Escreve a jornalista Barbara Cruz do DN de Lisboa que "dinheiro nos bolsos e arma no coldre, assim viviam os emigrantes portugueses no faroeste. A tese é de Donald Warrin, que encontrou no século XIX histórias que viraram lenda. A culpa será de John Ford, Howard Hawks, do próprio John Wayne, mas a verdade é que quando se fala do velho Oeste americano há uma imagem que surge de imediato: a porta oscilante de um saloon que se abre para dar passagem ao cowboy justiceiro, o cavalo que aguarda do lado de fora, a música que pára no bar onde cortinas de fumo escondem jogos de cartas entre homens de má reputação a entornar canecas de álcool. O western conquistou pelo cinema e hoje é difícil acreditar que não fosse exactamente essa a realidade dos que atravessavam a América para vender peles de animais, criar gado ou procurar ouro nos estados mais a oeste da fronteira. De uma coisa, porém, temos quase a certeza: raramente se ouviria o sotaque português num saloon. Não que o continente americano fosse inalcançável para o cidadão luso, mas porque os que lá chegaram preferiam socializar noutros locais, onde podiam reunir-se sem terem de beber. Começaram nas mercearias, mas o ponto de encontro favorito dos portugueses emigrados nos Estados Unidos durante o século XIX e início do século XX, a era da grande corrida ao ouro e dos ranchos a perder de vista, foi sem dúvida nenhuma o salão da barbearia. Há uma explicação: quem partia de Portugal levava os bolsos vazios e pouca vontade de perder tempo em actividades recreativas. Interessava trabalhar, amealhar, construir. Uma mentalidade que foge ao estereótipo latino, reconheçamos, mas que permitiu a estes homens e mulheres, na sua maioria provenientes dos Açores, alguns da Madeira e até de Cabo Verde, tornarem-se verdadeiros capitalistas nos territórios áridos mais próximos da costa do Pacífico.Além da Califórnia, onde no início do século XX chegaram a concentrar-se cerca de trinta mil portugueses, houve também quem se aventurasse pelo Nevada, Oregon, Idaho, Wyoming ou Novo México. "E a ética de trabalho, que não fez muito pelos que ficaram em Nova Inglaterra, na costa leste dos EUA, a trabalhar em fábricas de algodão, deu aos portugueses do Oeste uma vantagem sobre o americano típico", explica Donald Warrin, o historiador que durante mais de uma década correu o "Ocidente longínquo" na pegada dos que lá se instalaram. É o autor de Os Portugueses no Faroeste - Terra a Perder de Vista, que conclui: "Hoje, seriam o equivalente a multimilionários com propriedades de muitos hectares." Warrin traça o percurso do emigrante que deixava Portugal: ia de barco até à costa oeste dos EUA, "uma viagem difícil" que muitos faziam em baleeiros onde iam trabalhando. Mais tarde, com a construção das linhas ferroviárias, "chegavam a Providence, New Bedford ou Boston com o dinheiro suficiente para atravessar o continente de comboio e ir ter com familiares. Muitas vezes levavam um cartão pendurado ao pescoço a dizer que não falavam inglês e queriam sair em determinado lugar. Houve grandes enganos", ri-se. A falta de instrução era comum, mas o desembaraço aliado a uma rígida contenção de despesas não impediu os "portuguese Joe", como eram tantas vezes conhecidos - americanizar os nomes era vulgar e nada melindroso - de progredir e ter sucesso na costa oeste, mais do que na costa leste dos EUA. "Terá alguma coisa que ver com ser ilhéu", admite o autor. "Nas ilhas estavam sem contactos durante meses, eram obrigados a ser auto-suficientes." Não os assustava a solidão das áreas semidesertas: acumulavam dólares para plantar árvores, comprar terras, estabelecer ranchos com milhares de cabeças de gado. Destacavam-se como comerciantes, agricultores ou exploradores mineiros, capazes dos maiores sacrifícios. Houve até quem fizesse fortuna a vender tamales, especialidade gastronómica da América Latina, os que não tiveram medo de puxar da arma para ameaçar nativos que lhes invadiam o espaço e quem escrevesse versos para aguentar a distância da terra natal".
Sem comentários:
Enviar um comentário