferirá a sentença pretendida por ambos e obrigará o estado ao cumprimento integral da prestação que o corrupto e o corruptor haviam acordado entre si.
O recurso ao tribunal arbitral previne também a hipótese de o decisor corrupto ser substituído no cargo por outra pessoa alheia ao negócio. É, sobretudo, para isso que se tem vindo a generalizar o recurso aos tribunais arbitrais na esmagadora maioria dos negócios do estado. Agora, praticamente todos os contratos público-privados contêm uma cláusula mediante a qual se estabelece que o tribunal competente para dirimir qualquer litígio deles emergente será um tribunal arbitral, pois não podem correr o risco de o caso poder ir parar a um tribunal independente e ser apreciado por um juiz independente. Nada tenho contra os tribunais arbitrais quando, em processos cujo objecto é disponível, eles são escolhidos por entidades privadas.Até reconheço que eles podem ter alguma utilidade entre entidades privadas com idêntica capacidade económica. Mas temos de reconhecer que eles favorecem sempre quem tem mais dinheiro – quem tem mais dinheiro para pagar – reparem bem! – os honorários dos juízes.
Não aceito é que o estado fuja dos seus próprios tribunais e procure as arbitragens, onde, sintomaticamente, é sempre condenado. É um tipo de justiça às escondidas, quase clandestina, usada para legitimar verdadeiros assaltos ao património público, obviamente com a conivência de quem tinha por missão defender esse património.Por isso é escandaloso que o estado recorra a esses pseudo-tribunais. Tal só se compreende como uma forma encapotada de prejudicar o próprio estado.
Mas, chegou-se a uma situação em que até os impostos estão a ser discutidos nas arbitragens, o que - diga-se em abono da verdade – se deve a uma lei do anterior governo, mas que o actual acarinha com especial ternura. Ou seja: aquilo que não está na disponibilidade do estado – a cobrança dos impostos – passou a poder ser discutido e decidido num tribunal privado em que os juízes são nomeados e pagos pelas partes, incluindo o próprio contribuinte devedor. Obviamente, não foi para protecção dos pequenos e médios contribuintes (algumas vezes vítimas de verdadeiros assaltos do fisco) que se instituiu essa medida, mas sim para legitimação da evasão fiscal dos grandes contribuintes, pois só estes têm dívidas fiscais em montantes que justificam o recurso a esse tipo de justiça. E, muito provavelmente, a fórmula decisória não anda muito longe deste paradigma: «deves mil, pagas duzentos ou trezentos e o resto será dividido por nós todos, incluindo, obviamente, os juízes».
Tudo bem resguardado do escrutínio público, como convém, e com base num emaranhado de leis fiscais que parecem feitas para impedir a cobrança efectiva de impostos. O escândalo chegou a tal ponto que este governo até já tornou os tribunais arbitrais obrigatórios para certos tipos de litígios, ou seja, até já proibiu empresas privadas de recorrerem aos órgãos de soberania que são os tribunais públicos. É o que acontece com os litígios entre as empresas titulares das patentes dos medicamentos e as que procedem ao fabrico de genéricos. E tudo isso acontece num país onde é público e notório que certos membros do governo têm interesses profissionais directos no grande negócio das arbitragens em Portugal. E tudo isto com um governo cuja propaganda tenta fazer crer que tem uma vontade firme de combater a corrupção, mas, curiosamente, só faz através de leis grosseiramente inconstitucionais.
Este é também o local próprio para dizer bem alto que vivemos num país onde os cidadãos não podem confiar nas leis da República. A certeza jurídica da norma geral, abstracta e objectiva capitulou perante a arbitrariedade da decisão judicial e, por isso, ninguém pode antecipar ou prever com segurança a solução de um qualquer problema jurídico levado a um tribunal.
Os mesmos factos com a mesma lei dão origem a decisões, muitas vezes, totalmente opostas. Ninguém pode prever a decisão final de um processo, porque, apesar de a lei ser a mesma e os factos também, essa decisão, frequentemente, varia de juiz para juiz. E como a história abundantemente nos mostra a justiça e o direito podem muito facilmente ser transformados em instrumentos de terror.
Infelizmente, há decisões judiciais que constituem verdadeiros actos de um estado terrorista.
Quando um juiz de direito emite um mandado de busca em branco quanto ao seu objecto, ou seja, uma ordem para apreender todos os documentos e objectos que se encontrem no escritório de um advogado e que possam constituir provas contra os seus clientes, incluindo os computadores pessoais e profissionais do advogado, isso é um acto de terrorismo de estado. Por isso, este é também o local adequado para daqui lançar uma solene advertência aos Advogados portugueses: retirem dos vossos escritórios quaisquer documentos ou objectos que possam incriminar os vossos clientes, pois correm o risco de um juiz ir lá apreendê-los para os entregar à acusação. Para alguns juízes, o escritório de um advogado não goza, hoje, em Portugal, da imunidade que deveria ter. Chegámos a um ponto da nossa vida colectiva em que os Advogados terão de recorrer aos velhos métodos com que outrora contornavam as perseguições das polícias da ditadura.
Este é, também por isso, o lugar certo para proclamar a minha solidariedade para com todos os advogados que têm sido vítimas de atropelos judiciais às suas prerrogativas profissionais, designadamente, devido ao seu empenho na defesa dos direitos e dos interesses legítimos dos seus constituintes.
