sábado, janeiro 16, 2010

Opinião: "Como poderá o jornalismo profissional sobreviver à Internet?"

O presidente do grupo Independent News & Media e da Associação Mundial de Jornais chama a atenção para o que está em jogo na sociedade e na democracia:
"A Internet gerou oportunidades sem precedentes para novos meios de comunicação social e novos conteúdos. Porém, sem o adequado respeito pelos direitos de autor online, o futuro de conteúdos fiáveis e de qualidade — e, consequentemente, o futuro do jornalismo profissional — é muito incerto. Com personalidades poderosas e grandes interesses comerciais no centro do debate internacional em curso — e cada vez mais aceso — sobre direitos de autor e conteúdos online, é fácil esquecermo-nos do que está em jogo para todos nós, enquanto consumidores, e, sobretudo, para a sociedade e para a democracia. Mesmo num mundo de comunicação global instantânea, é extremamente dispendioso criar e fornecer conteúdos fiáveis e com qualidade e autoridade. Como é razoável, os jornalistas e os repórteres que escrevem, configuram e relatam as notícias, que nos fornecem a informação e nos entretêm, esperam ser pagos pelo seu trabalho! Por outro lado, as infra-estruturas técnicas de que as empresas de comunicação social carecem para satisfazer as expectativas dos consumidores também não são gratuitas...
A Internet veio proporcionar uma plataforma extraordinária para o fornecimento de informação e existem potencialidades para modelos de negócio, conteúdos e plataformas ilimitados e com os quais nem sequer sonhamos ainda. Quem sabe como será a Internet daqui a 20 anos?
Eu sei como será se as empresas jornalísticas não forem capazes de proteger os seus direitos de autor. Uma Internet sem o permanente acréscimo de riqueza e diversidade de conteúdos que nos habituámos a esperar será, realmente, um lugar muito desinteressante. Se quisermos que esses conteúdos continuem a ser ricos e diversos, há que encontrar novos modelos de negócio online para os órgãos de comunicação social que gerem um retorno adequado para os investimentos que teremos de fazer. Para investirmos e inovarmos ao criar esses novos modelos de negócio, temos de saber que os nossos conteúdos não poderão ser simplesmente explorados por terceiros sem a nossa autorização e à nossa custa. Precisamos de ter a protecção de direitos de autor na Internet que permitiu que, sem ela, uma indústria criativa, inovadora, vigorosa e diversificada florescesse ao longo dos últimos três séculos.
Ter retorno do investimento em conteúdos — quer estejamos a falar de notícias, cultura, opinião ou entretenimento — depende de podermos escolher como esses conteúdos vão ser distribuídos, utilizados e, de uma forma ou de outra, pagos. Uma coisa é certa: se não protegermos o valor dos nossos conteúdos, os critérios jornalísticos que tão importantes são para os nossos leitores e para a sociedade em geral deixarão de ser financeiramente viáveis.
Segundo a PricewaterhouseCoopers, numa indústria de publicidade na imprensa que movimentou no ano passado 182 mil milhões de dólares, as receitas digitais dos jornais ficaram aquém dos 6 mil milhões de dólares. Trata-se de um problema grave. O que tem então de acontecer? Em primeiro lugar, não precisamos de uma mudança fundamental na forma como a legislação sobre direitos de autor funciona; ela continua a ser adequada às necessidades, pelo menos teoricamente. O que é necessário — e agora se tornou urgente — é a implementação de uma infra-estrutura abrangente para a gestão automática de direitos de autor online. O ACAP (Protocolo de Acesso Automatizado a Conteúdos) visa fornecer uma componente modesta (embora essencial) dessa infra-estrutura: uma ferramenta que possibilite a comunicação de autorizações. O ACAP é uma norma aberta a todos os proprietários de conteúdos, grandes e pequenos, que lhes permite comunicar as condições de utilização dos mesmos numa linguagem que as máquinas possam compreender. O ACAP destina-se a ser universal; não é propriedade de nenhuma empresa, não se limita a órgãos de comunicação social específicos, não diz a ninguém que modelo de negócio deve ter. Na verdade, nem deveria suscitar controvérsia... Todas as pessoas que são pró-direitos de autor deveriam, naturalmente, ser pró-ACAP. O ACAP é apenas uma ferramenta cuja finalidade é fazer funcionar online as regras de direitos de autor existentes — as regras existentes, não novas regras. Calar não deveria significar consentir. Nada nem ninguém que ande a pescar de arrasto pelo ciberespaço deve presumir que todos os conteúdos que lá se encontrem são seus.
Com a flexibilidade que o ACAP proporciona, não haveria limites para novas ideias sobre conteúdos online. O ACAP define um quadro positivo e aberto para um modelo mais equitativo e transparente de gestão de conteúdos e interacção comercial na Internet. É apenas isso. Não há que temê-lo. Os editores e quaisquer fornecedores de conteúdos online têm certamente o direito de determinar como os seus conteúdos vão ser explorados por outrem. Lamentavelmente, a resposta mecânica é, com demasiada frequência: “Não se queixem. Não estamos a dar-vos o tráfego?” É pena, mas não podemos pegar no tráfego, depositá-lo no banco e movimentá-lo para pagar os ordenados aos jornalistas. Há uma relação directa entre o sucesso comercial dos editores, o número e a competência dos jornalistas e a quantidade e qualidade da informação disponibilizada todos os dias, em todos os lugares e em todas as plataformas. Só restaurando o respeito pelos direitos de autor e implementando-os efectivamente na Internet é que o jornalismo (e inúmeras outras formas de criatividade e investimento) poderá encontrar novos modos de funcionamento, novas audiências e uma nova esperança de vida para o futuro". (por Gavin O’Reilly)

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