quarta-feira, setembro 09, 2009

Opinião: "Internet: de um mundo de liberdade ao paraíso da cobardia"

"Se eu lesse todas as coisas desagradáveis que escrevem a meu respeito na internet, nunca viria trabalhar. Quando escrevem sobre nós de maneira maldosa, o assunto é muito mais grave para nós do que para qualquer outra pessoa. Os mexericos entram-nos por um ouvido e saem pelo outro, a não ser que sejam sobre nós próprios. Nesse caso, ego nenhum é suficientemente forte. "A velocidade e o volume de dados da web são tão grandes, que nada é esquecido e nada é relembrado", diz Leon Wieseltier, editor do New Republic. Fixemo-nos nos casos da "Modelo loira" e do "Bloguista malicioso". Mais cedo ou mais tarde, esse tipo de processos acaba no Supremo Tribunal.
Tudo começou há oito meses, quando Liskula Cohen, uma modelo de 37 anos e cover-girl da Vogue australiana, foi surpreendida por lhe ter sido atribuído o galardão de "Skankiest in NYC" (a mais promíscua de Nova Iorque) por um bloguista anónimo. O agressor inseriu comentários maldosos online, no site blogger.com do Google, chamando-lhe "promíscua", "pega" e "mulher com muita rodagem" que "talvez tenha sido sexy há 10 anos".
Cohen diz que é uma pessoa mais virada para o "amor" do que para a "guerra". Mas a modelo já tinha dado luta anteriormente. Em 2007, num clube de Nova Iorque, tentou impedir que um homem chamado Samir Dervisevic bebesse vodka da garrafa que ela tinha em cima da mesa. Ele bateu-lhe com a garrafa, fazendo-lhe um buraco na cara e obrigando-a a recorrer a cirurgia plástica. Mas, desta vez, ela deu um soco virtual na cara do agressor: apresentou uma queixa no tribunal, para obrigar o Google a divulgar o endereço do bloguista. Ganhou o processo. "Os nomes "promíscua", "pega" e "mulher com muita rodagem" têm todos uma conotação sexual negativa, disse a magistrada Joan Madden do Supremo Tribunal estatal de Manhattan, rejeitando a afirmação do bloguista anónimo de que os blogues são tribunas modernas destinadas a publicitar opiniões, insultos e invectivas. A juíza citou a decisão de um tribunal da Virgínia segundo a qual, visto que a internet é "um meio de comunicação praticamente ilimitado, barato e quase imediato", os perigos da sua má utilização não podem ser ignorados. Cohen telefonou a Rosemary Port e perdoou-lhe, mas não obteve quaisquer desculpas da parte dela. Assim, disse ao advogado que apresentasse queixa por difamação. Mas agora Rosemary Port diz que vai apresentar uma queixa de 15 milhões de dólares contra o Google, por este ter revelado o seu nome. Ela argumenta que se Cohen não tivesse apresentado queixa, praticamente ninguém teria visto o seu blogue. Mas Cohen diz que a internet é diferente dos mexericos de escritório: "as coisas ficam lá, à vista de todo o Mundo", disse-me ela. "O que é feito da integridade? Por que razão uma pessoa perde tempo só para incomodar outra? Por que não podemos ser todos simpáticos uns com os outros?" Disse que é possível que se venha a tornar activista e tem trocado mensagens de correio electrónico com Tina Meier, mãe de Megan Meier, a rapariga de 13 anos que se suicidou depois de ter sido agredida na internet pela mãe de uma colega que se fez passar por um admirador chamado "Josh"."Se essa mulher tivesse lançado uma página no MySpace com a sua verdadeira identidade, aquela rapariga ainda estaria nos braços da mãe", diz Cohen. A internet iria ser supostamente o paraíso da livre expressão, sem censura a cada passo e onde todos pudessem finalmente ter voz. No entanto, neste infinito reino da verdade, muitos querem esconder-se. Quem são essas pessoas, prontas a dizerem o que pensam sem no entanto dizerem quem são? Que mentalidade os leva a incomodar-nos, ficando escondidos por detrás de uma máscara? Os pseudónimos têm um historial nobre. Os revolucionários em França, os primeiros colonos dos EUA e os dissidentes soviéticos usaram--nos. O grande poeta Fernando Pessoa servia-se de heterónimos para escrever em diferentes estilos e até para rever as obras criadas pelos seus alter egos. Como escreveu Hugo Black em 1960, "É evidente que o anonimato tem por vezes sido utilizado para os mais construtivos dos fins". Mas, na internet, serve menos para se ser construtivo do que para encobrir a cobardia" (por Maureen Dowd, Jornalista, Jornal I/The New York Times, com a devida vénia)

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