quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Opinião pessoal: REFLEXÃO (1)



Como nota prévia gostaria de me distanciar de qualquer ideia de diabolização de Alberto João Jardim. As governações não são perfeitas, muitas vezes nem sequer são justas, porque em política não há o perfecionismo. As pessoas cometem erros, e têm insuficiências. Alberto João Jardim foi fundamental para o PSD da Madeira, para a história da Madeira pós-25 de Abril e liderou um processo de mudança política, social e económica que precisamos dar continuidade, processo esse que naturalmente não foi unânime. Obviamente que ele cometeu erros, porque, repito, ninguém é perfeito. A política detesta os que se auto-catalogam de “perfeitos”. A política abomina os “imaculados”. Todos cometemos erros, nenhum de nós é perfeito
Anjos e vedetas cinematográficas só no cinema. Na política não há vedetas, nem as vaidades pessoais influenciam as opções das pessoas muito menos condicionam a sua liberdade. O povo sabe que os “milagreiros” de pacotilha são uma invenção para enganar as pessoas. A humildade é uma preciosidade cada vez mais rara na política, infelizmente. Quando no PSD regional, e a propósito de uma disputa interna pela sua liderança, se radicaliza o discurso - e admito excessos de todas as partes, alguns erros de análise e decisões discutíveis - quando se confundem questões pessoais com política, quando as pessoas não passam de reféns manipulados por “vendettas” que acabam por obstruir o bom senso e o discernimento impedindo os protagonistas de encararem os factos e a verdade, tal como eles são e como como querermos que sejam, inevitavelmente acabamos por ser injustos e dar repetidos tiros-nos pés.
A diabolização de Alberto João Jardim, só porque o PSD regional ficou duplamente fragilizado, em termos eleitorais e políticos, desde 2011, por causa da incontornável conjugação de decisões externas que se mantiveram (e se manterão) até hoje, com o consequente desgaste negativo, é uma desonestidade. Há que respeitar as pessoas na política porque a política precisa que os seus protagonistas sejam respeitados. Os tempos são os piores de sempre, nestes 40 anos de democracia, para políticos e partidos. Para todos, sem exceção. Não se iludam!
O PS não se atreve a colocar em causa Mário Soares, tal como o PSD se ajoelha sempre que falam em Sá Carneiro, o CDS quando evocam Amaro da Costa ou o PCP sempre que se trata de defender Álvaro Cunhal. Nenhum deles foi perfeito, nenhum deles deixou de cometer erros, nem todos tiveram as mesmas responsabilidades governativas e políticas. Mas foram todos eles dirigentes políticos dotados de forte carisma e reconhecidamente tiveram um papel importante nos respectivos partidos o que explica que hoje sejam recordados e respeitados mesmo por aqueles que deles discordaram.
Repugna-me a ideia, de resto construída também um pouco dentro e não apenas fora das fronteiras do PSD-Madeira, que, subitamente, deixamos de ter um legado, mesmo contabilizando as nossas insuficiências individuais ou coletivas. Basta-me percorrer certos corredores onde se operou mudança política recente para que se perceba que os mitos se derrubam facilmente. Eu não sei se a Madeira seria diferente ou se os Madeirenses teriam outra mentalidade se porventura outro partido, que não o PSD da Madeira, tivesse liderado este processo de mudança política, social e económica que o 25 de Abril e a revolução dos cravos nos desafiou e a liberdade nos abriu portas. Não conseguimos tudo o que queríamos, provavelmente nunca conseguiremos tudo o que desejamos. Mas passados estes anos todos, e ponderados os erros e as virtudes, os avanços e os recuos, as vitórias e as derrotas, as conquistas e as perdas, os sucessos e os fracassos, temos obviamente um legado que não aconteceu por acaso e que temos que preservar e respeitar. Trata-se no fundo de um património que também pertence ao PSD regional. Entristece-me por isso a ideia de um partido desfigurado, injusto e perigosamente refém de uma espécie de ânsia elitista apressada de tomada do poder, custe o que custar, independentemente das consequências que daí advenham e sem ponderar tranquila e pragmaticamente aquilo que neste contexto melhor importa ao partido. Porque julgo que sabemos todos o que a Madeira e os madeirenses precisam.
Esta reflexão, que vou dividir em dois ou três textos, pretende ser apenas a expressão de uma opinião pessoal e livre, de quem tem a consciência que se aproxima do final do seu tempo enquanto dirigente partidário, de quem não tem qualquer tipo de ambições, que espera não ter deixado para trás inimigos, mas tão-somente, e ainda bem, adversários, porque pertencerem a partidos diferentes e terem feito escolhas ideológicas opostas. Mas que foram sempre respeitados por quem se recusa alimentar qualquer inimizade neste contexto, mesmo que algum radicalismo na escrita deixe transparecer algo que não corresponde à realidade, que não deve ser valorizado ou encarado mais do que isso mesmo, a expressão de uma opinião. Respeito todos os que não pensam como eu e que não quero que pensem como eu. Gostaria que o retorno se fizesse pela mesma bitola.
Esta sensação de estar fora, por opção pessoal, de tudo o que se seguirá, propicia-me alguma liberdade e encantamento, confesso. Que nada tem a ver com o facto de ter tomado, em 1974, uma opção que preservo até os dias de hoje, sem hesitações, sem hiatos, sem medos, sem hipocrisias, sem arrependimentos. Estou consciente de que termos o dever de estar disponíveis para colaborar - quando e se precisarem de nós - porque enquanto militantes de um partido temos essa obrigação da disponibilidade, sem precisarmos de ocupar permanentemente cargos dirigentes ou integrar estruturas partidárias. Não viro costas porque seria uma atitude repugnante da minha parte, porque respeito os meus companheiros de partido, admito a sua disponibilidade – mas aos quais apelo ao bom senso nesta fase complicada em que estamos onde os erros podem ser fatais – e a coragem de se assumirem e de quererem aceitar desafios futuros (JM)