Uma palavra de solidariedade que quero enviar, também, aos advogados que têm sido vítimas de verdadeiras agressões à sua honra pessoal e profissional por parte do actual governo. Refiro-me, naturalmente, aos Colegas que intervêm no âmbito do sistema de apoio judiciário e que, por essa via, prestam um inestimável serviço ao estado de direito, permitindo que os cidadãos mais pobres possam aceder à justiça e aos tribunais com um mínimo de qualidade e de dignidade. Em vez de reconhecer o papel desses advogados na consolidação do estado de direito; em vez de lhes pagar atempadamente os parcos honorários que a lei estabelece; em vez dignificar esse serviço como essencial ao fortalecimento da cidadania, o governo português – o actual governo – lança, publicamente, sobre eles as mais pérfidas suspeitas. O governo não só se atrasa escandalosamente no pagamento dos seus diminutos honorários como lança sobre eles uma campanha pública de enxovalho, tentando fazer crer que todos eles cometem fraudes.
O estado português é de todos os da Europa ocidental o que menos gasta com cada processo no âmbito do apoio judiciário. Atente-se que Portugal gasta por processo dez vezes menos do que gasta o Reino Unido. Mas mesmo assim, o governo chegou ao ponto de participar criminalmente contra muitos advogados por supostas irregularidades em que os prejudicados são os próprios advogados.Pasme-se: muitos advogados foram alvo de participações criminais, com base em irregularidades que consistiram em declarar menos diligências processuais do que as que realmente tinham sido realizadas e, como tal, recebendo menos honorários do que aqueles a que tinham legalmente direito. Mas, num país onde alguns órgãos de comunicação social não escrutinam a informação que lhes mandam e se limitam a transformar em verdades todas as falsidades que lhes chegam às mãos, esses métodos têm sucesso político e mediático garantido.
Sempre disse e repito-o mais uma vez aqui: o Advogado é um profissional profundamente vinculado ao direito e aos princípios éticos e deontológicos da sua profissão. Ele ajuda o suspeito ou mesmo o autor de um crime a defender-se em juízo mas não o pode auxiliar a cometer um crime e muito menos o pode cometer em nome do seu constituinte. Quando isso acontece o advogado deve ser punido com mais severidade do que aqueles em benefício de quem actuou. E a Ordem dos Advogados está empenhada no reforço do prestígio e da dignidade social da advocacia.
Há dois mil anos, na Palestina, um homem inocente foi condenado à morte por uma multidão de pessoas fanatizadas. Antes foi preso, interrogado, torturado, humilhado e julgado diante da turba de justiceiros que ululava pela sua condenação. O julgamento, a sentença e a sua execução foram rápidas e exemplares.Não houve, como agora se diz, manobras dilatórias, nem excesso de garantismo, nem outros expedientes que atrasassem ou dificultassem a justiça que todos queriam. Tudo aí se processou segundo um modelo que foi usado durante séculos e que alguns quererem hoje recuperar. E se aqui, hoje, invoco, esse julgamento não é pelo facto de o arguido estar inocente, pois sempre houve e haverá inocentes condenados. Não é pelo facto de, em troca da sua condenação, um criminoso ter sido libertado, pois sempre houve e sempre haverá culpados que escapam à justiça; e sempre que um inocente é condenado há um culpado que fica impune. Também não é pela brutalidade da condenação, pois essas sentenças sempre foram as preferidas das multidões e dos justiceiros. Não é também pela convicção dos julgadores sobre a culpabilidade do acusado, pois as turbas são sempre irracionais e só têm certezas. Não é sequer pela tortura e pela humilhação pública do acusado, pois essas práticas também continuaram a existir durante séculos e continuam hoje em alguns estados modernos que se dizem democráticos e de direito, como o nosso. O que ainda hoje me arrepia naquele julgamento é o facto de não ter havido ninguém que erguesse a sua voz em defesa do acusado. De não ter havido ninguém que invocasse uma atenuante - pequena que fosse - para amenizar um pouco a brutalidade da sentença que se anunciava.O arguido foi preso, interrogado, julgado e condenado em processo sumário, sem qualquer defesa.
Ali estava ele, sozinho, perante uma multidão de acusadores embriagados com as suas próprias certezas e ululando pela rápida execução de uma sentença que eles próprios proferiram, enquanto o juiz, que até tinha dúvidas sobre a sua culpa, acabou lavando, cobardemente, as mãos, para não prejudicar a sua imagem pública. Ninguém foi capaz de um só gesto em defesa daquele homem; até aos seus amigos mais próximos faltou a coragem para uma simples palavra de conforto e de solidariedade. Se aqui invoco esse terrível episódio é porque também há, hoje, em Portugal, quem sobreponha a rapidez do julgamento à ponderação da justiça; quem queira que crimes graves sejam julgados em processo sumário. Se invoco, aqui, esse julgamento é porque, hoje, em Portugal está a tentar criar-se um ambiente um ambiente político e social que impede os acusados de exercerem os seus direitos de defesa – que iniba outras pessoas, incluindo os advogados, de os defenderem. Alguns acusados são, hoje, enxovalhados na praça pública sem qualquer possibilidade de defesa.
A multidão de há dois mil anos foi hoje substituída por uma turba mediática onde se destacam, magistrados, polícias, jornalistas e os justiceiros que enchem as caixas de comentários on-line. Simples suspeitos são condenados sem apelo nem agravo nos modernos pelourinhos em que se transformaram certos órgãos de comunicação social, sem que sobre eles tenha sido emitido qualquer veredicto formal de culpabilidade. Políticos sequiosos de popularidade fácil, jornalistas moralmente corrompidos, polícias fundamentalistas, magistrados indignos da sua função – todos convergem para gerar o ambiente social que exige sempre penas mais pesadas, medidas de coacção mais duras e, sobretudo, para criar as condições de coacção psico-social propícias a que só se ouça ou se acredite na versão dos acusadores. Todos se unem na tentativa de fazer gerar na opinião pública a ideia de que sãos os direitos dos cidadãos que estão a mais no nosso sistema judicial; que é o exercício processual desses direitos que entrava o funcionamento da nossa justiça. O uso dos mais elementares direitos de defesa é apontado por eles como a causa dos principais males da justiça portuguesa.
