quinta-feira, setembro 11, 2008

Opinião: "O ouro negro"

Vale a pena ler este artigo de opinião de Domingos Amaral, Director da revista “GQ” e hoje publicado no Diário Económico: "O ouro negro era como o petróleo era chamado num dos livros do Tintin. Nessa época, havia já a clara noção da importância da coisa e Hergé dedicou-lhe um livro e um título. Muitos anos mais tarde, a saga do petróleo continua. Num ano, apenas num ano, 365 dias pois este não era bissexto, o petróleo subiu de preço estratoesfericamente, e depois voltou a descer. Há cerca de um ano, o barril custava 70 dólares nos mercados internacionais. Há apenas quatro meses, bateu todos os recordes e chegou, salvo erro, aos 143 dólares. Agora, já desceu, e ronda os 100 dólares.O que explica isto, primeiro a subida vertiginosa e depois a descida? Curiosamente, se há quatro meses se multiplicavam os artigos nas revistas e jornais internacionais, que analisavam a subida vertiginosa do preço e a angústia generalizada que gerou no mundo, agora que o preço desce é quase impossível encontrar um artigo que nos explique o fenómeno. Nem Financial Times, nem The Economist, nem qualquer outra bíblia liberal se digna a explicar ao comum dos mortais o que se está agora a passar. Há quatro meses, a imprensa económica sugeria razões que pareciam óbvias. A primeira razão para a subida do preço era o aumento do consumo mundial, especialmente na China e na Índia. Já na altura a explicação não era convincente. Então o consumo mundial sobe 7 por cento ao ano, e o preço em oito meses sobe 100 por cento? Lamento, mas o aumento da procura não era suficiente para explicar a subida. Agora que o preço desceu, para 100 dólares, torna-se evidente que não foi o aumento súbito da procura que o fez subir.A segunda razão apresentada era a da instabilidade do Médio Oriente. O Irão, o Iraque, etc. Bom, mas se essa fosse a razão, há muitos anos que o preço devia ter disparado e isso só aconteceu o ano passado. E não consta aliás que a instabilidade tenha diminuído muito nos últimos três ou quatro meses, para explicar a descida. A “instabilidade do Médio Oriente” é pois um dado adquirido, já não faz saltitar os preços de uma forma espantosa.Irritados com a situação, os governos ocidentais chegaram a atestar baterias contra a OPEP. O problema estaria pois do lado da oferta, e foi feita uma grande pressão para a OPEP produzir mais, para estancar a subida do preço. Atrapalhada, a OPEP respondeu que pouco podia fazer, pois já estava a produzir muito. Mas, quando a OPEP culpou a “especulação desenfreada”, logo os ocidentais e a imprensa liberal lhe caíram em cima, dizendo que o mercado devia funcionar livremente e que diabolizar os especuladores era um erro, e ainda por cima fora de moda. Pois...Lamento dizer que, de facto, a OPEP tinha razão. O aumento abrupto do preço do petróleo deveu-se única e exclusivamente à especulação financeira tremenda que existiu nos mercados. Não houve nem aumento súbito da procura, nem falha da oferta. O que houve foi um volume colossal de investimentos puramente financeiros que fizeram o preço disparar. Com a profunda crise da banca e do ‘subprime’, e com o dólar muito desvalorizado, os mercados financeiros atiraram-se ao petróleo com gula e ganância, fazendo o seu preço subir até valores muito perigosos. O mundo, é bom recordá-lo, esteve à beira de um ataque de nervos. O bloqueio dos camionistas e as quebras de abastecimento de produtos essenciais foram apenas uma amostra do caos que se pode gerar.Agora, que o preço já desceu, a angústia parece ter desaparecido. Contudo, esta crise devia ter ensinado ao mundo os gravíssimos perigos que os mercados financeiros descontrolados podem gerar quando tocam num bem essencial como é o petróleo. A especulação excessiva com o petróleo não só devia ser regulamentada, como em certos casos devia mesmo ser proibida. Fazer um preço subir para o dobro, no caso de um bem essencial, e só para obter ganhos financeiros, é crime. É um crime moral e é um crime económico. Mesmo para um liberal, a liberdade dos mercados não é um valor superior a tudo o resto, nem deve estar acima da lei e da moral".

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