segunda-feira, setembro 16, 2013

Augusto Mateus diz que é impossível manter estado social

Segundo o Público, o “ex-ministro da Economia aponta como essencial fazer a reforma do Estado e investir na competitividade e no conhecimento. Os europeus mantém um "optimismo sem sentido", numa atitude de negação, sem querer ver que é impossível manter o actual modelo social europeu e que é "imprescindível tomar decisões-chave a tempo e horas". Augusto Mateus disse-o claramente num tom de relativo pessimismo que contrastou com o tom de esperança quanto a Portugal. No último dia da conferência Portugal Europeu. E Agora?, organizada pela Fundação Manuel dos Santos, o ex-ministro da Economia demorou-se no exaustivo diagnóstico e análise das causas da crise portuguesa e europeia. Referiu a viragem na Europa provocada pela queda do Muro de Berlim e a nova realidade da economia mundial a várias velocidades, dominada pela aceleração da globalização e pela crescente precariedade do emprego, a que se juntou o próprio processo de alargamento europeu e o envelhecimento dramático da população.

Sobre Portugal, recordou que era de longe o país da Europa com os salários mais baixos quando ingressou na União Europeia. "Isso resultou numa garantia da nossa moeda que proporcionou tanto a Portugal como a Espanha um forte investimento internacional", rematou Augusto Mateus. Mas Portugal não o soube aproveitar. Augusto Mateus foi extremamente crítico em relação à forma como Portugal aplicou os fundos comunitários, falando de "desperdício, falta de massa crítica e pulverização de projectos individuais em vez de apostar em grandes projetos capazes de criarem riqueza a favor da população". Apesar de tudo, reconheceu que a crise portuguesa se deveu também ao falhanço do pacto europeu de estabilidade em matéria de coesão. Preocupado com as soluções que nos possam fazer sair da crise, o orador sublinhou a necessidade de reformar o Estado actual, "que foi constituído por edifícios e empregos e não para ser um prestador de serviços". Para o investigador, importa sermos capazes de enfrentar objectivos ambiciosos, mas alcançáveis, sendo imperioso afectar os recursos de forma inteligente no investimento produtivo e perceber que a competitividade não é um custo, traduzindo-se antes no valor acrescentado que conseguirmos introduzir nas nossas exportações. "Não podemos facilitar em relação aos problemas que temos pela frente", defendeu o ex-ministro da Economia, opinião também partilhada por António Barreto: "O tempo é curto, o trabalho é grande e o problema é enorme". "Como vamos criar candidaturas correctas para os fundos europeus que teremos nos próximos sete anos? Teremos massa crítica, técnicos competentes e sérios capazes de avaliarem e fiscalizarem a aplicação dos fundos? Este é o problema crítico que vai determinar a linha de desenvolvimento de Portugal no futuro", avisou o presidente da Fundação Manuel dos Santos. "As resoluções que se assumirem agora determinarão a linha de criação do estado democrático no futuro", frisou. "Ninguém sabe o que se irá passar, e ninguém sabia também o que realmente se iria passar", constatou Manuel Villaverde Cabral. O antigo vice-reitor da Universidade de Lisboa responsabilizou os políticos de serem "os recondutores das escolhas feitas ao longo do século" na gestão financeira portuguesa: "Poupávamos quando éramos pobres e deixámos de poupar quando nos tornámos ricos". Mas resta-lhe a esperança: "A perda do poder do Estado e da classe política pode ser o complemento de uma economia mais orientada para o benefício das populações".