Os Advogados, aqueles que detêm a missão constitucional de defender em juízo os direitos das pessoas, são desqualificados no discurso oficial deste governo e desvalorizados nos nossos tribunais. Eles são, por vezes, anatematizados e, até, silenciados nas salas de audiências dos tribunais por pequenos ditadores travestidos de magistrados. Se o recurso de um cidadão contra uma decisão judicial que o prejudica tem de ser feito em alguns dias, pois senão perde-se o direito de recorrer dessa decisão, e se a apreciação desse recurso demora muitos meses ou anos – o que faz o governo e a Assembleia da República às suas ordens para corrigir esse atraso? Acaba com o direito de recurso ou restringe-o gravemente, em vez de criar condições para que os magistrados os decidam mais depressa. Esta é a metodologia que este governo e a maioria parlamentar que o apoia estão seguir em matéria de justiça. Quem é fraco com os fortes acaba sempre sendo forte com os fracos.
O actual governo está, hoje, a tentar introduzir na investigação criminal os mesmos métodos que tão bons resultados deram na caça às bruxas da idade média ou na perseguição dos opositores por parte dos regimes totalitários. Em breve, a confissão será a prova rainha do processo penal e tudo valerá para a obter. Em breve, a prisão preventiva deixará de ser usada como medida cautelar a passará a sê-lo como forma de obrigar os suspeitos a colaborarem com os investigadores na sua própria incriminação. Contra tudo isso, contra essa subcultura que desqualifica o papel do advogado na administração da justiça, daqui ergo a minha voz. Daqui denuncio também o populismo primário subjacente ao discurso das «manobras dilatórias» e do «excesso de garantismo» com que este governo e seus seguidores na comunicação social e nos tribunais têm vindo a intoxicar a opinião pública.
Não há excesso de garantias nas nossas leis.
O que há são demasiadas violações dos direitos dos cidadãos – dos direitos humanos - em alguns interrogatórios policiais (sem a presença de advogado), em algumas prisões, e até em algumas salas de audiência. O que há em abundância no nosso sistema de justiça é o fundamentalismo justiceiro de muitos magistrados e polícias, de alguns políticos e de demasiados jornalistas. O que há em excesso em Portugal é humilhação pública dos arguidos, condenados ou não. O que há em excesso no nosso sistema de justiça é desrespeito pelos princípios do contraditório e da imediação; é desrespeito pelos cidadãos e pelos seus mandatários. O que há em excesso no nosso sistema de justiça são alterações legislativas e cada vez mais leis com cada vez menos qualidade.
É hora de terminar.
Fez ontem, precisamente, seis anos que aqui discursei pela primeira vez como Bastonário da Ordem dos Advogados. Faço-o hoje pela última vez nessa veste e, devo dizê-lo, com qualquer outra, pois dificilmente aqui voltarei, o que, aliás, vai agradar a muitos, incluindo a mim próprio. Sinto aproximar-se o fim de uma longa caminhada. Às vezes tenho uma estranha sensação de plenitude e outras um sentimento de vazio. Sinto que aqui disse tudo o que havia para dizer; sinto que disse tudo o que devia ser dito. Um advogado não existe para agradar mas sim para incomodar. Um advogado existe para fazer tudo aquilo que faltou naquele julgamento de há dois mil anos e não permitir que os julgamentos sejam tão rápidos; existem para estar ao lado dos seus constituintes sejam eles vítimas, acusados ou condenados; existem para enfrentar todos os justiceiros. Existem para que a justiça seja feita com ponderação, com objectividade, com imparcialidade e até com humildade. Um advogado existe para defender direitos e interesses legítimos – para ser útil aos cidadãos. E será tanto mais eficaz nessa sua missão quanto mais capaz for de incomodar os poderes e os poderosos. E será tanto mais incómodo para estes quanto mais capaz for de defender os cidadãos, quanto mais útil for à cidadania.
Quando pensei na melhor forma de terminar esta série longa de discursos, quase sempre, fui parar ao regaço protector de um poeta, à companhia reconfortante da poesia. Umas vezes fui seduzido pelo arrebatamento demolidor de Jorge de Sena: «Estão podres as palavras - de passarem/por sórdidas mentiras de canalhas/que as usam revés como o carácter deles»./E podres de sonâmbulos os povos/ante a maldade à solta de que vivem/a paz quotidiana de injustiça.
Em outras inclinei-me para a suavidade lírica de Camões: «Oh como se me alonga de ano em ano/A peregrinação cansada minha! /Como se encurta, e como ao fim caminha/Este meu breve e vão discurso humano»!
Lembrei-me até de repetir o grito flamejante do cantor brasileiro, Cazuza: "Meus heróis/Morreram de overdose/Meus inimigos/Estão no poder".
Mas acabei por escolher a exaltação clarificadora de um poema de José Carlos Ary dos Santos, a que apenas alterei uma palavra. Por isso, porque este tribunal é, hoje e agora, o sítio certo para se dizer estas coisas, digo-vos que
"Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
ADVOGADO castrado não!
Muito obrigado.
António Marinho e Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados" (aqui)

