sexta-feira, julho 05, 2013

Opinião: ELEIÇÕES…



"A esquerda reclama eleições antecipadas, agora com redobrada "ferocidade", embora tenha percebido que Cavaco Silva - e daí a razão dos ataques e das críticas contundentes ao Presidente da República - não tomará a iniciativa de provocar uma crise política, aliás tal como referiu no seu discurso do 25 de Abril e que remete para a Assembleia da República, e para as suas competências constitucionais, a responsabilidade pela manutenção ou pela queda de qualquer governo. Penso que Cavaco Silva tomou a decisão, provavelmente já há algum tempo, de que a estabilidade política deve ser preservada pelo menos até Junho do próximo ano, quando a tróica abandonar o país, o que não implica que o governo de coligação, na ótica do presidente, prossiga com a sua política e com a sua teimosia cega.
Estamos a falar de uma esquerda que nas eleições de 5 de Junho de 2011 não foi além de 41,1 por cento, com 2.298.993 votos (1.568.168 do PS) e dos 98 deputados, menos que os 108 deputados do PSD e muito menos que o somatório dos deputados da coligação PSD-CDS, que totalizam 132 mandatos. Percebe-se facilmente este desespero da esquerda, aliás concertado e devidamente alimentado por alguns meios de comunicação, particularmente televisões, que mantem em relação ao governo de coligação uma posição editorial hostil. O que não me incomoda rigorosamente nada, desde que essa opção seja assumida e não disfarçada. Inclusivamente antigos presidentes da república socialistas alinharam na procissão de reclamação de eleições antecipadas, disputando entre si quem levaria o "andor" às costas.
Jorge Sampaio foi um deles e até foi ao cúmulo de defender eleições, de duvidar que delas resulte uma solução consistente e preconizou o envolvimento do PSD, PS e CDS num acordo alargado entre os três partidos que garanta estabilidade social. O que Sampaio não disse foi por que razão essa visão alargada de consenso político, não se aplica neste momento... Eu explico. Porque tal como Seguro, Sampaio quer que seja o PS, na perspetiva de pretenso partido mais votado - atenção que as eleições ainda não se realizaram... - a liderar esse processo, porque não quererem consensos com um PS submetido a um cenário político onde o PSD é o partido maioritário. Aliás Seguro sabe que não terá maioria absoluta nenhuma apesar de ser natural que o PS lidere as sondagens. Com tantos tiros-nos-pés, com tanta austeridade, com tanta roubalheira nos salários, pensões e reformas, com tanto desemprego, outro desfecho não seria possível. Sentado de sofá o PS nem precisa de pestanejar para aparecer a liderar as sondagens, por demérito da maioria no poder e não por qualquer mérito dos socialistas e do seu líder.
Resta saber depois, com o decorrer da campanha eleitoral, quando a memória curta dos portugueses for sacudida e confrontada com a necessidade de lembrar tudo o que se passou em Portugal desde 2005, quando nessa campanha eleitoral todos os demais partidos de esquerda, temendo serem engolidos eleitoralmente pelos socialistas, assumirem também um combate ao branqueamento de responsabilidades, tão vergonhoso que até parece que Sócrates não esteve no poder entre 2005 e 2011.
A esquerda está frenética e insistentemente reivindicativa porque percebe que PSD e CDS não querem ir para eleições, percebe que as autárquicas podem nem propiciar a tão propalada vitória colossal aos socialistas - e na altura veremos - e percebe que não vamos continuar neste ambiente de recessão e de depressão social, porque certamente a partir de 2014 alguma inversão do caminho terá que acontecer, numa altura em que se fala na dinamização da economia e na necessidade de repensar toda a política fiscal que massacra e rouba os cidadãos e as empresas.
