terça-feira, janeiro 22, 2013

Opinião: "Agora sim, o pântano"...

"O pântano que vivemos é mais perigoso que o que levou Guterres a sair de cena. Podemos falar de sondagens ou podemos falar das intervenções de sociais- -democratas com responsabilidades políticas – ou intervenção histórica. Passos Coelho mantém a legitimidade institucional, mas há muito que começou a perder a legitimidade política, na mesma linha do que aconteceu com o governo de Pedro Santana Lopes, que tinha sido escolhido pelo partido para suceder a Barroso enquanto primeiro-ministro. Naquele Outono de 2004, Santana Lopes não tinha menos legitimidade política do que a que, neste momento, cobre Passos Coelho. A questão de não ter ido a votos era de somenos. O nosso sistema político permite perfeitamente a substituição de um primeiro-ministro por outro sem a existência de eleições, desde que o partido mais votado – com a concordância do Presidente – assim o decida. A falta de legitimidade política do governo de Santana Lopes não era institucional: caiu na rua. Do mesmo modo, Passos Coelho está a cair na rua – abjurado pelos espoliados do aquém-mar e pelos sociais-democratas que não se conformam que o seu partido tenha sido capturado por um núcleo ultraliberal que põe em causa a própria história de um partido que em 1974 queria aderir à Internacional Socialista – mas o PS de Soares tinha chegado primeiro.
Institucionalmente, a coligação com o CDS é a única âncora (umas vezes mais sólida, na maioria das vezes em estado gasoso) do governo, que não conta com o apoio genuíno do Presidente da República. Mas Portas é provavelmente um dos melhores políticos portugueses a avaliar o ar dos tempos. Depois, há o PS que ontem fez uma declaração sincera na entrevista do “DN” e da TSF: não pode prometer baixar os impostos. Claro que não – a monstruosa carga fiscal é feita por imposição de um limite de défice estúpido que o PS assinou no Memorando da troika. Viveríamos melhor se o PS fosse governo? É possível que sim, em algumas circunstâncias. Mas o compromisso com a troika mantém-se – e os seus objectivos irrealistas – e está por provar o sucesso que Seguro poderia vir a ter ao negociar com os credores. As dúvidas sobre o sucesso de Seguro na renegociação da dívida estendem-se aos partidos à sua esquerda: integrados numa União Monetária cheia de vícios, que nasceu mal e não se vai endireitar, que capturou toda e qualquer capacidade de decisão nacional, o que fariam PCP e Bloco que, aliás, não querem sair do euro? O pântano que vivemos é de longe mais perigoso do que aquele que levou Guterres a sair de cena" (texto da jornalista Ana Sá Lopes no Jornal I, com a devida vénia)