Marinho Pinto afirma que tribunais servem para legitimar atos de corrupção!

O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, acusou os tribunais de servir para legitimar atos de corrupção. No discurso de abertura do ano judicial, Marinho Pinto afirmou que os cidadãos não podem confiar na justiça e que as leis têm cada vez menos qualidade. O bastonário criticou ainda as reformas no setor e acusou o Governo de agir com populismo na matéria.

Maestro Graça Moura condenado por peculato e falsificação de documentos

Li no site da SIC que "o maestro Graça Moura foi condenado a cinco anos de cadeia pelos crimes de peculato e falsificação de documentos, com pena suspensa. O maestro estava acusado de utilização indevida de 720 mil euros do erário público e de falsificação de documentos.O tribunal decidiu que Miguel Graça Moura terá de pagar indemnizações compensatórias à Câmara Municipal de Lisboa, no valor de 30 mil euros, e à Associação de Música, Educação e Cultura (AMEC) um total de 690.494 euros, dos quais 200.000 euros terão de ser pagos no prazo de um ano. Em caso de incumprimento destes pagamentos, o maestro será detido, decretou o coletivo de juízes. A pena de cinco anos de prisão foi decidida em cúmulo jurídico, pois o tribunal condenou o maestro a quatro anos de prisão pelo crime de peculato e a dois anos de prisão pelo crime de falsificação de documentos. O advogado do músico fez constar que vai recorrer da sentença no Tribunal da Relação, porque Graça Moura "não se pode conformar com o acórdão". À saída, Miguel Graça Moura afirmou apenas que "o processo não está terminado", escusando-se a prestar qualquer outras informações. A advogada da AMEC considerou que "foi feita justiça". Na leitura da decisão, que demorou cerca de duas horas, a juíza que presidiu ao coletivo de juízes chamou a atenção e criticou a postura "de elite" do maestro durante o julgamento, evidenciando "estar acima do cidadão comum". Segundo a juíza presidente, Miguel Graça Moura "usou dinheiros públicos numa desproporcionalidade e com uma conduta reprovável" e demonstrou sempre uma "postura de alheamento à gravidade da sua conduta". Miguel Graça Moura presidiu à AMEC entre 1992 e 2003 e foi acusado pelo Ministério Público (MP) de, entre outros artigos, ter gasto 720 mil euros em artigos de lingerie masculina e feminina, compras em supermercado, mobiliário, gravadores, aparelhagens áudio, vinhos, charutos, joias, viagens e obras de arte. O MP destacou que Miguel Graça Moura não fazia distinção entre despesas da AMEC e pessoais, utilizando indistintamente cartões da AMEC, que integra a Orquestra Metropolitana, e de contas de que era titular. A acusação diz também que o maestro viajou para os Estados Unidos, Argentina, México, Tailândia e Singapura, despendendo um total de 214.377 euros".
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Portugueses falam em lentidão da Justiça em dia de abertura de novo ano judicial

A função de juiz e advogado exige um traje próprio. Quem vive deste negócio diz que também está a ser atingido pela crise.

