sexta-feira, julho 20, 2007

Desporto: a minha opinião (II)

Assisti ontem na Assembleia Legislativa, sentando na bancada dos jornalistas - que foi a minha durante mais de 15 anos (eu sei que este “pormenor” incomoda ou é motivo de comentários tontos por parte de alguns menores que deviam preocupar-se antes com o facto de andarem metidos em jogatanas de intriga e de fabricação de falsidades, permanentemente apostados a dizer mal de terceiros, enxovalhando-os só porque constituem uma “ameaça” na complicada luta pelo poder…) - a um debate sobre questões relacionadas com a politica desportiva regional, despoletado por uma iniciativa do PSD, um projecto diploma a ser enviado à Assembleia da República e intitulado “FUNDO NACIONAL DE INTEGRAÇÃO DESPORTIVA”, o qual viria a ser aprovado apenas pelo PSD e PP, apesar de visar acabar com determinadas injustiças, entre as quais a de que seja Região a suportar as viagens com a deslocação de atletas chamados às selecções nacionais. Um verdadeiro absurdo, escandaloso e intolerável.
Mas à volta deste tema, ouvi muitos argumentos, todos eles pouco convincentes, que confirmaram uma ideia preconcebida, a de que o Governo Regional da Madeira tem a obrigação de olhar, de uma forma diferente para a realidade desportiva com que nos confrontamos, pensando no futuro, não no passado ou no presente. Só Alberto João Jardim, aliás tal como ele próprio prometeu, pode viabilizar esse debate sério, livre e construtivo. Não se trata de discutir os direitos da Região em participar nos campeonatos nacionais, de esquecer os títulos conquistados pelos nossos jovens ao longo de todos estes anos, de espezinhar o papel do desporto numa sociedade como a madeirense, de ignorar o significado da política desportiva para a Autonomia regional da Madeira, desde o desporto escolar ao desporto profissional de topo. Nada disso é discutível. Creio que ninguém de bom senso questiona seja o que for a esse nível. Mas esses actos não podem branquear, manipular e condicionar seja o que for. Temos que olhar para o outro lado da moeda, para a estrutura desportiva regional que nalguns aspectos me parece caduca, para algum amadorismo reinante, para o artificialismo financeiro em que clubes e associações vivem, para uma evidente situação de hiper-dependência financeira que gerou acomodamento, dada a desnecessidade de iniciativas próprias que viabilizassem receitas complementares, para o empolamento desordenado da participação em competições nacionais nalgumas modalidades, sem critério e sem qualidade, para equipas madeirenses cuja maioria esmagadora dos praticantes nem da Região são, para o facto de haver campeonatos nacionais nalgumas modalidades, hiper-inflacionados pela participação madeirense, mas cujos títulos são depois conquistados pelas raras equipas continentais presentes e com orçamentos mais reduzidos, etc.
Neste quadro, porque nem o Desporto se pode arrogar a que tudo está bem – porque não está – o meu apelo é dirigido ao Presidente do Governo, grande responsável pelo sucesso, desportivo e competitivo, da política desportiva regional, mas que tema consciência de que só ele pode ser o dinamizador do debate, da reflexão e da mudança, caso seja esse o entendimento. Foi ele, aliás, quem há dois anos defendeu a realização de um Congresso do Desporto da Madeira, porque “nada poderia continuar na mesma”, encontro esse destinado à reflexão, ao debate de ideias, à inventariação estatística de uma realidade tantas vezes não divulgada, à apresentação de propostas concretas de mudança. Não podemos aceitar um certo marasmo, um desporto transformado numa “quinta”, onde só alguns, os que por lá andam, ditam as regras e têm direito a falar de tudo, até do que não sabem. Não se pode partir para um debate dessa natureza (e se foi Alberto João Jardim a avançar com a ideia, certamente que o fez em função de determinadas prerrogativas, não por mero acaso), sobre questões desportivas concretas, de uma forma superficial, dizendo meia dúzia de “larachas” (os dirigentes desportivos e associativos) para que tudo continue na mesma e ainda por cima julgando que foram eles que descobriram o “pólo norte”, como se o desporto madeirense fosse só virtudes e não existissem futilidades.
Eu acho lamentável que o parlamento madeirense tenha que discutir a questão dos pagamentos das viagens das equipas madeirenses – não sei o que se passa com as formações açorianas – que vão às provas nacionais e que os atletas chamados às selecções regionais, insisto nesta questão, sejam pagos pelo orçamento regional para representarem o país. Acho tudo isto uma vergonha, um atentado à nossa dignidade e que, por isso, há muito deveria ter motivado o protesto dos clubes e das federações, o que não aconteceu. A continuidade territorial não se discute, nem pode ser apenas uma “coisa” a constar de meia dúzia de papéis, sem que depois Lisboa cumpra as suas obrigações neste domínio. A continuidade territorial num Estado tão doentiamente apostado em marcar a sua soberania, é um dever desse Estado mas coloca-lhe responsabilidades, deveres e compromissos, que não pode ignorar. Não podemos ter portugueses de segunda e cidadãos de primeira. Mas a verdade é que me apercebo do silêncio associativo, porque as pessoas estão “noutra”. Duvido que os madeirenses em geral, a opinião pública, tenha cabal conhecimento do que se passa. Mas quando se cortam as verbas, até parece que o céu desaba sobre as pessoas, e tudo muda. Não contem comigo, já uma vez afirmei aqui, para dizer que o desporto madeirense é um ”paraíso” só porque isso seria do agradado da nomenclatura. O que eu penso é que Alberto João Jardim tem toda a legitimidade para preparar com todo o cuidado e empenho esse Congresso do Desporto, que ele anunciou, virando-o para o futuro, tendo o presente como ponto de partida. Não se vive de saudosismos. Um Congresso que se realize fora do “esquema” montado, sem uma intervenção controleira e castradora do “establishment” desportivo local. O sistema não fomenta o debate sobre si próprio, muito menos em iniciativas que exigem seriedade e a coragem de “chamar os bois pelos nomes”. Se a Região diz que não tem recursos financeiros para determinadas situações, não creio que deva continuar a insistir na manutenção de certos estatutos, ainda por cima assentes nos apoios financeiros que certamente não podem continuar na mesma, como se as limitações orçamentais da Região fossem reais para umas “coisas” mas passassem ao lado do desporto.
Uma nota final: estou-me borrifando – repito, borrifando – para as habituais “aves de rapina” que por aí andam à procura de confusão, ou que se limitam a atacar quem aponta o dedo, seja ao que for, de forma construtiva. O Presidente do Governo e líder do PSD foi o primeiro a chamar a atenção para a necessidade de combater a arrogância, o autoritarismo, o auto-convencimento, etc. E foi ele, também, o primeiro a dizer que nada pode continuar na mesma… (publicado hoje no Jornal da Madeira)

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