No plano político os problemas da esquerda são outros. As pessoas precisam de ter presente que toda esta gritaria nesta espécie de crise política, sobretudo quando a esquerda política reclama concertadamente a dissolução da Assembleia da República, tem a ver com figuras regimentais esgotadas e com a configuração do parlamento nacional a qual impede qualquer queda do governo de coligação sem o envolvimento do CDS. PS, PC e Bloco de Esquerda somam um total de 98 deputados, menos 10 que os 108 deputados do PSD pelo que mesmo que CDS celebrasse apenas um acordo político com o PSD de incidência parlamentar, os seus 24 deputados dificilmente votariam ao lado da esquerda contra documentos-chave do governo, o que me leva a acreditar que provavelmente a legislatura vai prolongar-se até Junho de 2014, altura em que a tróica abandona o país.
Outro dado que as pessoas precisam de saber - e que provavelmente ajuda a perceber as palavras de Cavaco Silva quando lembrou que cabe à Assembleia da República derrubar ou não os governos - prende-se com o facto de que PS, PCP e Bloco de Esquerda terem esgotado a possibilidade de apresentarem nesta sessão legislativa uma moção de censura ao governo de coligação, possibilidade que neste momento está apenas ao dispor dos Verdes, que não passam de um apêndice envergonhado do PCP - já que a reboque dos comunistas conseguem representação parlamentar que, caso concorressem sozinhos, nunca teriam. O problema é que a esquerda já percebeu que o CDS nunca votará ao seu lado, muito menos uma moção de censura apostada na queda do governo. Ou seja, vamos ter mais gritaria nas ruas, a cargo de submissas centrais sindicais, partidariamente falando, que não passam de meras correias de transmissão do PCP ou do PS o que ajuda a perceber a crise do sindicalismo em Portugal. Aliás esta semana ficamos a saber por um jornal, que o estado é fiador da UGT desde 1996 já que a conta geral do Estado de 2012 renova a garantia de 2,6 milhões de euros a favor da UGT que tem quatro empréstimos no valor global de 3 milhões de euros.
Acresce que este PS de Seguro sofre de uma tremenda e lamentável memória curta. Para além de alimentarem de forma mentirosa a ideia de que não tiveram responsabilidades pela situação em que nos encontramos, que defendiam outro tipo de austeridade, menos radical, de esconderem que não foi o governo socialista de Sócrates o rosto da falência do país, que não foi o governo socialista de Sócrates a ir a correr pedir ajuda financeira externa, que não foi o governo socialista de Sócrates a negociar o memorando de entendimento com a tróica que traçou as linhas gerais da austeridade que, depois, este governo de coligação se encarregou, lamentavelmente e de forma absolutamente criminosa, de ampliar, ignorando as consequências dessa palermice nos portugueses, passam uma esponja na história política do país.
Como o PS tem a sua própria memória enferrujada, que lhe serve para tentar construir uma enorme história da carochinha à volta de recentes situações caricatas de demissões de ministros, lembraria o que ocorreu com o XVII governo constitucional liderado por José Sócrates - e que esteve em funções antes do governo seguinte que é a imagem da falência do país:
- o governo socialista de Sócrates tomou posse em 12 de Março de 2005;
- a 20 de Julho de 2005, demitiu-se o então ministro de estado e das finanças Luís Campos e Cunha, quatro meses depois de tomar posse. Segundo uma fonte oficial, terá sido o próprio ministro a pedir a sua substituição, alegando razões pessoais, familiares e cansaço. Foi substituído por Teixeira dos Santos;
- a 30 de Junho de 2006, o então ministro de estado e dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, demitiu-se, sendo substituído por Luís Amado;
- entre 2005 e 2009 este governo socialista de Sócrates foi objeto ainda de mais 11 mudanças, e apesar dos socialistas disporem de maioria absoluta confortável no parlamento - embora inferior ao somatório dos atuais deputados do PSD e do CDS - não tenho nos meus apontamentos nada que indicie que alguém tivesse andado a reclamar eleições antecipadas. Provavelmente fá-lo-iam se o país estivesse intervencionado e sob protetorado, como está agora" (LFM-JM)