Bastonário dos Advogados acusa juízes de “terrorismo de Estado”

Escreve o Publico, num texto da jornalista Mariana Oliveira, que "António Marinho e Pinto aconselha advogados a retirar dos “escritórios quaisquer documentos ou objectos que possam incriminar” os clientes. O bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho e Pinto, acusou nesta quarta-feira, na sessão solene de abertura do ano judicial, alguns juízes de tomarem decisões que constituem “um acto de terrorismo de Estado”.“Quando um juiz de direito emite um mandado de busca em branco quanto ao seu objecto, ou seja, uma ordem para apreender todos os documentos e objectos que se encontrem no escritório de um advogado e que possam constituir prova contra os seus clientes, incluindo os computadores pessoais e profissionais do advogado, isto é um acto de terrorismo de Estado”, afirmou. E logo depois fez uma advertência aos advogados: “Retirem dos vossos escritórios quaisquer documentos ou objectos que possam incriminar os vossos clientes, pois correm o risco de um juiz ir lá apreendê-los para os entregar à acusação”. O Governo foi o primeiro alvo do discurso inflamado do bastonário da Ordem dos Advogados, que acusou o executivo liderado por Passos Coelho de insensibilidade, de ter uma agenda oculta ideológica e de levar a uma política que passa pela “aniquilação dos direitos de quem vive só do seu trabalho”, pela “destruição do Estado social” e por um “ajuste de contas com os valores e conquistas mais emblemáticas da revolução do 25 de Abril”.
Contra o “negócio” das arbitragens
O bastonário denunciou ainda a “fraude em que se consubstanciam certas pretensas formas de justiça”. “A justiça faz-se nos tribunais com juízes e advogados independentes e com procuradores e não em centros de mediação ou julgados de paz”, afirmou Marinho e Pinto. O bastonário alongou-se ainda a denunciar o “negócio” das arbitragens em Portugal. “O Estado tem a obrigação de resolver soberanamente os litígios entre empresas e não remetê-las para essa gigantesca farsa que são chamados tribunais arbitrais, que em muitos casos não passam de meros instrumentos para legitimar verdadeiros actos de corrupção”, sublinhou. E acrescentou: “Finge-se uma divergência ou outro pretexto qualquer como um atraso no pagamento do inflacionado preço para que o caso vá parar ao dito tribunal”. Qual será a decisão de um tribunal “em que os juízes foram substituídos por advogados escolhidos e pagos – principescamente, aliás – pelo corrupto e pelo corruptor?”, perguntou. E, logo em seguida, respondeu: “É óbvio que proferirá a sentença pretendida por ambos e obrigará o Estado ao cumprimento integral da prestação que o corrupto e o corruptor haviam acordado entre si”. Uma forma encapotada, disse, de “prejudicar o próprio Estado”.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Código de Processo Civil: Dez grandes mudanças

Passados 73 anos e mais de quatro dezenas de alterações, o Código de Processo Civil é agora alvo de uma alteração tão profunda que, na prática, é um novo código que passará a reger a aplicação da lei pelos tribunais (Filomena Lança, Jornal de Negócios)

sábado, agosto 07, 2010

Expresso: "Cândida negociou"...

