"A esquerda
reclama eleições antecipadas, agora com redobrada "ferocidade",
embora tenha percebido que Cavaco Silva - e daí a razão dos ataques e das
críticas contundentes ao Presidente da República - não tomará a iniciativa de
provocar uma crise política, aliás tal como referiu no seu discurso do 25 de
Abril e que remete para a Assembleia da República, e para as suas competências
constitucionais, a responsabilidade pela manutenção ou pela queda de qualquer
governo. Penso que Cavaco Silva tomou a decisão, provavelmente já há algum
tempo, de que a estabilidade política deve ser preservada pelo menos até Junho
do próximo ano, quando a tróica abandonar o país, o que não implica que o
governo de coligação, na ótica do presidente, prossiga com a sua política e com
a sua teimosia cega.
Estamos a falar de uma esquerda que nas eleições de 5 de Junho de
2011 não foi além de 41,1 por cento, com 2.298.993 votos (1.568.168 do PS) e dos 98 deputados, menos que os
108 deputados do PSD e muito menos que o somatório dos deputados da coligação
PSD-CDS, que totalizam 132 mandatos. Percebe-se facilmente este
desespero da esquerda, aliás concertado e devidamente alimentado por alguns
meios de comunicação, particularmente televisões, que mantem em relação ao
governo de coligação uma posição editorial hostil. O que não me incomoda
rigorosamente nada, desde que essa opção seja assumida e não disfarçada.
Inclusivamente antigos presidentes da república socialistas alinharam na
procissão de reclamação de eleições antecipadas, disputando entre si quem
levaria o "andor" às costas.
Jorge Sampaio foi um deles e até foi ao cúmulo de defender
eleições, de duvidar que delas resulte uma solução consistente e preconizou o
envolvimento do PSD, PS e CDS num acordo alargado entre os três partidos que
garanta estabilidade social. O que Sampaio não disse foi por que razão essa
visão alargada de consenso político, não se aplica neste momento... Eu explico.
Porque tal como Seguro, Sampaio quer que seja o PS, na perspetiva de pretenso
partido mais votado - atenção que as eleições ainda não se realizaram... - a
liderar esse processo, porque não quererem consensos com um PS submetido a um
cenário político onde o PSD é o partido maioritário. Aliás Seguro sabe que não
terá maioria absoluta nenhuma apesar de ser natural que o PS lidere as
sondagens. Com tantos tiros-nos-pés, com tanta austeridade, com tanta
roubalheira nos salários, pensões e reformas, com tanto desemprego, outro
desfecho não seria possível. Sentado de sofá o PS nem precisa de pestanejar
para aparecer a liderar as sondagens, por demérito da maioria no poder e não
por qualquer mérito dos socialistas e do seu líder.
Resta saber depois, com o decorrer da campanha eleitoral, quando a
memória curta dos portugueses for sacudida e confrontada com a necessidade de
lembrar tudo o que se passou em Portugal desde 2005, quando nessa campanha
eleitoral todos os demais partidos de esquerda, temendo serem engolidos
eleitoralmente pelos socialistas, assumirem também um combate ao branqueamento
de responsabilidades, tão vergonhoso que até parece que Sócrates não esteve no
poder entre 2005 e 2011.
A esquerda está frenética e
insistentemente reivindicativa porque percebe que PSD e CDS não querem ir para
eleições, percebe que as autárquicas podem nem propiciar a tão propalada
vitória colossal
aos socialistas - e na altura veremos - e
percebe que não vamos continuar neste ambiente de recessão e de depressão
social, porque certamente a partir de 2014 alguma inversão do caminho terá que
acontecer, numa altura em que se fala na dinamização da economia e na
necessidade de repensar toda a política fiscal que massacra e rouba os cidadãos
e as empresas.
