"Paulo Portas foi o principal penalizado por esta
espécie de crise política à portuguesa - mais depressa chamaria a tudo o que se
passou de ópera bufa protagonizada por garotos irresponsáveis e medíocres - que
custou à Europa, segundo as previsões dos especialistas, quase o que nos custou
o BPN. Estamos a falar de 6 a 7 mil milhões de euros, incluindo prejuízos
bolsistas da banca e agravamento do endividamento do país devido ao aumento das
taxas de juro. Um escândalo. Acredito que Portas terá decidido sair do governo
de coligação, onde era 3ª figura e mais tarde foi promovido a 2ª figura, depois
da saída de Gaspar, porque percebeu que, devido ao ricochete causado pela sua
demissão - curiosamente quando Gaspar abandonou o executivo os juros quase que
nem pestanejaram... - deixou de ter
condições pessoais e políticas para manter-se no lugar e, mais do que isso,
deixou de ter condições para ser olhado pelos parceiros europeus, sobretudo
esses, da mesma forma que o faziam antes deste estranho episódio da demissão.
Portas ao fazer o que fez, da
forma como fez, independentemente de poder ter razões de queixa da forma como
foi tratado pelo PSD e por Passos, acaba por ser o grande responsável por esta
instabilidade política. Não deu uma palavra prévia aos seus colegas da direção
do CDS, ignorou qual a opinião dos órgãos dirigentes do CDS relativamente á sua
decisão, causou um turbilhão imenso nas bolsas que custaram mais de 7 mil
milhões de euros ao país, deixou de ter condições para manter-se no governo e,
em última instancia, de ter condições para continuar a liderar o CDS. Aliás
penso que portas nos reservará uma surpresa qualquer no congresso deste
fim-de-semana.
Esta espécie de crise à
portuguesa é uma vergonha. E estou completamente à vontade porque tenho mantido
em relação a este governo de coligação, particularmente em relação a Passos e a
Gaspar, uma opinião crítica que reafirmo e mantenho, por tudo o que eles
fizeram ao país, aos portugueses, aos idosos, aos jovens, aos desempregados,
etc.
Tenho, uma vez mais criticar o
patético Gaspar, não só por não ter a noção da realidade do país que foi
construindo com a sua política radical e falhada de austeridade criminosa e de
roubo dos salários – por isso, o que se passou num supermercado foi, felizmente
para ele, um mero episódio comparativamente ao que poderia ter acontecido ali,
naquele momento - mas também pela forma como se demitiu sem esquecer a absurda
e patética carta com recados, inclusive sobre técnicas de liderança.
Imagine-se, o funcionário bancário Gaspar a falar de liderança o que por si só,
demonstra bem o carácter de quem se foi embora, e felizmente que o fez. O que
critico nele é a falta de honestidade e a ausência de integridade num indivíduo
que andou nestes dois anos a pressionar, indevida e desonestamente, Passos
Coelho com intoleráveis pedidos de demissão, ao que se soube duas ou três
vezes, como se se divertisse em alternar um alegado frete no exercício das funções
governativas que exercia com uma criminosa dependência face aos capitalistas
europeus, aos seus patrões da banca europeia e aos alemães tão do seu agrado. Nem
sei mesmo - pela postura adotada, pela arrogância, pelo autoconvencimento
idiota, pelo pedantismo evidenciado, pela mania de superioridade e pela falsa
auréola de uma competência que nunca teve e que se revelou exatamente o
contrário - se Gaspar terá nascido ou não, temporalmente tarde demais...