"Directora do DCIAP decidiu incluir as 27 perguntas no despacho final como moeda de troca. Agora, a história ficou mais clara. Em Maio, os dois procuradores do processo Freeport disseram à directora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Cândida Almeida, que não iam abdicar de ter os depoimentos do primeiro-ministro José Sócrates e do ministro Pedro Silva Pereira. Só estavam à espera do relatório final da Polícia Judiciária para formular as perguntas. A 21 de Junho, o relatório ficou pronto. No início de julho, as perguntas foram feitas. No dia 12, enviaram-nas a Cândida Almeida, para terem o seu aval. E foi nessa altura, confirmou o Expresso, que os três magistrados se sentaram à mesa. Para negociar. Sem se comprometer por escrito com os procuradores, ao contrário do que o estatuto do Ministério Público determina quando vêm instruções de cima, a procuradora-geral-adjunta definiu, com eles, o desfecho da investigação ao alegado esquema de corrupção para a aprovação ambiental, em 2002, do centro comercial de Alcochete, quando Sócrates era ministro do Ambiente e Silva Pereira era secretário de Estado da Conservação da Natureza. A reprodução no despacho final do processo Freeport de uma lista de 27 perguntas a Sócrates e de outras dez destinadas a Silva Pereira, todas deixadas por fazer, foi decidida naquele momento pela directora do DCIAP como contrapartida para deixar cair as inquirições aos dois membros do Governo e evitar, ao mesmo tempo, que a acusassem de falta de transparência, pelo que apurou o Expresso. Não foi, como parecia inicialmente, uma iniciativa exclusiva dos procuradores Paes de Faria e Vítor Magalhães.
O controverso documento de arquivamento e acusação, concluído a 23 de Julho, foi atacado pelo próprio procurador-geral da República com uma crítica na terceira pessoa do singular, num sinal de distanciamento: “Nunca o PGR viu um despacho igual”. Uma entrevista de Pinto Monteiro ao “Diário de Notícias”, em que equiparava os seus poderes aos da rainha de Inglaterra, incendiou a semana, provocando uma reacção violenta do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, acusado de actuar como um pequeno partido político”. Na origem estava o Freeport e um problema delicado. Em Julho, Cândida Almeida entrara numa rua sem saída e dificilmente poderia voltar atrás. Apesar de conhecer a intenção dos procuradores em ouvir Sócrates e Silva Pereira (que o Expresso, aliás, noticiara meses antes) e consciente do atraso que levava o relatório da PJ, a directora decidiu avançar mesmo assim com a data definitiva de 25 de Julho — coincidindo com o fim do segredo de justiça — para dar a investigação por encerrada (o jornal “Público” escreveu, nesta sexta-feira, que isso consta de dois despachos assinados por ela a 28 de Maio e a 7 de Junho). Foi isso que propôs e assim foi decidido pelo vice-procurador-geral Mário Gomes Dias, em reacção a um requerimento de aceleração processual colocado por um dos assistentes do inquérito, Fernando Lopes.
Havia um senão. Como o pedido dos procuradores para as inquirições e todas as perguntas a fazer passaram a constar, preto no branco, de um despacho interno, a procuradora-geral-adjunta temeu, de acordo com uma fonte do DCIAP, que o documento “viesse a cair nas mãos erradas”, servindo para todo o tipo de interpretações. Era preciso encontrar uma solução de compromisso. Para impedir outros males Cândida Almeida percebeu que, se o despacho interno viesse a ser tornado público, ela corria o risco de vir a ser acusada de desvirtuar a investigação, no escrutínio mediático que se seguiria (e que, de facto, se seguiu) sobre os motivos que levaram o MP a abdicar de inquirir Sócrates — quando o primeiro-ministro tinha sido várias vezes citado nos autos como um dos implicados no alegado esquema de corrupção do Freeport e quando foram ouvidas quase 100 pessoas mas ele não. Ninguém iria perceber por que razão as perguntas tinham sido submetidas à hierarquia sem terem qualquer sequência. Por isso, a sequência acabou por ser a sua reprodução no próprio despacho de arquivamento e acusação. Eram perguntas interessantes para colocar, mas não iam alterar grande coisa, justificou a directora do DCIAP numa nota incluída no final das 252 páginas do documento e que serviu para dar o seu aval ao trabalho feito pelos magistrados, aproveitando para os elogiar. Um dos argumentos utilizados por Cândida Almeida na discussão com os procuradores para deixar cair os dois depoimentos foi o atraso que isso iria implicar na conclusão do inquérito. “Não se sabia quantos meses” iriam ser precisos para “inquirir testemunhas que podiam nem vir a ser arroladas pelo Ministério Público”, para reforçar a prova contra os dois únicos arguidos acusados no despacho final — os consultores Manuel Pedro e Charles Smith — por indícios de tentativa de extorsão.
A demora prendia-se com a necessidade de solicitar autorização prévia ao Conselho de Estado para o primeiro-ministro poder depor. No entanto, quando no verão do ano passado a juíza de instrução criminal do processo de corrupção Cova da Beira (em que Sócrates era um dos suspeitos iniciais) acedeu ao pedido de um dos arguidos para ouvir o primeiro-ministro como testemunha, o procedimento de autorização pelo Conselho de Estado levou apenas três semanas. As perguntas foram enviadas pelo tribunal no dia 22 de Junho ao presidente do Conselho de Estado, Cavaco Silva, e o secretário do Conselho respondeu no dia 14 de Julho, a dar luz verde. Sócrates remeteu depois as respostas escritas à juíza a 4 de Setembro. No caso de Silva Pereira, de qualquer forma, nem seria assim. Para responderem, os ministros não precisam de ter o aval do Conselho de Estado. Basta serem convocados"
(pelos jornalistas do Expresso, Micael Pereira e Rui Gustavo, com a devida vénia)

PGR garante que não teve conhecimento do despacho

Justiça: classificações dos juízes são melhores que boas...

