O que se passa no controverso Regime Jurídico de Apoio à Cultura nos Açores é o padrão histórico do governo de coligação nos últimos dois anos, sempre envolto em trapalhadas por falta de cuidado nas medidas e em ouvir a cidadania. O Governo dos Açores cometeu um pecado capital a partir do momento em que se fechou à sociedade, ocupado que está nas suas tricas internas, sempre em estado de negação, resultando nos piores falhanços de que há memória na administração regional: falhou na SATA, falhou no HDES, falhou no turismo e falha no custo de vida.
O FALHANÇO DA SATA - Iam "salvar a SATA", transformando-a numa transportadora muito diferente do tempo dos socialistas. Acabaram por enterrá-la ainda mais, intrometeram-se na sua gestão como faziam "os outros" e transformaram a SATA numa segunda Saudaçor de má memória. A dívida acumulada no tempo desta coligação já é maior do que a deixada pelo governo do PS. Perdeu-se tempo no processo de privatização, voltou tudo à estaca zero e só agora é que aprenderam como se faz, copiando genericamente o processo da TAP.
A SATA é um caso perdido, que os contribuintes vão
ter que gemer, mas já podem ir pondo as barbas de molho para outra SATA ou
outra Saudaçor que nos vai cair em cima: o passivo da Lotaçor e dos campos de
golfe vai a caminho de outro tanto para continuar a dar cabo das finanças
públicas. Só com metade das dívidas (dava para construir mais de 2 mil casas)
resolvíamos grande parte do problema da habitação nos Açores.
O FALHANÇO DO HDES - Por cada ano de atraso na
recuperação do Hospital de Ponta Delgada, o novo hospital da Madeira avançou
com novas alas, para albergar 503 camas de internamento geral, 79 de cuidados
intensivos (incluindo 19 para AVC) e 25 para saúde mental, 11 salas de bloco
operatório, uma sala cirúrgica híbrida,
estará equipado com sistemas de robótica, inteligência artificial e serviços
totalmente digitalizados, e funcionará em articulação direta com a Universidade
da Madeira e o seu curso de Medicina para incentivar a investigação clínica
regional.
Por cá, ainda se discute o tamanho da recuperação,
alterações a projectos, módulo permanente ou temporário, para além da discussão
inócua se é central, universitário ou fim de linha.
Como se não bastasse, alguém teve a triste ideia
(felizmente corrigida a tempo) de sugerir enfermarias mistas, quando algumas
delas (M3, M4, C3 e C4), todas na ala poente, estão fechadas a cadeado. Duas
delas foram objecto de melhorias há três anos, com quartos de 6 camas divididos
em duas de três camas, substituição de pavimentos, alargamento das portas e
outras melhorias.
No modular ("de nível europeu", como se
disse na altura), o internamento tem três enfermarias de 20 camas cada em
espaço aberto, mistas, com doentes separados por biombos. Quase voltamos à
época do velho Hospital de S. José... e nada de obras!
O FALHANÇO DO TURISMO - Aqui, voltamos, também, à
época do século XX, só com SATA e TAP. O turismo está a crescer em todo o lado,
menos entre nós, apesar da narrativa oficial.
“Há vida para lá da Ryanair”, veio dizer o
Secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, ajudando à festa dos de cá, que
também diziam que a SATA e a TAP iriam reforçar a operação para substituir a
low cost.
A ingenuidade oficial é de tal ordem que até
garantiram estar a trabalhar para atrair companhias aéreas e captar novos
mercados para os Açores, anunciando que, além do reforço de EUA e Alemanha,
também querem atrair turismo e recursos humanos da América do Sul!
Não precisamos só de rotas para a América e
Alemanha, precisamos de concorrência nas nossas rotas principais e vitais com o
Continente. É nesta que estamos a falhar mais, como demonstram os números. Com
preços insuportáveis, os passageiros estão a financiar as companhias públicas
com a complecência de um Estado ignorante, que nem percebeu que lhe vai sair
mais caro este monopólio encapotado do que pagar a operação das companhias de
baixo custo.
Desde que o turismo entrou em queda, a economia
açoriana também sofreu um abrandamento. Desde há alguns anos que o Indicador da
Actividade Económica não descia abaixo dos 1%, como está a acontecer este ano.
As perspectivas são para piorar.
O FALHANÇO NO CUSTO DE VIDA - Com a economia a
sofrer desgaste, mesmo com o forte apoio do PRR, já são visíveis as
dificuldades das famílias no dia-a-dia.
O "pacote de medidas" para combater o
aumento dos combustíveis chegou, mais uma vez, tarde. Exactamente 40 dias
depois do governo da Madeira já ter implementado o seu.
Agir apenas quando o cenário é de ruptura sugere
uma gestão de crise reativa, e não uma estratégia de antecipação, que é o que
falta sempre a este governo.
Além disso, muitas vezes, estas descidas fiscais
são rapidamente "comidas" pela volatilidade dos preços, com o efeito
da inflação, existindo o risco de o cidadão sentir que o governo apenas devolve
uma pequena parte do que já arrecadou com a subida anterior das receitas
fiscais sobre os combustíveis.
Para muitos pequenos produtores, estas medidas
podem já não ir a tempo de evitar o endividamento ou o encerramento de
atividades que são o pilar da coesão territorial.
A própria promessa de acionar o CREDITHAB e
reforçar a eficiência energética pelo programa Açores 2030 é estruturalmente
correta, contudo é sabido que há candidaturas e obras de eficiência energética
que demoram meses ou anos a ter impacto real nas facturas das famílias.
As famílias que sofrem de privação material hoje
precisam de liquidez imediata, não apenas de promessas de apoio ao crédito
futuro.
Num cenário de instabilidade internacional
prolongada, as famílias e as empresas açorianas já acumulam meses de perdas
financeiras asfixiantes.
Não podemos continuar a apagar o fogo, quando o
incêndio já consumiu tudo.
São muitos falhanços seguidos em apenas metade de
uma legislatura.
Como se não bastassem, assistimos incrédulos ao
episódio do Presidente da Federação Agrícola, reunindo em Lisboa com o Ministro
da Agricultura, para resolverem a extensão dos apoios nacionais aos
agricultores açorianos, iniciativa que competia ao Governo Regional. Uma ofensa
ao governo próprio da Região, sob a nulidade total do Secretário Regional da
Agricultura, entretido nas touradas, e a submissão, mais uma vez, do Presidente
do Governo, que acha isto tudo normal. Temos, literalmente, uma Autonomia de
rastos, 50 anos depois.
Na oposição não vamos melhor. O líder do PS
regional resolveu trazer aos Açores o seu líder nacional para iniciar a rota da
economia do mar e fazer juras à gestão partilhada do nosso mar. A ironia disto
tudo é que José Luís Carneiro pertenceu ao governo socialista que, no último
dia da governação, enviou ao Tribunal Constitucional o pedido de fiscalização
sucessiva das alterações à Lei do Mar, exactamente sobre a gestão partilhada!
Já nem há decoro.
No meio de tanta desgraça política é a economia
regional, empresas e famílias, que sofrem.
Sem uma inversão de marcha que proteja a economia, especialmente o sector do turismo, motor dessa economia, os Açores arriscam-se a passar de um caso de sucesso a um cenário de estagnação, onde nem os números do PIB conseguirão esconder o rasto de uma gestão desastrosa (texto do jornalista Osvaldo Cabral, Junho 2026, Açoriano Oriental, Diário Insular, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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