Aliás, na carta que fez
divulgar, Gaspar esqueceu-se do essencial – lembro que escrevi neste espaço que
estas demissões tinham na sua origem motivos que não tinham sido devidamente
clarificados e que a verdade provavelmente nunca seria conhecida – como depois
ficamos a saber pela notícia de um jornal que aqui recordo:
"Vítor Gaspar e a mulher
viveram um autêntico pesadelo num supermercado. A história foi confirmada ao i
por dois ex-membros do governo. Foi há duas semanas em Lisboa. O ministro das
Finanças, que, a exemplo da grande maioria dos membros do governo, andava
sempre com segurança pessoal, decidiu ir às compras com a mulher. Sozinhos, sem
qualquer elemento da PSP. As compras no supermercado correm normalmente, sem
sobressaltos. Mas a presença de um dos ministros mais odiados do governo no
estabelecimento começou a correr de boca em boca. Os olhares silenciosos dos
clientes ao casal não faziam prever qualquer reação mais desagradável ou
violenta. Mas tudo mudou quando Vítor Gaspar e a mulher acabaram as compras e
foram para a fila de uma das caixas. Um cliente mais exaltado fez um comentário
alto, outro atirou um insulto e de um momento para o outro tudo ficou
descontrolado. Os seguranças do supermercado foram alertados pelos gritos dos
clientes e aproximaram-se do casal para evitar males maiores. Pagas as compras,
Gaspar e a mulher dirigiram-se para a saída protegidos pelos seguranças, que
não conseguiram evitar as cuspidelas de outros clientes, misturadas com
insultos e tentativas de agressão. Mal chegou a casa, Vítor Gaspar telefonou a
Pedro Passos Coelho. Por uma razão. Tinha chegado a hora de o primeiro-ministro
acelerar a sua saída do governo. Como é sabido, o ministro das Finanças já
tinha pedido a demissão duas vezes. Ficou por razões que fez questão de
explicar na carta de demissão e que, em última análise, se prendiam com as
negociações com a tróica e com o Eurogrupo. Era importante, de acordo com
Gaspar, fechar a difícil sétima avaliação, garantir a tranche de 2 mil milhões
de euros e a extensão das maturidades da dívida portuguesa aos fundos europeus
por sete anos. Nesse telefonema, feito a poucos dias da reunião do Eurogrupo de
20 de Junho, em que ficou fechada a sétima avaliação, Vítor Gaspar fez questão
de frisar que a sua decisão era irreversível e que a saída teria de ser rápida.
Por todas as razões. Até pela família"
Portanto, satisfeito pela
demissão de semelhante criatura, refugio-me no princípio de rei-morto,
rei-posto. O legado de Gaspar salvo raríssimas exceções, é criminoso, a
destruição do país está à vista de todos, a pobreza e a exclusão social
estão em todos as esquinas, a emigração volta a bater recordes, atingindo em
grande medida os nossos jovens, o desemprego é a maior vergonha deste país, a
frustração e o drama dos jovens portugueses é o maior atestado de incompetência
a um ministro que falhou todas as previsões, o roubo descarado dos salários por
ele fomentado, tal como, e sobretudo, a roubalheira nas reformas e nas pensões,
tudo isso é a demonstração da hipocrisia de um indivíduo sem dignidade.
Impreparado para exercer funções públicas, e que só ascendeu a ministro pela conjugação
do falhanço de outras escolhas e às descaradas imposições dos credores que queriam ver no lugar
alguém que lhes desse garantias de que encheriam a pança.
Já em relação ao que se passou com Paulo Portas - e
nem falo do CDS-Madeira que na sua ânsia de protagonismo, de ganhar espaço mediático
com declarações pretensamente bombásticas e "vendáveis", acabou por ver-se envolvido numa
contradição, dizendo e defendendo exatamente o contrário do que o CDS nacional defendia
e queria... - começo por elogiar, coisa rara, a forma como Passos Coelho,
independentemente de erros cometidos - e cometeu diversos e perigosos - na
gestão de uma relação política complexa e difícil com o seu parceiro de
coligação, geriu de forma brilhante o ricochete causado pelo anúncio da
demissão de Portas do governo. Desde logo mantendo a agenda política, a que se
junta a recusa da demissão que apenas precipitaria uma crise política que não
pode rebentar apenas por causa das diatribes, dos amuos ou de uma decisão
precipitada de uma pessoa (Portas), hoje perfeitamente comprovada. Depois, pela
forma como politicamente "entalou" o CDS e mais concretamente
Portas, responsabilizando-os pela crise política, caso fosse esse o desfecho de
tudo o que se passou, o que ajuda a perceber a travagem do CDS e o recuo na sua
voracidade crítica. Isto nada tem a ver com o facto de eu pensar que a solução agora
encontrada, depois de dois anos de desencontros, não ter a consistência que
seria desejável e de acreditar que novas crises neste relacionamento complicado
podem surgir, pelo menos até ao orçamento de estado para 2014. Acredito que a
proposta de orçamento de estado para o próximo ano, mais o tão falado programa
de redução da despesa pública em cerca de 5 mil milhões de euros, serão dois
acontecimentos que poderão ditar o nosso futuro e o futuro político do país" (LFM-JM)