Segundo o Expresso de hoje - num excelente e actual trabalho do jornalista Hugo Franco, intitulado " Excelentes notas do Conselho Superior da Magistratura atribuídas aos juízes nos últimos cinco anos contrastam com a opinião da generalidade dos portugueses" - "avaliar pelas notas mais recentes, não existem juízes medíocres em Portugal. E há hoje mais magistrados com direito à classificação de ‘ Bom’, ‘ Bom com Distinção’ e ‘Muito Bom’ do que nos últimos cinco anos. Em 2005, por exemplo, o Conselho Superior da Magistratura (CSM) atribuiu a 92% dos avaliados uma das três notas máximas. Em 2009, o número subiu para 97% (só 3% tiveram ‘Suficiente’, contra os 6% desse ano). E, ao contrário do que sucedeu há cinco anos, ninguém levou negativa. Todos os anos, desde 2005, o cenário repete-se: mais de 90% dos magistrados judiciais têm tido notas altas (de ‘ Bom’ a ‘Muito Bom’). Mas foi em 2009, com os 97%, que a percentagem atingiu o valor recorde. No entanto, os ‘Muito Bom’ foram até inferiores a 2008. Em 2009, o ‘Bom com Distinção’ foi, pela primeira vez desde 2005, a nota mais comum entre a classe (37%). Nos outros anos, a maioria dos juízes foi classificado de ‘Bom’. António Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, não estranha o número de notas muito altas e defende que não tem havido qualquer tipo de sobreavaliação, “como se quer passar na opinião pública”. O dirigente considera o nível de exigência no acesso à magistratura judicial “muito alto”, sendo por isso “natural” que as classificações sejam mais elevadas do que noutras atividades. Para António Martins, “só os muito bons” é que podem aceder à profissão, não sendo, por isso, possível comparar os resultados da avaliação dos juízes com os de outros funcionários públicos. “O tipo de responsabilidade exigida a um magistrado está no patamar da de um piloto de aviação ou de um cirurgião”.
Opinião diferente tem o bastonário da Ordem dos Advogados: “É do mais puro e duro corporativismo.” Marinho Pinto não se recorda de nenhuma classe no mundo em que sejam atribuídos tantos ‘Bons’ e ‘Excelentes’. E vai mais longe: “A profissão de juiz é fechada e vitalícia. Aos 26 anos, um magistrado começa a fazer tempo para a reforma”.
O bastonário critica o modus operandi das avaliações, que considera “retrógrado” e pouco compatível com as “necessidades dos tempos modernos”. Marinho Pinto argumenta que não podem ser os juízes a avaliar-se uns aos outros. “É preciso que sejam inspecionados de forma pública para que expliquem algumas das medidas que tomam”. E não pelos “ouvidores do Santo Ofício que andam de comarca em comarca”. António Martins discorda. “Não é verdade (que os juízes se avaliem uns aos outros)”. E lembra que os inspetores (são também magistrados) que vão ao terreno apenas se limitam a propor uma classificação. “Os membros do CSM (a maioria deles não são juízes e foram designados para o cargo pelo poder político) podem alterá-la, como aconteceu no caso recente do juiz Rui Teixeira”. Recorde-se que o congelamento da nota do juiz de instrução da Casa Pia deu origem a acesa polémica, que, de resto, levou à posterior homologação do ‘Muito Bom’. Martins revela que, durante um processo de avaliação a um juiz, os inspectores judiciais do CSM analisam os livros de registo das sentenças, os processos de que foi responsável (todos ou apenas uma amostra) e podem até ouvir os advogados das comarcas onde o magistrado trabalhou nos últimos quatro anos. No final, elaboram um relatório que tem em conta a “produtividade, celeridade e volume de serviço e propõem uma nota”. As classificações seguem para o CSM (órgão de gestão, administração e disciplina dos juízes) que são votadas pelo Conselho Permanente ou pelo Plenário.
Desde 2005, o CSM fez 1327 avaliações a juízes. E só em 2009 foram classificados 298, cerca de 15% do total de magistrados judiciais em Portugal. As últimas contas registam a existência de 1920 profissionais. “Portugal é o único país da Europa onde há avaliação de juízes, além da avaliação a tribunais”, diz um vogal do CSM, que acrescenta: “ A nota que o Estatuto dos Magistrados Judiciais prevê como nota-padrão é o ‘Bom’, a qual, porém, não permite que o juiz seja promovido aos Tribunais Superiores, nem a sua colocação, como efetivo, em Tribunais de Círculo ou equiparados na primeira instância”.
Sondagens dão nota negativa
Ao contrário do CSM, a opinião pública tem sido menos generosa a dar notas aos magistrados judiciais. A sondagem do Expresso desta semana (ver página 10) revela que há mais portugueses com opinião negativa (25,4%) sobre a classe do que positiva (22,9%). Há um ano, outro barómetro do Expresso indicava que quase metade (48,6%) dos inquiridos chumbava a sua atuação. A popularidade dos juízes ficou abaixo da dos procuradores do Ministério Público. Concluiu-se ainda que os entrevistados tinham melhor imagem da classe política, tradicionalmente mais castigada nestes inquéritos, do que dos intervenientes na Justiça. Meses antes, num estudo do Expresso, os portugueses disseram não ter confiança no sistema judicial, a propósito do caso Freeport. 43% dos inquiridos consideraram que casos como este mostram que o “sistema judicial não funciona”. Além disso, 30,6% dos inquiridos pensavam que justiça e política não eram independentes. A imagem negativa não é de agora, Em 2005, uma sondagem sobre a avaliação de desempenho por profissões, da Marktest, colocava os magistrados judiciais num patamar muito baixo. As críticas eram mais fortes entre a classe alta e média e os lisboetas. Para o CSM, a descrença da comunidade estende-se à generalidade das profissões, não se restringindo aos juízes. “Sem prejuízo, importa que se faça o diagnóstico das causas pelas quais a figura do magistrado judicial, segundo certos estudos de opinião, alegadamente se situa em patamares baixos de índice de credibilidade”.
Processos dispararam em 2009
O mesmo relatório do CSM, entregue no Parlamento em Março, revela também que houve um aumento significativo do número de processos disciplinares a magistrados judiciais. De 14 no ano de 2008 e de uma média de 26 nos três anos antecedentes, foram instaurados 41 processos disciplinares em 2009 (aumento de 98% em relação à média dos quatro anos anteriores). “É natural e positivo que haja maior fiscalização aos juízes”, defende António Martins. No mesmo ano foram aplicadas 11 multas e seis advertências registadas".

