“Caro Sr
Presidente da República; Caro Sr Primeiro Ministro; Caro Sr Dr Bastonário da
Ordem dos Médicos
O meu nome é
Ricardo, tenho 36 anos e sou Médico desde 2001. As habilitações profissionais
que hoje possuo implicaram 12 anos de estudo até à universidade, 6 anos de
licenciatura em Coimbra com média de 17 valores, 2 anos de internato geral, 4
anos de especialidade e 2 anos de subespecialidade.
No início desta
semana fui a uma clínica da cidade onde vivo pois tinha um doente marcado para
consulta. Antes disso aproveitei uma horita livre que tinha e fui pôr umas
calças a fazer a bainha e cortar o cabelo. Paguei 12.5 euros pela bainha
(paguei adiantado para as levantar 48h depois) e paguei 10 euros no final do
meu corte de cabelo. A bainha ficou bem feita e o corte (fácil, pois o cabelo
já não abunda) também! Depois lá segui para a minha consulta. A doente chegou a
horas, foi cordial e educada e a situação não era complicada e ficou resolvida.
A doente pagou 3.99 euros pela consulta e daqui a 6-12 meses espero receber os
18.46 euros (brutos) que me cabem pelo meu trabalho.
Com todo o devido
respeito pela senhora que me fez a bainha e pela senhora que me cortou o cabelo
(concerteza profissionais competentes que pagam as quotas das respectivas
ordens profissionais!), gostaria que me explicassem a lógica de ser considerado
“rico” ou “privilegiado” (e pelos vistos mal-agradecido) pelo Governo do meu
País.
Como vou explicar
ao meu filho de 3 anos que em Portugal é melhor não estudar porque é uma perda
de tempo. Como lhe vou explicar que apesar de nunca ter vivido acima das minhas
possibilidades não tenho a capacidade económica para escolher livremente o seu
futuro! Como lhe vou explicar que o País onde ele nasceu rouba a quem trabalha
para sustentar quem não merece!
Nunca vivi, nem
vivo, acima das minhas possibilidades (deixo isso para outros!) mas tive (já
não tenho, infelizmente) expectativas justas de qualidade de vida e condições
dignas de trabalho...
O que consegui poupar ao longo destes anos de trabalho vai ser
canalizado para pagar uma boa educação ao meu filho; no estrangeiro porque em
Portugal não vale a pena! A minha formação “diferenciada” não é reconhecida em
países (onde se fale inglês, porque dinamarquês ou sueco não é o meu forte)
para onde valha a pena emigrar (países que reconhecem, valorizam e protegem as
pessoas esforçadas e trabalhadoras como eu!), o que me dificulta bastante essa
escolha difícil... Não sei se alguma vez o conseguirei fazer mas espero que o
meu filho reconheça o esforço dos pais e nunca mais volte a este País corrupto
e castrador, espero que esqueça que alguma vez foi Português! A não ser que
tenha jeito para “jogar à bola” ou para político porque para esses ser
português compensa!” (*) Carta do Leitor, publcada no DN do Funchal, assinada
pelo médico Ricardo Duarte (Cédula OM 41436). Com a devida vénia