Corre em Lisboa, junto dos
meios ligados à comunicação bem como nalguns círculos próximos da maioria, que
a palhaçada dos briefings - uma "descoberta" tardia deste governo de
coligação mas uma demonstração de que a patética propaganda de Sócrates, que na
realidade não passava de intoxicação da opinião pública portuguesa, afinal
deixou seguidores e fez escola, sobretudo entre advogados-articulistas
promovidos à pressão a uma espécie de jornalistas "made in China" ou consultores de imagem de governo
"made in Vietnam" - que
começou por ser diária e foi iniciada há pouco mais de um mês, já vai sofrer a
primeira recauchutagem.
Percebe-se que assim seja.
Desde logo pela incompetência demonstrada na organização, pela ausência de uma
lógica política também necessariamente subjacente à mensagem e pelo amadorismo
que chega a roçar o patético. Mas percebe-se também, e sobretudo, pela
ineficácia da iniciativa que rapidamente se transformou no funeral, quase
diário, da própria contra-informação governativa. A trapalhada com o caso dos
“swaps”, a falta de credibilidade que entretanto a evolução do caso gerou, com a
demissão de secretário de estado à mistura - ele que dois dias antes esteve num
desses encontros a mostrar as garras aos jornalistas - foram a demonstração,
uma parte dela apenas, do fracasso em que uma iniciativa importante se viu
transformada por culpa própria.
Não se pode arranjar um
indivíduo qualquer, com ar de "yuppie" de confraria, que supostamente
andou a marrar anos para ter não sei quantos canudos debaixo do braço, mas de
quem ninguém antes se lembrou, o que não deixa de ser estranho, resolver trazê-lo
para Portugal, promove-lo a ministro, quando o governo de coligação dava sinais
de degradação, de fragilidade, de descrédito e de ilegitimidade social e
política, e pensar que só por isso, descobriram uma nova versão do caminho para
a India.
Entregar um carro de
bombeiros a um indivíduo que ninguém conhece e de quem poucos ouviram falar,
importado de universidades europeias, sem qualquer experiência política e sem
militância partidária conhecida, que nunca exerceu cargos políticos e não teve
qualquer experiência governativa anterior e mandá-lo apagar um incêndio qualquer,
quando o homem afinal nem carta de condução tem, no mínimo é ridículo.
É isso que tem acontecido
com esta espécie de ministério da propaganda feito a martelo e muito à imagem
da propaganda de Sócrates que só funcionou, aparentemente bem, enquanto as
coisas não deram para o torto. Porque quando isso aconteceu, foi o descalabro.
Sinceramente acho confrangedor tudo isto, todo este amadorismo deprimente, até porque
este governo de coligação não tem espaço de manobra - e prepara-se para
reduzi-lo ainda mais, depois de alguma folga conquistada nos últimos dois
meses, por mais paradoxal que isso possa parecer – nem tempo para perder-se com
questões que aparentemente seriam facilmente executadas e geridas.
Ou seja, o governo que
pretendia, e bem, construir pontes com a comunicação social, rapidamente
assumiu uma atitude, ora desconfiada, ora inconsistente, ora professoral e
descabida não tardando muito para que fosse obrigado a ter que desmentir todos
os dias notícias publicadas si próprio, com muita especulação à mistura, mas algumas
delas pondo até em causa a honorabilidade de membros do governo de coligação,
transformando assim os "briefings" governativos num quase pesadelo
político, mais concretamente em algo que se limitava a ir a reboque dos
acontecimentos externos, obrigando a cancelamentos à mistura e outros episódios
pitorescos demonstrativos de que não se conseguem fabricar especialistas num
domínio tão sensível e polémizável como o da comunicação política e da imagem institucional
de um governo a braços com uma forte contestação social, só porque se acha que
sim, por toque de magia.
Mas quem é afinal o
principal porta-voz desses encontros com a comunicação social, alguns deles
transmitidos de forma submissa e nunca vista em directos pelas televisões?
Trata-se do Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento
Regional, Pedro Lomba, licenciado, mestre e doutorando em Direito na Faculdade
de Direito de Lisboa. Assistente na Faculdade de Direito de Lisboa, foi
advogado em empresas privadas e assessor jurídico da Presidência do Conselho de
Ministros. Foi colunista de vários órgãos de comunicação social nacionais e
comentador na RTP-Norte. É autor de livros na área do direito. Experiência
política ou governativa? Também não me consta que tenha tido qualquer experiência
jornalística profissional ou que tenha ligações a quaisquer actividades no
domínio da comunicação política...
O seu patrão apresenta um curriculo oficial
que não o deixa muito longe. Poiares Maduro é Ministro-Adjunto e do
Desenvolvimento Regional desde Abril de 2013. Foi professor de Direito no Instituto
Universitário Europeu, em Florença, colaborou noutras universidades na área do
direito, foi advogado geral entre 2003 e 2009 no Tribunal Europeu de Justiça no
Luxemburgo. É Doutor em Direito pelo Instituto Universitário Europeu, ganhou o Prémio
Objectivo Europa pela melhor tese de doutoramento no Instituto naquele ano,
tendo sido galardoado em 2010 com o Prémio Gulbenkian de Ciência e agraciado
com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada pelo Presidente da República
Portuguesa por mérito literário, científico e artístico (2006). Integrou um grupo
de trabalho da Comissão Europeia que estudou o pluralismo dos média e a
liberdade de informação. Pertenceu à Comissão Política de candidatura de Aníbal
Cavaco Silva às eleições presidenciais de 2011.
Experiência
política ou governativa? Zero. Experiência no domínio da comunicação social ou
política? Idem. Palavras para quê...
Isto leva-me a
uma outra questão, que não quero abordar hoje neste contexto, mas sobre a qual
tenho falado a pessoas que me pedem opinião, e que se prende com o facto de
haver alguns políticos que julgam que hoje se ganham eleições ou constroem
imagens públicas graças ao “facebook”. Esqueçam. Uma esmagadora maioria dos
eleitores dos escalões etários superiores não alinha nessas redes sociais e uma
esmagadora maioria dos eleitores dos escalões etários mais jovens prescindem da
política nas redes sociais, optando por outras alternativas e outras formas de
comunicação e de partilha de informação. A ideia de que o “facebook” é hoje uma
ferramenta decisiva no marketing eleitoral, nas estratégias partidárias ou na
comunicação política é um tremendo erro que acaba por ter um custo político e
eleitoral elevado. É uma ferramenta importante, muito barata e a utilizar, sim
senhor, mas sem qualquer dependência ou hipervalorização. O contacto directo
com as pessoas continua a ser a principal arma de um combate eleitoral, a par
de uma inteligente e racional utilização da televisão. A “caixa” continua muito
à frente da concorrência…
O
mesmo acontece com a ideia peregrina de alguns especialistas (?)...na arte de
que basta juntar meia-dúzia de pessoas a uma mesa, sacar duas ou três fotos,
elaborar um press-release com muitas trivialidades e enviar tudo isso por
correio electrónico para as redacções dos meios de comunicação,
transformando-as em meras caixas-de-ressonância e aos jornalistas em
"vuvuzelas" forçadas de partidos ou de candidaturas, que o dia está
ganho! Pura ilusão.
Mas
isso são outras conversas.