Cândida Almeida terá negociado inquirições com procuradores

Segundo a SIC, "a directora do DCIAP terá sido a responsável por incluir no despacho de acusação do processo Freeport as 27 perguntas que ficaram por fazer a José Sócrates e Pedro Silva Pereira. De acordo com o semanário Expresso, Cândida Almeida negociou essa mesma inclusão com os procuradores responsáveis pelo caso, para evitar a inquirição do primeiro-ministro. Desde o início de Julho que os procuradores do Freeport tinham formuladas as 27 perguntas que queriam fazer a José Sócrates e as dez questões para Pedro Silva Pereira. O Expresso adianta que Cândida Almeida sabia desde Maio que os magistrados não abdicavam dos depoimentos. E se não o tinham pedido já era porque aguardavam o relatório final da Polícia Judiciária, que ficou pronto a 21 de Junho. Três semanas depois, enviavam as perguntas à directora do DCIAP e foi então que Cândida Almeida negociou a inclusão das questões no despacho final como contrapartida pela não inquirição do primeiro-ministro e ministro da Presidência. Um dos argumentos era o tempo que iria demorar, Cândida Almeida não sabia quantos meses iriam ser precisos entre pedidos de autorização e inquirições. Na nota final do documento de 252 páginas, admite que embora as perguntas fossem interessantes, as respostas não iam alterar grande coisa no despacho de arquivamento e de acusação.
PGR desconhecia despacho
O procurador-geral da República garante que não teve conhecimento prévio do despacho. É também o Expresso que o adianta este sábado, com Pinto Monteiro em discurso directo. Na entrevista, nega ter tido qualquer intervenção no processo Freeport e ser responsável pelo descrédito da Justiça. Pinto Monteiro recusa demitir-se, apesar de afirmar que um procurador refém de um sindicato é um atentado ao estado de direito. Da questão dos poderes, Pinto Monteiro diz na entrevista que na teoria até existem, só que na prática, desde que tomou posse que o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público lhe condiciona as decisões. Sobre o Freeport, afirma que nunca teve conhecimento prévio do despacho, nem do processo, não o consultou e nunca ordenou qualquer diligência. Sobre o descrédito da justiça, diz não sentir qualquer tipo de responsabilidade. Talvez por isso não pondere demitir-se: "um beirão honesto nunca desiste daquilo em que acredita". Mas, voltando ao mau estar, Pinto Monteiro deixa claro que "se um procurador geral se sentir refém de um sindicato, então sim, será um verdadeiro atentado ao estato de direito".
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terça-feira, fevereiro 09, 2010

Justiça desvairada?

PGR não fala sobre gravações...

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Alberto Martins lamenta os ataques de que têm sido feitos à justiça
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...mas Pinto Monteiro mantém posição sobre escutas

sábado, março 14, 2009

Entrevista: João Palma

Na entrevista que concedeu ao Correio da Manhã e ao Rádio Clube, João Palma, candidato único à presidência do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, acusa o Governo de tentar controlar investigações delicadas e de limitar magistrados. João Palma nasceu em Mértola no dia 8 de Julho de 1962, formou-se em Direito na Faculdade de Lisboa e frequentou o Centro de Estudos Judiciários para ingressar no Ministério Público. Passou pelas comarcas de Almada, Entroncamento, Funchal e Lisboa e está agora na Inspecção-Geral da Administração Interna. É secretário-geral do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Justiça: uma pouca vergonha

Li no Correio da Manhã uma notícia com o título "Agente imobiliária degolada por 200 €", segundo as qual "Dulce Moreira, de 44 anos, foi degolada para lhe roubarem 200 euros. A investigação a cargo da Polícia Judiciária de Coimbra permitiu chegar ao autor do homicídio, um homem de 45 anos, residente também em Viseu, que o Ministério Público entendeu que devia aguardar julgamento em casa. Vai passar o Ano Novo com a família e à porta, ao frio, vai ter dois elementos da GNR para evitar que fuja. A situação, insólita, está a causar indignação nas forças policiais. O juiz não o podia prender, porque o Código determina que, sendo o Ministério Público o titular da acção penal, lhe cabe a ele promover medidas de coacção nos inquéritos. Pinto Monteiro também já prometeu que em caso de crimes graves iria determinar que o Ministério Público devesse pedir a prisão preventiva, mas a ordem não foi cumprida neste caso". Que patética justiça portuguesa é esta?! Um animal qualquer mata uma pessoa e "vai passar o Ano Novo com a família e à porta, ao frio, vai ter dois elementos da GNR para evitar que fuja"? Absurdo, demasiado ridículo para ser entendido. Leia tudo, aqui.