quinta-feira, maio 13, 2010

Madeira: um novo seminário de jornalismo

Em 1979 realizou-se na Madeira o I Seminário de Jornalistas, iniciativa que foi organizada por uma comissão liderada pelo antigo jornalista Luís Jardim e da qual fizeram parte nomes como os de Manuel Correia (director da RDP), já falecido, Maria Luísa Silva (RTP), Gilberto Teixeira do Jornal da Madeira, etc. Lembro-me que a organização contactou diversos profissionais estrangeiros e recebeu diversas ideias. Foi uma iniciativa que debateu a realidade do jornalismo - os desafios então eram outros - com sessões de trabalho e contributos externos, preparando os profissionais e as empresas para os desafios das novas tecnologias e da formação profissional e estruturação der carreiras. O ministro da comunicação social à época, Proença de Carvalho esteve presente no encerramento do encontro que se prolongou por três ou quatro dias. Com toda a sinceridade, mas sem pretender imiscuir-me numa realidade sectorial e profissional - da qual fiz parte e me honro - que tenho a absoluta consciência que precisa de ser repensada, de repensar-se e de regressar às origens, parece-me que seria uma boa ideia a realização de uma segunda edição daquele seminário, para uma discussão aberta, sincera e sem condicionalismos, onde se repensasse tudo, inclusivamente a solidez de projectos empresariais no sector, a realidade do mercado publicitário e de consumo (assinantes, compradores, espectadores, ouvintes), o peso da publicidade nas receitas das empresas, o descréscimo das receitas publicitárias, o impacto da crise económica, o impacto da internet, que representa hoje a principal ameaça, nomeadamente para a imprensa escrita, até que ponto seriam viáveis projectos empresariais que surgissem dos próprios profissionais, incluindo projectos na área da internet, a situação de insustentabilidade de alguns projectos empresariais que se multiplicaram em várias apostas falidas, fragilizando a empresa no seu todo e colocando em causa empregos e a própria viabilidade, etc. Um encontro sem a preocupação de encontrar "papões" ou esconder a verdade atirando-o para debaixo do tapete por ser a solução mais fácil, mas que apenas faz ganhar tempo. Um encontro profissional que discutisse tudo, sem tabus, que assumisse erros e propusesse alterações em estruturas que não tiveram em consideração a realidade do mercado ou a sua evolução. Porque a realidade das rádios regionais, por exemplo, sem os apoios oficiais atribuídos pelo governo regional, seria catastrófica. Penso que todas as estações acabariam mais cedo ou mais tarde por encerrar ou perder qualidade, porque inevitavelmente teriam de emagrecer os seus recursos humanos. Nunca ouvi as rádios regionais e/ou locais, de pequena dimensão, verdade seja dita, queixarem-se da RDP e do facto do Estado ser proprietário pleno (100%) da rádio oficial que naturalmente é o principal concorrente - e ainda este ano vai acentuar esse seu estatuto - dessas rádios. É só uma sugestão que me parecia importante, mas que, confesso, não acredito se concretize. Porque a realidade do jornalismo na Madeira, contrariamente ao que se pretende fazer crer, não tem apenas a ver com o governo regional. Ela é bem mais profunda, bem mais ameaçadora e que, mais tarde ou mais cedo, deixará marcas que poderão ser difíceis de sarar, porque ninguém estará em condições de travar esses processos penosos. E é isso que me preocupa, profundamente, enquanto antigo profissional do sector que sempre viveu situações complicadas e relacionamentos difíceis, mas nunca esteve sob a ameaça de factores exógenos, financeiros e económicos que ninguém consegue controlar. As medidas hoje anunciadas pelo governo, por exemplo, representam mais uma estocada grave, por exemplo nas receitas publicitárias e nas próprias vendas com reflexos graves nas receitas das empresas. E tudo o que isso significa, de ameaças sérias.

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