No
plano político os problemas da esquerda são outros. As pessoas precisam de ter
presente que toda esta gritaria nesta espécie de crise política, sobretudo
quando a esquerda política reclama concertadamente a dissolução da Assembleia
da República, tem a ver com figuras regimentais esgotadas e com a configuração
do parlamento nacional a qual impede qualquer queda do governo de coligação sem
o envolvimento do CDS. PS, PC e Bloco de Esquerda somam um total de 98
deputados, menos 10 que os 108 deputados do PSD pelo que mesmo que CDS
celebrasse apenas um acordo político com o PSD de incidência parlamentar, os
seus 24 deputados dificilmente votariam ao lado da esquerda contra
documentos-chave do governo, o que me leva a acreditar que provavelmente a
legislatura vai prolongar-se até Junho de 2014, altura em que a tróica abandona
o país.
Outro
dado que as pessoas precisam de saber - e que provavelmente ajuda a perceber as
palavras de Cavaco Silva quando lembrou que cabe à Assembleia da República derrubar ou não
os governos - prende-se com o facto de que PS, PCP e Bloco de Esquerda terem
esgotado a possibilidade de apresentarem nesta sessão legislativa uma moção de
censura ao governo de coligação, possibilidade que neste momento está apenas ao
dispor dos Verdes, que não passam de um apêndice envergonhado do PCP - já que a
reboque dos comunistas conseguem representação parlamentar que, caso
concorressem sozinhos, nunca teriam. O problema é que a esquerda já percebeu
que o CDS nunca votará ao seu lado, muito menos uma moção de censura apostada
na queda do governo. Ou seja, vamos ter mais gritaria nas ruas, a cargo de
submissas centrais sindicais, partidariamente falando, que não passam de meras
correias de transmissão do PCP ou do PS o que ajuda a perceber a crise do
sindicalismo em Portugal. Aliás esta semana ficamos a saber por um jornal, que
o estado é fiador da UGT desde 1996 já que a
conta geral do Estado de 2012 renova a garantia de 2,6 milhões de euros a favor
da UGT que tem quatro empréstimos no valor global de 3 milhões de euros.
Acresce
que este PS de Seguro sofre de uma tremenda e lamentável memória curta. Para
além de alimentarem de forma mentirosa a ideia de que não tiveram
responsabilidades pela situação em que nos encontramos, que defendiam outro
tipo de austeridade, menos radical, de esconderem que não foi o governo
socialista de Sócrates o rosto da falência do país, que não foi o governo
socialista de Sócrates a ir a correr pedir ajuda financeira externa, que não
foi o governo socialista de Sócrates a negociar o memorando de entendimento com
a tróica que traçou as linhas gerais da austeridade que, depois, este governo de
coligação se encarregou, lamentavelmente e de forma absolutamente criminosa, de
ampliar, ignorando as consequências dessa palermice nos portugueses, passam uma
esponja na história política do país.
Como o
PS tem a sua própria memória enferrujada, que lhe serve para tentar construir
uma enorme história da carochinha à volta de recentes situações caricatas de
demissões de ministros, lembraria o que ocorreu com o XVII governo
constitucional liderado por José Sócrates - e que esteve em funções antes do
governo seguinte que é a imagem da falência do país:
- o governo socialista de Sócrates tomou posse em 12
de Março de 2005;
- a 20 de Julho de 2005, demitiu-se o então ministro
de estado e das finanças Luís Campos e Cunha, quatro meses depois de tomar
posse. Segundo uma
fonte oficial, terá sido o próprio ministro a pedir a sua substituição,
alegando razões pessoais, familiares e cansaço. Foi substituído por Teixeira
dos Santos;
- a 30 de Junho de 2006, o então ministro de estado
e dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, demitiu-se, sendo substituído
por Luís Amado;
- entre 2005 e 2009 este
governo socialista de Sócrates foi objeto ainda de mais 11 mudanças, e apesar
dos socialistas disporem de maioria absoluta confortável no parlamento - embora
inferior ao somatório dos atuais deputados do PSD e do CDS - não tenho nos meus
apontamentos nada que indicie que alguém tivesse andado a reclamar eleições
antecipadas. Provavelmente fá-lo-iam se o país estivesse intervencionado e sob
protetorado, como está agora" (LFM-JM)