quarta-feira, março 25, 2026

Como as cidades europeias podem equilibrar o turismo crescente com a habitação acessível?


Bruxelas acolheu na semana passada um debate sobre como as cidades europeias podem conciliar o aumento do turismo com a necessidade de habitação acessível para os residentes, num evento que reuniu decisores políticos, urbanistas e representantes do setor privado. A discussão centrou-se na forma como os centros urbanos podem permanecer atrativos e acolhedores tanto para visitantes como para moradores, face ao crescimento populacional e ao aumento recorde do turismo.

O debate, realizado no TheMerode, em Bruxelas, integrou intervenções de figuras como Pierpaolo Settembri, Subchefe de Gabinete da Comissária Europeia para Transportes Sustentáveis e Turismo, Carlo Ratti, diretor do MIT Senseable City Lab, e Nathan Blecharczyk, cofundador e diretor de Estratégia da Airbnb. A análise foi contextualizada pelo aumento contínuo do turismo na União Europeia, que registou 3,1 mil milhões de dormidas em 2025, mais 61,5 milhões do que no ano anterior, segundo dados da Eurostat. Paralelamente, quase três quartos dos europeus vivem em áreas urbanas, tendência que continuará a crescer nas próximas décadas.

Matthew Baldwin, responsável pela European Commission’s Housing Task Force, destacou que “as cidades estão no epicentro da crise de acessibilidade à habitação”, alertando que a subida dos preços já não afeta apenas famílias de baixos rendimentos, mas também profissionais médios como professores, polícias e assistentes sociais, cujas carreiras e qualidade de vida ficam comprometidas.

Baldwin referiu que fatores como décadas de construção insuficiente, restrições de terreno e dificuldades de financiamento têm limitado a oferta habitacional nas cidades, provocando uma subida significativa dos preços. “A oferta não acompanhou a procura crescente, especialmente nas cidades”, sublinhou, destacando os processos de planeamento e licenciamento como desafios críticos. A emissão de licenças de construção caiu cerca de 21% na Europa, segundo Baldwin.

Jan-Christoph Oetjen, eurodeputado do Renew Europe, argumentou que a expansão da oferta habitacional requer a eliminação de barreiras administrativas à construção e à renovação, posição reforçada por Frank Hovorka, representante da Build Europe, que destacou a escassez de terrenos e as limitações regulatórias como fatores que restringem o desenvolvimento urbano.

Alugueres de curta duração e gestão do turismo

O debate abordou também o papel dos alugueres de curta duração, com os participantes a concordarem que, quando geridos eficazmente, podem ajudar a distribuir o turismo além das zonas centrais e a complementar os rendimentos dos residentes.

Baldwin afirmou: “Não estamos apenas a tratar dos alugueres de curta duração. Sabemos que existem outros problemas na oferta e na procura de habitação, particularmente nas cidades. Estamos a ouvir as cidades, a indústria e todos os interessados”.

Maria Regina Maroncelli Florio, vice-presidente da European Large Family Confederation, reforçou que os decisores políticos devem ter em conta as necessidades das famílias e dos residentes de longo prazo ao definirem estratégias de habitação urbana. Garantir acesso à habitação social e preservar espaços comunitários deve continuar a ser uma prioridade, sobretudo à medida que as mudanças demográficas moldam as cidades europeias.

Cidades como sistemas interligados

Patrick Bontick, CEO da visit.Brussels, destacou que o problema não é apenas o “sobreturismo”, mas sim a distribuição desigual de visitantes por bairros e épocas do ano. “Não há sobreturismo, mas turismo desbalanceado”, afirmou, salientando que melhores dados sobre os fluxos turísticos podem permitir às cidades gerir de forma mais eficaz a oferta de alojamento.

Juliette Langlais, diretora de Políticas Públicas da Airbnb, apelou a uma abordagem integrada, considerando habitação, mobilidade, turismo e infraestruturas como partes interligadas de um mesmo ecossistema. “Partilha de dados com as autoridades. Quadros transparentes. Cidades funcionam como sistemas interligados — a governação deve fazer o mesmo”, explicou.

Tecnologias e dados ao serviço das cidades

Carlo Ratti destacou o papel das novas tecnologias e dos dados para compreender em tempo real o funcionamento urbano, desde padrões de mobilidade até fluxos turísticos. Estas informações permitem respostas rápidas e coordenadas, desde a mobilidade partilhada à otimização do transporte.

Baldwin reforçou a importância da transparência transacional no setor habitacional, como forma de permitir respostas dinâmicas aos problemas emergentes. Hovorka acrescentou que a regulação urbana deve assumir uma perspectiva dinâmica, tratando as cidades como fluxos de pessoas, turistas, cidadãos e bens, para maximizar a utilização da infraestrutura.

O debate serviu também para lançar a Future of Cities Coalition, iniciativa pan-europeia destinada a fomentar diálogo intersetorial e a promover abordagens coordenadas para habitação, turismo e planeamento urbano. O objetivo é incentivar políticas integradas que considerem a cidade como um sistema único, reforçando a colaboração entre decisores, investigadores e indústria.

À medida que as cidades europeias continuam a crescer, o debate em Bruxelas destacou um desafio central: apoiar o crescimento urbano de forma que fortaleça as comunidades, sem sobrecarregar os residentes nem comprometer a qualidade de vida (Executive Digest, texto do jornalista Pedro Gonçalves)

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