segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Opinião: “Gaspar por Gaspar”



“Foi com vontade que peguei no livro-entrevista a Vítor Gaspar que chegou esta semana às livrarias. Não é habitual os políticos portugueses escreverem e contarem-se. Poucos se aventuram nesses labirintos, menos ainda o fazem bem. Estilo, substância, alguma clareza de espírito não desaguam por aí. Muitos políticos talvez nem leiam. Suspeito que se dediquem com afinco aos recortes que os assessores lhes despacham para as mãos. Espelho meu, espelho meu, há alguém mais sabido do que eu?
Passos Coelho, antes de ser primeiro-ministro, redigiu uma brochura de governo, encantadora e vácua como todas naquele subgénero literário ultracongelado. Como é evidente, a prosa não resistiu ao primeiro sopro da realidade. Ainda assim, fez boa prateleira nas livrarias no período eleitoral. Lembro--me de o ver na Fnac. Ficou meses a fio exposto ao pé de livros para realmente ler. Posicionou - é assim que se diz - o futuro homem de Estado.
José Sócrates, no regresso de Paris, deu uma entrevista televisiva, o efémero baile de debutantes obrigatório para políticos ainda e sempre com aspirações nacionais. Também publicou um livro, na verdade uma tese sobre tortura, enquadrável no mesmo espírito curricular de quem aspira a novos voos, mas não quer realmente fazer contas com o passado. Teixeira dos Santos foi Teixeira dos Santos: previsível como um chaparro. Depois da sombra, a seguir ao obrigatório período de eclipse político, também deu a sua bendita entrevista a um canal televisivo, a que se seguiu o pitoresco magazine semanal, o púlpito onde faz de conta que analisa - ele dirá pensa - a atualidade, mas onde apenas procura dar algum consolo e futuro ao nome turvado pela realidade.
Álvaro Cunhal escreveu, Mário Soares escreveu, embora deles, talvez por defeito de idade, eu tenha percorrido mais os livros-entrevista que publicaram com Maria João Avillez. Grandes livros, dois tenores da vida pública portuguesa com tempo para falar e responder. A voz deles está ali. Embora não tenham sido escritos pela própria mão, há pulso deles em cada uma daquelas páginas. Para quem não viveu o antes e o pós-25 de Abril, é história viva, cheia de contradições e significados. A recordação é sempre imperfeita e precária, mas ajuda a fixar o presente ainda mais fugaz.
Foi por isso que peguei com vontade no livro-entrevista a Vítor Gaspar, também ele escrito por Maria João Avillez. Infelizmente é uma entrevista biográfica quase sem nódoas - não há perfis sem defeitos, foi o que aprendi -, refém talvez de uma pueril admiração pela personagem. As perguntas e respostas contam um Gaspar previsível. É uma espécie de Gaspar por Gaspar. Não expõe o que não sabíamos dele. Imagino que nem o próprio gostaria de ver-se confrontado com isso. Ainda assim, deu a cara, por escrito e demoradamente, antes de partir para o exílio dourado. Isto é política, não é Excel” (texto de ANDRÉ MACEDO, Diario de Notícias de Lisboa com a devida vénia)